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sexta-feira, 13 de agosto de 2021

HOWARD WILLIAMS – TRIBUTO AO PIONEIRO DO “JEET KUNE DO” ORIGINAL DE OAKLAND


Existia no final da década de 1960, um pequeno grupo selecionado de alunos que pertenciam aos institutos Jun Fan Gung Fu, que mais tarde se tornaria os únicos três centros de instrução de Jeet Kune Do (O Caminho do Punho Interceptador) nos EUA, distribuídos em sedes localizadas nas cidades de Seattle, Oakland e Los Angeles.
Bruce Lee, entre os trabalhos participativos como coadjuvante em séries de TV, filmes, instruções de JKD para celebridades de Hollywood e demonstrações em torneios diversos de artes marciais, supervisionava também as três escolas que regularmente estavam sob a direção e comando de seus alunos mais experientes como Taky Kimura (em Seattle); James Yimm Lee (em Oakland); e Dan Inosanto (em Los Angeles). 
Ao mesmo tempo em que procurava sustentar sua família gerenciando todas essas atividades, Bruce Lee procurava promover sua concepção revolucionária para as artes marciais que se cristalizava numa visão renovadora que batizou de Jeet Kune Do. Uma arte marcial que não tinha uma forma definida ou acabada e que absorvia todos os caminhos a disposição, mas sem se prender a nenhum, estando em contínua evolução, aprendizado e adaptação sem se apegar a uma verdade definitiva, aproveitando tudo o que era útil, prático e efetivo e rejeitando tudo o que fosse excessivo, ilusório e fora da dura realidade das ruas. 
Esse tipo de visão também foi bem absorvido pelos principais alunos de Oakland que eram liderados por James Yimm Lee. Dentre os alunos mais proeminentes de Oakland podemos destacar Bob Baker, aquele que participou do filme “A Fúria do Dragão” (Fist of Fury – 1972) representando o lutador russo Petrov que enfrenta Chen (Bruce Lee) no final; e um jovem afro-americano chamado Howard Williams, o caçula daquela saudosa e pioneira turma de Oakland.

A primeira sede do Jun Fan Gung Fu Institute, na garagem da 
casa de James Lee, em Oakland.

Howard Williams é um daqueles homens discretos e de forte caráter que preferiu o anonimato durante todos esses anos, desde a morte de Bruce Lee, em 1973. Williams ficaria muito abalado com as mortes, praticamente seguidas, dos seus dois mestres. James Yimm Lee faleceria em dezembro de 1972, em decorrência de câncer nos pulmões e, Bruce Lee, que morreria poucos meses depois, em julho de 1973.

Howard Williams (de camiseta vermelha) e o respeitado Ted Wong
(de camiseta Branca) num evento de JKD na década de 1990.

Williams pensou em desistir, mas se apoiou nos alunos veteranos como Ted Wong e Jerry Poteet para continuar seu aprendizado, já que ele era um dos poucos (se não o único) a não ter qualquer outra experiência em artes marciais. O Jeet Kune Do seria sua primeira e única via. Howard Williams após alguns anos de reclusão, durante as décadas de 1970 e 1980, reaparece no cenário do Jeet Kune Do em 1990, incomodado com o rumo que o ensino do JKD tomou nos EUA e em todo o mundo. 

Howard Williams e George Tan na Convenção Bruce Lee realizada
em Birmingham, na Inglaterra, em 1990.

Juntos, Bob Baker, John Saxon e Howard Williams na Convenção
Bruce Lee promovida por George Tan, em Birmingham.

Em 1990, foi realizada uma convenção em Birminghan, na Inglaterra, sobre Bruce Lee, comemorando o cinquentenário de seu nascimento. A solenidade foi promovida por George Tan, um dos maiores estudiosos da vida de Bruce Lee. Os convidados ilustres foram o ator John Saxon (Roper, de Operação Dragão, 1973), Bob Baker e Howard Williams, que responderam diversas perguntas sobre suas experiências com o Pequeno Dragão.

Bob Baker, Howard Williams e George Tan em outro
momento da Convenção Bruce Lee, em solo inglês.

Três anos depois, o Dr. Jerry Beasley, estudioso de artes marciais e JKD, notou um interesse crescente no “JKD original” e promoveu um campo de treinamento de Jeet Kune Do em Radford, Virgínia, em 1993. O programa foi formado em torno do conhecimento e experiência de dois praticantes da primeira geração: Ted Wong e Howard Williams.   

Jerry Beasley, estudioso de Jeet Kune Do e grande fã de Bruce Lee.

Segundo Beasley, William falava suavemente e era sempre propenso a sorrisos, mas sob aquele exterior gentil, estava um homem capaz de movimentos explosivos e velocidade fenomenal com as mãos. Observou Dr. Beasley: “Howard poderia ter sido um instrutor de JKD popular, muitos o consideravam um dos melhores da primeira geração, mas ele (como Bob Baker) preferiu ficar longe dos holofotes. Ele era muito simpático e as pessoas sempre lembraram dele com muito carinho. É muito triste saber de sua morte.” Howard Williams faleceu em 02 de abril de 2012, aos 62 anos, vítima de um ataque cardíaco. 

Howard Williams, na posição de guarda adotada para o Jeet Kune Do.

Vamos então conhecer um pouco da história de Howard Williams e do seu pensamento sobre o verdadeiro conceito do “Caminho do Punho Interceptor”, nos deixado por Bruce Lee. Fiz uma coletânea de trechos importantes das poucas entrevistas que Howard concedeu na década de 1990, que pode nos dar um ideia de quem era o respeitado, temido e discreto representante do verdadeiro e original JKD, Howard Williams.

O Início de tudo com o Jun Fan Gung Fu – No verão de 1965, o jovem Howard Williams, de 15 anos, passeava de ônibus por Oakland com a mãe e o padrasto que lhe reservavam uma grata surpresa. Sem Williams saber até o momento, eles estavam em busca de uma academia de artes marciais para matricular o jovem inquieto. Williams estava procurando ansiosamente por uma academia de Karate, já que essa arte marcial japonesa, além do judô, era uma das mais aceitas na América. Na verdade, o padrasto de Williams já havia escolhido algo especial para o seu enteado. Era uma academia de Gung Fu (ou Kung Fu) comandada por um atlético jovem chinês de vinte e quatro anos conhecido como Bruce Lee. O padrasto de Williams lhe diria finalmente que “achou algo mais rápido que o Karate”.

Bruce Lee ao fundo (à esquerda) e James Yimm Lee mais à frente
diante da entrada do Jun Fan Gung Fu Institute na Broadway,
em Oakland, onde iniciaria a transição para o JKD.

O jovem Howard foi admitido na academia de Gung Fu e iniciou seus treinamentos em 1966, sob a direção de James Yimm Lee. Bruce Lee já não podia estar regularmente presente para lecionar por conta de seus compromissos com as filmagens da série de TV “O Besouro Verde” (The Green Hornet 1966-1967) em Los Angeles, mas ele se esforçava para estar presente ao menos uma vez por semana para supervisionar e atualizar suas descobertas. Howard Williams se lembrava, três décadas depois, daquela primeira aula que começou com uma rotina de chutes. Ele lembrou que não havia aula especial para iniciantes que eram jogados de imediatos no meio dos veteranos. Entre os mais experientes estavam pessoas como Bob Baker e Gray Gugganan, que lhe deram muita atenção e incentivo. Relatou Williams: “Naturalmente, eu era muito desajeitado e senti que nunca aprenderia, mas eventualmente depois de um ano e meio, percebi que meus movimentos haviam se tornado automáticos, que não precisava mais pensar para executá-los. Eu estava reprogramando meu cérebro para responder instantaneamente. Visto que estávamos em um sistema estruturalmente rápido, tínhamos que ser mentalmente rápidos também.”

Jogo de pernas (footwork), socos, chutes, chi são (mãos pegajosas) e exercícios para desenvolver energia ou potência eram práticas usuais. Howard Williams ainda lembrou que Bruce e James queriam seus alunos eliminassem o bloqueio, enquanto aperfeiçoavam a técnica de esquiva e contra ataque simultâneos com soco nas costelas ou chute barreira na canela ou joelho do adversário. Desferiam socos diretos triplos, sempre procurando quebrar o ritmo e não sendo previsíveis, usando por vezes golpes com a palma da mão e estocadas com os dedos. Howard lembrou que eram “incentivados por Bruce e James a tornar nossos movimentos mais curtos e rápidos. Não deveríamos ao menos perder o tempo de uma expiração para estarmos penetrando em nosso oponente.”

James Yimm Lee, um excelente instrutor que era paciente e cuidadoso com
 seus alunos, segundo o próprio Howard Williams.

O aprendizado com James Lee - Howard Williams fez questão de enaltecer o sifu James Yimm Lee como um excelente professor, muito paciente e cuidadoso que garantia que seus alunos absorvessem todos os aspectos do treinamento. Howard detalhou em entrevistas em meados de 1990, alguns pontos do ensino de James Lee: “Por exemplo, quando praticávamos o ‘chi sao’, ou mãos pegajosas, James nos fazia imaginar que estávamos dirigindo um carro, com as duas mãos no volante, mas usando apenas os pulsos, sobrepondo os braços em um pequeno arco. Ele enfatizava também o que chamava ‘da teoria para aplicação’. Devíamos observar atentamente o movimento de nosso oponente e, assim que ele movimentasse um músculo, deveríamos chutá-lo, socá-lo ou estocá-lo (nos olhos). Ele (James) dizia que assim que seu pé saísse do chão, seu equilíbrio ficaria prejudicado, de forma que, embora a mobilidade fosse fundamental, tínhamos que utilizar chutes e golpes em geral que nos permitisse manter uma rápida recuperação e o equilíbrio.”

Howard se manteve neste treinamentos por cinco anos, e presenciou a transição do que inicialmente era Jun Fan Gung Fu (ou Kung Fu de Lee Jun Fan) para Jeet Kune Do (Caminho do Punho Interceptador).

Bruce Lee e James Franciscus no set de filmagem da série televisiva
Longstreet, em 1971.

Ainda sobre James Yimm Lee e a filosofia do JKD exposta nos dois primeiros capítulos da série de TV “Longstreet” (1971): “Sim, porque a filosofia neste programa (de TV) era a que ele ensinou em casa. Não é difícil de conceber, porque Jimmy era um homem forte, mas por causa de sua idade, você sabe, ele estava chegando lá.  Bruce sendo 20 anos mais novo do que ele, era mais físico do que Jimmy, mas Jimmy era um ótimo praticante também, e não me interpretem mal, era um professor melhor para mim do que Bruce, porque ele nos dedicou algum tempo e garantiu que aprendêssemos a técnica, fazendo de novo, de novo e de novo. Os que cansaram foram embora e nunca mais voltaram. Aqueles que ficaram, aprenderam. E eu fui um dos que ficaram e aprenderam.”

 Obs.: O primeiro episódio da série “Longstreet”, estrelado por James Franciscus, foi justamente denominado “The Way of The Intercepting Fist” (O Caminho do Punho Interceptador). Bruce Lee era ator coadjuvante convidado e pôde expor seu conceito revolucionário em relação às artes marciais. Uma pequena ajuda do seu amigo e discípulo, o produtor, escritor e roteirista, Stirling Silliphant. Bruce participou de mais três episódios da série.

O simpático Howard Williams em entrevista na década de 1990.

A Essência do Caminho do Punho Interceptador - Howard Williams definiu o JKD certa vez em entrevista como “uma combinação de tudo e qualquer coisa que funcionasse e que você poderia agregar para chegar a algo funcional e prático, e que qualquer pessoa pudesse aprender e utilizar.” Sobre o que Bruce Lee queria expressar com o termo “Caminho do Punho Interceptador” disse Williams: “Bem, é interceptar a intenção emocional, ou seja, atingi-lo em seu primeiro movimento. Ele (Bruce Lee) era bom nisso, e essa era a principal coisa que ele queria que aprendêssemos a fazer. Intercepte, destrua e então você fará o que quer que seja de forma natural. Muito disso era criatividade também, mas sempre dentro das estruturas que nos passaram.”

Sobre as descobertas de Bruce Lee em relação às limitações do estilo Wing Chun, que era uma das bases fortes do JKD, observou Williams: “Quando ele percebeu que o Wing Chun tinha suas limitações, sendo que o poder (potência) era uma delas, ele começou a explorar meios que lhe dariam poder, mas basicamente ele modificou essa arte para que fosse mais adaptável a ele mesmo como artista marcial. Ele usou o Wing Chun como trampolim para alcançar outras coisas.” Conclui Howard Williams sobre a ação de interceptação do movimento de um oponente: “Na verdade, significa que quando um homem se move em sua direção, ele faz um certo gesto direcionado a você, seja um piscar de olhos, coçar o próprio nariz ou qualquer movimento. Seja o que for, você intercepta sua intenção emocional. Você já sabe que ele quer lutar, portanto você não precisa esperar por mais nada. Se ele fizer algum movimento, você reage. Você intercepta, destrói, assim como também poderá destruí-lo antes que ele faça qualquer movimento.”

Williams ainda fala sobre a capacidade de Bruce Lee não “telegrafar” seus movimentos: “Esse foi um de seus pontos fortes, uma das suas especialidades. É como se você quase pudesse ler a intenção e o motivo do outro lutador, embora não possamos ler mentes. Ele tinha movimentos ‘não telegráficos’ perfeitos que lhe permitiam interceptar sua intenção emocional.” Sobre como conseguir tal habilidade, explica Williams: “A forma é muito importante, não a forma clássica como no Kung Fu tradicional, mas a forma como na aplicação adequada da arte. Ser capaz de interceptar e pesquisar o movimento do corpo, o corpo em movimento, e quando você faz isso, você é capaz de saber e determinar as coisas que emite ‘sinais’. E assim que o sinal for dado... bum! Acabou!

Perguntado se Bruce Lee aprovaria o "JKD" que era ensinado nos anos de 1990,
Howard Williams foi direto: “Não, de forma alguma."

O Ensino do Jeet Kune Do nos dias atuais – Em meados da década de 1990, pediram a Howard Williams, em entrevista, uma avaliação sobre do ensino do Jeet Kune Do que era disponível pelo mundo naquela época, praticamente vinte anos após a morte de Bruce Lee, e se o JKD ensinado era o mesmo que Bruce Lee ensinou. A resposta foi essa: “Não, não, não, não! De longe não se parece ou se assemelha com o que Bruce estava tentando transmitir aos seus alunos da primeira geração. A maior diferença é que os movimentos são ‘telegrafados’ de forma grosseira, há muitos movimentos de ‘armadilha’ desnecessários e o jogo com as pernas é ruim. Assim como o tempo real de luta, não há ‘sparring’. Muitas coisas foram diluídas. É como ter um bom vinho diluído n’água, faltará o sabor."

Perguntado se Bruce Lee aprovaria o que é ensinado nos anos de 1990, Howard Williams foi direto: “Não, de forma alguma. Ele não aprovaria isso, porque não era isso que ele estaria tentando transmitir às pessoas atualmente ou naquela época também. Na verdade, ele provavelmente ficaria tão perturbado com toda essa coisa que fecharia tudo!” Acrescenta Williams: “Porque estão ensinando desespero organizado. Então vocês instrutores, é melhor vocês prestarem atenção no que estão fazendo (risos...). Os alunos, agora instrutores, devem aos seus alunos (atuais) a verdade. Essa é, mais uma vez, a principal razão pela qual saí do anonimato, porque quero ter certeza de que eles tenham, pelo menos, uma escolha inteligente a fazer entre o que está sendo ensinado e o que é a verdade. Então eles próprios podem decidir o que desejam.”

Obs.: Essa entrevista de Howard Williams foi concedida em 1990, será que as coisas melhoraram atualmente, em pleno 2021?

Prossegue, Williams: “Não é como se eu estivesse tentando dominar alguma coisa. Eu já tenho! Quero dar às pessoas a chance de escolher entre o que está acontecendo agora e o que Bruce, por seu legado, queria que nós soubéssemos. E de acordo com ele, todas as coisas surgem antes de tudo de dentro. Eles agora estão aprendendo coisas que vêm de fora e nem mesmo entendem quem são. Como você sabe o que está procurando se primeiro não entende quem você é? Descubra a causa da ignorância dentro de você e a batalha estará vencida pela metade. Então você tem que estar disposto a aprender, trabalhar duro e se aplicar para obter as habilidades que Bruce queria que aprendêssemos.”

Imagens de Howard Williams ensinando algumas técnicas de JKD.

A Transição do Jun Fan Gung Fu para Jeet Kune Do -  Lembrou Williams que no início, nos primeiros anos em Seattle, Bruce ensinava ‘Wing Chun’. Então quando ele veio (para Oakland) passou a ensinar o 'Jun Fan Gung Fu’, com elementos de Wing Chun, boxe e outras artes marciais que se adequavam à nova proposta. Assim, com o desenvolvimento dessa nova concepção ele mudou o termo para ‘Jeet Kune Do’, ou Caminho do Punho Interceptador. Segue Williams: “Sim, Jun Fan Gung Fu era na verdade o estilo de Bruce, ele apenas usou seu nome para ensinar outra forma de Kung Fu. Isso é tudo. Não é nada de especial, já era feito sob medida para Bruce, mas ele reconheceu as limitações dessa forma de ensinar e foi mais além.”

Williams acrescenta: “Bem, em 1966, quando entrei na escola, ela estava em plena transição. Acho que ele (Bruce) entendeu as limitações do que tinha e teve que dar um passo adiante. E quando o fez, mudou a postura de combate de Wing Chun para a nova postura de combate de JKD. Então, isso era mais econômico também. Foi muito mais suave a transição, com mais mobilidade e James cuidou que isso se encaixasse em nós. Ele (James) nos mostraria a versão clássica para em seguida nos apresentar a versão revisada, para que pudéssemos apreciar a diferença entre os dois estilos.”

Bruce Lee e James Lee em um momento de descontração 
no final da década de 1960. A transição do Jun Fan Gung Fu
para o Jeet Kune Do já havia iniciado.



Continua, Williams: “Bem, James de repente disse: ‘Bem, pessoal, vamos mudar agora, então. Ouçam! Bruce desenvolveu algo novo.’ E nós perguntamos: ‘O que poderia ser isso?’ Olhamos um para o outro e de repente ele nos mostrou essa nova postura, e todos pensamos que era boxe, sabe. E me lembro que inicialmente foi classificado como “kick boxing’, mas finalmente foi denominado ‘Jeet Kune Do’. As primeiras raízes foram implantadas ali mesmo, e com a mudança comecei a me sentir em casa, porque conhecia um pouco de boxe, pois havia mais mobilidade agora, armadilhas e outras coisas que foram acrescentadas. Havia ainda alguma semelhança com o antigo sistema, mas a velocidade e o poder eram agora maiores do que os anteriores.”

Finaliza Williams: “Não usávamos equipamento de proteção naquela época (em Oakland). A única forma de nos protegermos, na maioria das vezes, era apenas a mão sobre o rosto. Estávamos sempre à mercê do nosso oponente o tempo todo.”

O primeiro contato físico de Howard Williams com Bruce Lee – Williams: “Foi uma experiência incrível, realmente foi. Nunca me esqueço da vez em que ele nos mostrou seu mais novo degrau de desenvolvimento. Eu estava na frente daquele chute, porque eu era chamado por ele de ‘Robusto’.  Mas eu estava na frente daquele chute e ele disse que iria me chutar. E eu fiquei lá e ele me disse para tentar sair do caminho assim que percebesse que o chute fosse desferido. E fiz o melhor que podia para escapar e acredite, era uma situação desesperadora. No momento em que o chute me alcançou ele parou no meu peito e eu não pude me mover mais para trás, era tarde demais para sequer pensar em me mover, ele já estava lá. E eu senti o poder incrível, e passei a ter um respeito maior por Bruce Lee daquele momento em diante, porque percebi o poder que vinha daquele chute. E foi realmente uma sensação incrível ver algo assim em primeira mão, pois estávamos todos ansiosos. A partir daí fiquei determinado a desenvolver o poder dos meus chutes para ser como os de Bruce Lee.”

Flagrante de uma festa de aniversário surpresa para
James Yimm Lee, em Oakland.

Ainda sobre Bruce Lee: “Bruce gostava de brincar, ele era um brincalhão muito prático. Ele tinha um temperamento explosivo também, mas basicamente quase nunca vinha à tona, a menos que ele sentisse que estava sendo excluído de algo, ou quando sabia que um aluno tinha algo (a mostrar) e se recusava a se soltar, relaxar e seguir em frente; então você podia ver um pouco daquela raiva saindo, mas era principalmente frustação, porque ele queria tanto ver aquela pessoa ter um preparo de luta decente dentro de si e desenvolvê-lo ...). Já o vi levantar a voz e o vi descontar nos alunos às vezes, mas nunca o vi ficar realmente irado para querer socar alguém. Não, nunca vi isso. Acho que tudo isso pode ter acontecido nos bastidores de seus filmes quando ele teve que fazer isso para sobreviver, porque existem tantas personalidades diferentes para lidar, e é muito diferente de ensinar artes marciais a alguém.  

Armas Brancas e a Real Aplicação do JKD -  Perguntado se a utilização de nunchaku, bastões curtos e longos (bo), vistos nos filmes de Bruce Lee, faziam parte do programa de treinamento do JKD, Williams respondeu: “Não, não utilizávamos armas, porque Jimmy (James Lee) costumava dizer: ‘Quantas vezes você poderá andar pela rua com varas e facas na mão? Você só irá usar o que tem disponível para se defender. Você não poderá dizer ‘ei, espere um minuto! Tenho que ir pegar meu taco, já volto, não se mexa, estou voltando!’ - Não! Você vai dizer: ‘Ok! É assim que as coisas são!’ – Socos, estocadas e está tudo acabado, tira a faca dele e segue com tua vida.  Assim, tivemos que aprender tudo com nossa a matéria-prima, as mãos e os pés.” Segue Williams: “Bem, vamos colocar da seguinte maneira: eu posso pegar dois bastões e aplicar JKD com eles e você vai jurar que aquilo foi ‘Kali’ porque os movimentos foram naturais. Mas tudo é apenas uma extensão da minha mão. Simples assim. Nada de especial, nada para tentar aprender a fazer, é só pegar as varas e usá-las. Você pergunta como seria possível sem um treinamento prévio? Simples, o que você faz com as mãos, você pode fazer com bastões, simples assim.”

A Ausência de Competições no JKD – Explica Howard Williams: “Bem, em primeiro lugar, a razão de nunca termos dessas coisas foi que James e Bruce não acreditavam em divulgar a arte e colocar regras e regulamentos restritivos que regem os lutadores de torneio e lutadores de contato, porque o JKD é estritamente uma ‘Arte de Luta de Rua’ onde não existem regras aplicáveis. Vale tudo e a atitude é ‘faça ou morra, mova-se ou você perde’. Você será desqualificado com essa atitude (num torneio com regras).”

A Razão de nunca se ver Professores e Alunos com as Habilidades de Bruce Lee – Reponde Williams: “Isso é porque os professores não têm habilidades como as de Bruce. Você não pode culpar os alunos. Porque eles vêm às academias para aprender, e quando o professor não tem (habilidades), os alunos também não terão, e você continua obtendo uma versão mais diluída da verdade.” Perguntado sobre qual é essa verdade, Williams responde: “Bem, a verdade em relação ao JKD é que ele está sempre mudando. O fato é: está sempre mudando, a verdade em JKD está sempre mudando, onde em outras artes é estilizado, limitado e cristalizado na abordagem ‘isto e aquilo’. Sendo uma abordagem não natural. É como tentar ensinar um canhoto a ser destro e vice-versa. Você não pode fazer isso. Ensine a pessoa como lutar de onde ela está. Descubra a causa da ignorância, isso também é parte da verdade. Antes de poder ensinar a verdade, você deve entender de onde ela vem em relação a você. Não de Bruce Lee, não de James Lee, ou qualquer outra pessoa, mas de você. Então, JKD, quando se trata de verdade, só se aplica a nós mesmos e à descoberta da causa de sua própria ignorância.”

A Semelhança entre Howard e Bruce Lee no Modo (quase arrogante) de Ser – Diz, Howard: “Oh, é confiança, ninguém pode ter mais confiança em você do que você mesmo. Se você continuar com a atitude derrotista de ‘não posso fazer isso’ ou ‘não consigo’, para mim ‘não posso’ significa ‘não vou’. Se você treinou para algo por tempo suficiente, e treina da maneira certa na verdade, então você não terá problemas em concentrar sua confiança quando se trata de lidar com outras pessoas e outras suas artes marciais; e os outros também podem ver isso. Não é ser arrogante, é apenas ser capaz de entender quem você, é ser capaz de vivê-lo. Se alguém me perguntar o meu nome, não preciso dar de ombros, digo ‘Howard’, com orgulho e confiança.”

Jesse Glover, foi o primeiro aluno de Bruce Lee em território americano.
Mais precisamente, em Seattle, Bruce ensinou  Wing Chun  tradicional
para os seus primeiros alunos. Glover preferiu não acompanhar a transição
para o Jun Fan Gung Fu, posteriormente chamado de JKD.

O Apelido “Flaspoint” e a Relação com Jesse Glover – Explica, Howard: “Bem esse apelido me foi dado por causa da minhas habilidades naturais e por passar a meus alunos um treinamento adequado que lhes ajudariam escapar naturalmente dos problemas que poderiam enfrentar nas ruas.” Perguntado sobre sua relação com Jesse Glover, o primeiro aluno de Bruce Lee nos EUA, respondeu Williams: “Bem, não somos bons amigos, mas nos conhecemos e nos falamos. Ele conhecia meu padrasto e minha mãe. Eu era tão jovem, o mais jovem de todos, e todo mundo era 10 ,15 ou 20 anos mais velho do que eu, mas com o passar do tempo, descobrimos que, não importa como Bruce se desenvolveu, a verdade ainda permanecia a mesma: é poder, velocidade e franqueza. E o que realmente importa não é tanto o quão forte você é, o quão rápido você é, mas quem pode chegar lá primeiro, determinará o resultado do combate. E a velocidade tem o seu lugar no JKD, acredite em mim. Poder! Já vi pessoas que acertam com uma velocidade estonteante, mas é como jogar um ovo em um pedra, simplesmente bateu. Nada! Já vi gente que tem a força de um rinoceronte, mas demorou dez anos para chegar lá, aí o oponente já cortou as fatias e foi embora (risos...). Portanto você precisa ter uma combinação de ambos para ser eficaz.” Respondendo se ele e Jesse Glover, apesar de serem de tempos e períodos diferentes, acharam a mesma ‘verdade’, esclarece Howard: “Porque os princípios eram os mesmos. Só que a forma de aplicá-los era um pouco diferente. Princípios e verdade..., você não muda princípios por uma causa. Só porque você desenvolveu uma maneira diferente de aplicar suas habilidades, não significa que você mudou seus princípios, que são velocidade e força, golpe e mais golpe.”

Obs.: - Jesse Glover era afro-americano como Williams e foi o primeiro aluno de Bruce Lee nos EUA, assim que ele se estabeleceu em Seattle. Entretanto, após Bruce Lee iniciar a transição do Wing Chun para o Jun Fan Gung Fu e posteriormente para o Jeet Kune Do, Glover preferiu se manter no ensino inicial, preservando o que Bruce Lee lhe passou e que era baseado no ensinamento do Wing Chun tradicional, desenvolvendo posteriormente seu próprio caminho com essa base.

O seu Jeito de Ser e Habilidades do próprio Howard Williams – Assim se define o próprio Williams: “Eu me lembro, às vezes Jimmy costumava nos contar algumas das coisas que aconteceram no passado, sobre o seu treinamento da ‘Palma de Ferro’ e porque era inútil, ao invés de apenas tentar desenvolver força, profundidade e penetração. Agora, não tenho mais calos nas mãos, mas tenho marcas nos nós dos dedos de onde pratiquei em diferentes superfícies, mas não há mais calosidades. É apenas descoloração dos nós dos dedos por causa do meu treinamento, você pode ver. Não é difícil, mas o poder que está por trás disso é difícil (de se obter). Isso vem de dentro de você e, em seguida, projeta-se para fora, mas você só obtém de algo o que colocou neles. Eu coloquei muitas horas em treinamento e ainda estou desenvolvendo também.”

Sobre sua rapidez, dizia Howard: “São apenas movimentos
não telegrafados que possuo." 

Ainda sobre sua rapidez, complementa, Howard: “São apenas movimentos não telegrafados que possuo. Eu não telegrafo meus movimentos. Eu pessoalmente sinto que posso desenvolver minha velocidade a ponto de parecer que não estou me movendo e eles (oponentes) não vão me ver mover muito antes de eu chegar ao ponto. Me perguntaram se é necessário toda essa velocidade, então eu disse que não queremos perder tempo. Quanto mais você envelhece, as leis da física vão contra você, e você tem que se tornar mais sábio, tem que chegar lá mais rápido, você não pode perder tempo pulando como um coelho ou um boxeador estiloso. Na minha idade ainda tenho um pouco de poder e velocidade para desenvolver, mas algumas pessoas acham que sou rápido agora, mas em alguns meses ou um ano, eles verão algo mais. E eu digo isso de coração, não estou dizendo algo que apenas me vem à cabeça. A economia de movimentos se torna muito importante. Você deve se colocar em uma posição em relação ao lutador onde você estará seguro, mas ele não.  Qualquer coisa que ele fizer, você poderá pegá-lo, mas ele não poderá te pegar.  Você não precisa ficar dançando como um boxeador estiloso, tentando provar alguma coisa, você não quer ser outro Muhammad Ali. Não quero imitar nenhuma dessas coisas, isso custa tempo e movimento, e pode custar sua vida. Ainda estou desenvolvendo e aprimorando minhas próprias habilidades e posso me tornar mais rápido e poderoso do que sou agora, mesmo nesta idade. Não há limite para o condicionamento físico, exceto quando você morre.”

Obs.: Howard Williams estava com 39 anos, quando concedeu essa entrevista.

A Seriedade na Direção dos Treinos nos tempos de Bruce e James Lee -  Lembrou Howard Williams: “Jimmy fez! James fez isso com certeza. Bruce, tenho certeza que ele levou seus alunos a sério também, mas basicamente eles (os alunos) não conseguiam acompanhar o ritmo verdadeiro do JKD. É por isso que as aulas oscilaram tanto, porque eles não conseguiam acompanhar o ritmo do treinamento.”

Bruce Lee efetuando quebramento de tábuas (seguras por James Lee)
com seu lendário chute lateral.

O Chute Lateral de Howard Williams comparado ao de Bruce Lee e o Aparelho de Chutes de 300 libras -  Explica Howard que, como se sabe, evitava utilizar seu chute lateral com a perna direita em exibições, por ser muito poderoso: “Não era um saco de pancadas ou uma bolsa, era um aparelho de chute tipo prancha, adaptado com molas de amortecedores de carro e que pesava 136 quilos. Treinávamos chutando aquela coisa para conseguir perfurar nossos companheiros de treino. Se você conseguisse um bom chute, esmagaria tudo que estivesse no caminho. A prancha iria voltar para trás ao ser chutada, se não fosse um bom chute, ela o chutaria de volta. Faria um pouco de barulho, mas ela não se moveria. Então foi assim que ele (Bruce) desenvolveu e controlou seu chute lateral.  E ele nos mostrou muitos exercícios para desenvolvermos nossos chutes. Ele (Bruce) foi capaz de empurrar aquela prancha e abalar as fundações, assim como eu. Eu e o Bruce.”   

James Lee (perito soldador) foi quem confeccionou a "prancha"
de 300 libras para o treinamento do chute lateral.

E ainda sobre o aparelho desenvolvido por James Lee, completou Howard: “Bem, Greg (filho de James Lee) costumava mencionar que ouvia seu pai e Bruce falando sobre mim e o desenvolvimento de minhas habilidades, e especialmente sobre eu conseguir balançar a mesma máquina de chutes (criada por James) da mesma forma e com o mesmo poder de Bruce Lee. Um dia estava na presença de Bruce e ele me chamou de ‘robusto’, por causa da minha habilidade e tamanho.  Ele sentiu que eu tinha algo com que trabalhar. Ele poderia me moldar e esculpir todas as minhas coisas não essenciais para me tornar o que sou hoje. E ele e James se saíram muito bem. Eu tinha 19 para 20 anos.” Perguntado sobre sua velocidade em comparação à de Bruce Lee, responde Williams: “Bem, de acordo com James, eu era natural no que diz respeito às minhas habilidades. E eu não tive que trabalhar tanto quanto Bruce Lee, mas não me comparo com meu Sifu dessa maneira. Ele viu o que eu tinha, pegou e transformou no que tenho hoje. Não gosto de comparar minha velocidade com a velocidade dele (Bruce Lee). Não gosto destas coisas, é desrespeito. Eu respeito meu Sifu. Eles eram meu Sifu. E quando você trabalha duro em algo, é orgulho e alegria deles ver você desenvolver e até superá-los, pois assim puderam ver os frutos do seu trabalho, que não foi em vão. Então, se ele estivesse vivo hoje, provavelmente ficaria muito satisfeito, eu acho, e provavelmente gostaria de experimentar mais coisas comigo. Então, neste aspecto, eu diria: Minha velocidade em relação à dele? Quem sabe aonde isso poderia ter me levado? Ainda não terminei com o desenvolvimento de minha velocidade.”

Howard Williams: “JKD é o que é, natural. É só isso. Não é um estilo." 

O Significado do Termo e Filosofia do Jeet Kune Do – Explicou Williams: “Bem, Bruce realmente não queria chamá-lo (de método, sistema ou caminho) de nada. Vou te dizer porquê: ‘quando você é criança ou adolescente, não sei, há um momento na sua vida que talvez tenha começado uma briga e você teve que se defender. E aquele cara estava realmente tentando arrancar sua cabeça. Como você chamaria isso que usou para se defender? Pense nisso por um segundo. Ok, o tempo acabou. Nada! Você não pode chamá-lo de nada. Por que? Porque realmente aquilo foi você! Você não pode chamá-lo além de ‘você mesmo’, a expressão de você próprio. Não é ‘Jeet Kune Do”, que eu chamo de ‘Caminho do Punho Interceptador’. Na verdade, não é nome algum. Você pode olhar para uma garrafa de suco de laranja sem nomeá-la, você pode olhar para qualquer coisa sem nomeá-la, você pode olhar para si mesmo sem nomear-se. Nomear o que você é? Você é apenas um ser humano, você é um artista marcial, qualquer coisa que você queira ser. Então, quando se trata de se defender na rua, você usa o que lhe é natural na hora.” Prossegue, Howard: “JKD é o que é, natural. É só isso. Não é um estilo. É por isso que muitas pessoas não aderem muito bem a ela (arte), porque estão procurando por essa gloriosa expressão em forma de flor, e ela não está lá. É pow! Direto ao ponto. E está tudo acabado.”

A  Concepção de um Verdadeiro Lutador – Assim respondeu Howard Williams: “Em minhas palavras, um verdadeiro lutador dever primeiro ser fisicamente apto, forte e capaz. Esses são apenas os atributos externos. Mas existem algumas pessoas que não possuem essas habilidades físicas, mas têm o coração e a verdadeira maneira de pensar. Para mim, eles podem ser tão bons, porque todo lutador, todo ser humano tem algo que pode desenvolver para usar e se defender e poder aumentar sua habilidade de luta; agora, eu pessoalmente diria que você pode ter todas as habilidades de luta que deseja.”

Flagrante de Howard Williams aplicando o "Soco de Uma Polegada"
em um aluno.

O Soco de Uma Polegada – Relata Williams: “Sim, me foi ensinado e gera muito poder. Na verdade foi feito para demonstrar a eficácia da posição de guarda (do JKD) de onde teria que recuar. Na verdade o ‘Soco de uma ou duas polegadas tem muito mais poder do que a maioria dos socos. Se você tem o verdadeiro poder, comece a 20 cm de distância e não se preocupe com nada. Mas a verdadeira capacidade de dar o soco de uma polegada reside na química simples de estar focado. Reunindo todos os elementos em um e concentrando sobre eles, e quando você o faz, você percebe que tem algo em você que nunca imaginou ser possível. É uma coisa perigosa ter contato com o verdadeiro ‘soco de uma ou duas polegadas’. E eu demonstrei isso para várias pessoas aqui onde estou agora, e elas nunca viram nada parecido. Agora eu me lembro que para aprender o soco de uma ou duas polegadas, eu tive que praticar, praticar e praticar. E fiquei tão frustrado que voltei para Bruce e pedi-lhe para que me mostrasse como era feito. E ele me disse para assistir. E quando ele fez isso, eu prestei muita atenção, e você pode imaginar a concentração que tive naquele momento tentando aprender como ele fazia. Ele disse: ‘É isso!’ Esse era o segredo: Foco! Limpando sua mente de todas as obstruções que existem nela. Ser capaz de colocar em foco toda a formação que lhe foi ensinada ao longo dos anos e meses que pôs em prática, e simplesmente fazê-la sem pensar. Não me dei conta, eu estava lutando para tentar fazer algo que fosse natural. Esse é todo segredo de todo o legado do ‘Caminho do Punho Interceptador’: fazer o que é natural. Conheço algumas pessoas que olham para uma arte e dizem: ‘bem, quanto mais complexo for, melhor deve funcionar’. Não, pelo contrário!”

"Bruce Lee era, antes de tudo, um ser humano..."

Bruce Lee por Howard Williams – “Bruce Lee, como eu conhecia, é o que gostaria de mencionar brevemente agora. Você sabe, há muitos mitos em cima de muitas coisas que aconteceram, mas o que é real deve ser mencionado, e isso é que Bruce Lee era, antes de tudo, um ser humano que se tornou um artista marcial. Qualquer coisa que ele desenvolveu veio desses dois elementos, o ser humano e o homem. E muitas pessoas me perguntaram: ‘E os métodos de treinamento de Bruce Lee?’ Bem, há muitos boxeadores que treinam duro, muitos esquiadores que treinam duro, mas o que diferencia aqueles que são apenas medíocres dos que se tornam campeões e seguem para se destacar além do que é necessário deles? É a sua capacidade física? Não! É outra coisa? Claro! Então o que é? Em primeiro lugar, Bruce estava preso em um espécime físico. Nascido em San Francisco, foi criado em Hong Kong. Agora, quando criança, era magro, franzino e não tinha muito o que esperar. Mas quando ficou mais velho, começou a se preocupar com isso, e se perguntou como se sairia sem seus amigos quando estivesse sozinho num beco precisando se defender. Então ele começou a aprender e estudar Wing Chun. Seu pai foi o seu primeiro professor (de Tai Chi Chuan) e é claro, isso não era o suficiente para ele. Ele começou a montar os alicerces de um campeão a partir daí, porque não bastava ter apenas um, ele queria saber de tudo e queria ser bom nisso. Ok, então ele persistiu e continuou, e eventualmente, aos 18 anos, tornou um homem que decidiu voltar às suas raízes em San Francisco. Na época era bastante fiel ao Wing Chun quando se mudou para Seattle. E ele abriu uma pequena escola e começou a fazer suas coisas lá. E ele percebeu que o Wing Chun era rápido, mas faltava poder. E essa foi sua primeira descoberta das limitações de sua arte, e cada limitação importunou Bruce Lee imensamente, mas ele estava determinado a querer superar essa fraqueza, qualquer fraqueza. Então ele persiste, continua e se torna louco pelo poder. Então ele consegue ‘turbinar’ o Wing Chun, o Wing Chun turbinado, e o poder que deveria ter. Então ele pensou que era o máximo, até que viajou para Hong Kong, e adivinhe o que ele descobriu? Que ele não era tão bom quanto pensava que era, entende? Os alunos que estavam sob o ensino de Ip Man também estavam se desenvolvendo e eram capazes de pegá-lo tantas vezes quanto ele também conseguia, se não mais. Mais uma vez, provando que Bruce era mortal, humano e falível. Então tudo aquilo o perturbou tanto, mesmo depois de desenvolver aquele poder, que ele quase desistiu completamente das artes marciais quando voltou para Seattle. Mas ele pensou sobre isso e começou a perceber que havia uma limitação com a qual ele não poderia viver, e ele não poderia simplesmente desistir. Então ele começou a aumentar o calibre e perseguir a causa de sua ignorância. Foi aí que ele deu o primeiro passo em uma longa jornada: descobrir quais eram suas fraquezas e limitações e tentar compensar humanamente isso da melhor maneira possível. Descobrir a verdade não é fácil, e uma vez que a descubra, dói. Então ser capaz de se sobrepor e se elevar exige um pouco mais aqui do que a maioria das pessoas está disposta a oferecer. Apenas ser porque você é bom em pular corda, no saco de pancadas e tudo isso, não significa nada! É o que está dentro de você, é a essência de ‘você’, o verdadeiro ‘você’ surge então. Você está disposto a fazer o que for preciso para se tornar um campeão? Em vida, Bruce era! Ele estava determinado a fazer com que funcionasse e descobrir o que poderia fazer para melhorá-lo. Então ele começou a modificar, a cultivar e a ler livros e tudo o que havia sobre lutas e diferentes estilos de combate. Estava nascendo o Jeet Kune Do. Mas nem mesmo ele sabia disso. 



"Ele era o seu maior amigo e o seu pior inimigo. Ele estava competindo
consigo mesmo." -  Williams, sobre Bruce Lee.

E disso veio o conhecimento do que temos hoje, e isso continuou a crescer. Mas isso não foi o suficiente para ele; ele ainda tinha o ímpeto de querer ser o melhor, mesmo dentro de suas próprias fileiras. Ele era o seu maior amigo e o seu pior inimigo. Ele estava competindo consigo mesmo. Se ele não estava satisfeito com o progresso que tinha feito, então não descansava até descobrir a causa daquela ignorância e continuava a desenvolver, e a desenvolver. Quanto mais velho ficava, mais sábio ficava, melhor se tornava e mais determinado era para obter sucesso. Esses são os atributos que estavam nele e em todos que ele ensinou ao longo do caminho, naqueles que participaram da primeira geração do JKD. Tive a sorte de estar lá para ver muito dessa transição, e estar envolvido em muitas dessas mudanças, e no nascimento de um novo sistema, uma nova maneira de pensar, uma nova maneira de lutar. E então, a filosofia que se seguiu, era realmente para não chamá-la de nada, mas uma expressão de quem você é. Descubra a causa da ignorância, então você descobrirá quem você é. Quando você descobrir quem você é, poderá aplicá-lo à sua arte. Excelência gera excelência, sucesso gera sucesso, fracassos geram fracassos. Mas nada supera o fracasso, exceto uma tentativa, e não importa o que você tem, quem você é, de qual sistema você vem; você sempre pode aprender algo com o JKD e aplicá-lo. Veja, o meu trabalho não é pegar você e mudar quem você é. Mas para o que você tem, e fazê-lo concentrar-se apenas no natural, seja um soco direto, chute, qualquer coisa. Pegue-o torne-o melhor para você, Isso é o que Bruce se esforçou para nos dar hoje, o legado que temos hoje. E não está sendo ensinado, não está sendo transmitido adequadamente; então é aí que eu entro, para ajudá-lo a descobrir a causa da sua ignorância. Não ser como Bruce Lee, mas ser como você, ser o melhor que você pode ser; é disso que se trata!”

Howard Williams - 1950/2012

Por Eumário J. Teixeira.

sábado, 12 de junho de 2021

BRUCE LEE - DESENHOS CAPTURADOS NA REDE - Seleção VI

Outra Seleção de Pinturas e Desenhos de primeira que pesquei na Internet. Não consegui identificar os autores das obras, mas acho que vale a pena postá-los. Se algum artista reconhecer seu trabalho neste blog, favor se identificar e, desde já, meus parabéns. Então amigos, qual  a pintura ou desenho que mais lhe agradou?

01 - Desenho a partir de uma foto de cena do filme O Voo do Dragão, 1972.

02 - Pintura a partir de um foto de cena do filme Operação Dragão, 1973.

03 - Desenho a partir de uma foto promocional em 1971.


04 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme O Jogo da Morte, 1978.


05 - Pintura a partir de uma foto durante cena de luta do filme Operação Dragão, 1973.


06 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme A Fúria do Dragão, 1972.


07 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme O Jogo da Morte, 1978.


08 - Pintura a partir de uma foto durante cena de luta do filme O Voo do Dragão, 1972.


09 - Desenho a partir de uma foto promocional em 1971.

10 - Pintura a partir de um foto de cena do filme Operação Dragão, 1973.

11 - Pintura a partir de uma foto promocional no intervalo
das filmagens de Operação Dragão, 1973.

12 - Pintura a partir de uma foto promocional no intervalo
das filmagens de Operação Dragão, 1973.

13 - Pintura a partir de uma foto durante cena de luta do filme A Fúria do Dragão, 1972.




14 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme O Dragão Chinês, 1971.


15 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme O Jogo da Morte, 1972.

16 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme A Fúria do Dragão, 1972.

17 - Pintura a partir de uma foto promocional em 1972.



18 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme O Jogo da Morte, 1978.


19 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme Operação Dragão, 1973.

20 - Pintura a partir de uma foto de cena do filme Operação Dragão, 1973.

21 - Homenagem ao dia da Independência dos Estados Unidos da América.

Por Eumário J. Teixeira

terça-feira, 13 de abril de 2021

BRUCE LEE E O BOXE

                        

Bruce Lee quando chegou aos Estados Unidos, estava por fazer 19 anos no ano de 1959. Quase um anos antes, em setembro, ele tinha participado de mais uma edição do torneio anual e interescolar de Boxe em Hong Kong. Ele não tinha um treinamento adequado de boxe na ocasião e foi inscrito há poucas semanas do início do torneio, por insistência de alguns colegas e do Frei inglês conhecido como “irmão” Edward, da Escola Saint Francisco Xavier, a qual representaria na referida competição. Mas Bruce se sentiu suficientemente seguro para participar, pois já treinava Wing Chun na melhor escola da ilha há mais ou menos quatro anos e ele não costumava fugir de algum desafio.

O jovem Bruce Lee numa disputa intercolegial de Boxe
em Hong Kong no ano  de 1958.

Na foto à esquerda, Gary Elm de calção escuro era o tricampeão do torneio,
mas perde o título para o estreante Bruce Lee, na foto à direita.

Como é do conhecimento da maioria dos fãs do Pequeno Dragão, ele venceu o tricampeão consecutivo, Gary Elm, da Escola King George V, por decisão unânime; ainda que não conseguisse nocauteá-lo, utilizando golpes de boxe mesclados com bloqueios e socos característicos do Wing Chun.

Essa foi a introdução de Bruce Lee no boxe, ao menos é a que foi mais relatada. Desde então Bruce Lee não desprezaria o boxe em algum momento de sua vida, pelo contrário, o seu interesse pela Nobre Arte só viria aumentar.

A Redescoberta do Boxe nos EUA – Ao chegar nos EUA, Bruce não demorou em conquistar novas amizades e adquirir seus primeiros discípulos, muitos dos quais viriam até ele com alguma bagagem de experiência em outros estilos de luta e artes marciais. Destes alunos, Leo Fong e Daniel Lee tinham certa experiência com o boxe. Dan Lee (1930-2015) foi campeão de um Torneio de boxe em Xangai, no ano de 1948, quando tinha 18 anos. Dez anos depois ele fugiria da China com a família antes do terror comunista fechar totalmente as fronteiras para o mundo exterior. Dan Lee e família se refugiaram em Taiwan para depois migrarem para os EUA, em 1953.

Daniel Lee, campeão de Boxe em Xangai, na China em 1948
 e seu professor de JKD, Bruce Lee.

James Lee apresentou Leo Fong à Bruce Lee.

Leo Fong foi um dos incentivaram Bruce Lee a se aprofundar na
prática e no estudo científico do Boxe.

Quando Bruce Lee se mudou para a casa do seu amigo e aluno James Yimm Lee (1920-1972), em 1964, na cidade de Oakland (Califórnia), ele conheceu Leo Fong (nascido em 1928), um amigo de James Lee. Bruce logo percebeu que tinham também muitas ideias em comum e o mesmo interesse pelo boxe. Leo Fong já tinha participado do torneio Luvas de Ouro nos EUA e sido campeão noutra competição de boxe amador.

O Ponto Decisivo para o Retorno ao Boxe – Todo estudioso sério de Bruce Lee conhece sobre sua famosa luta contra o representante do complexo de Escolas de Kung Fu Chinesas de San Francisco (Califórnia), um praticante do estilo Shaolin do Norte, chamado Wong Jack Man. O confronto se deu no final do ano de 1964. Todos sabemos da história oficial que teve testemunhas dos dois lados. Conta-se que Bruce Lee venceu a disputa após longos e exaustivos três minutos. Ambos os lutadores tinham 24 anos de idade. Wong Jack Man não teria oferecido muita resistência e até vergonhosamente dado as costas para a luta, girando e abaixando, mas sendo perseguido implacavelmente por Bruce Lee que o socava na nuca e nos ombros, quando finalmente Wong se desequilibrou e caiu, sendo então forçado a desistir. Bruce chegou a confessar que se Wong não desistisse naquele momento a disputa ainda estaria em aberto, pois já estava sem nenhum fôlego. Mas onde entra o boxe nessa história?

Leo Fong definitivamente impulsionou Bruce Lee para 
um envolvimento mais sério com o Boxe.

A Influência de Leo Fong – Leo Fong, veio da China diretamente para Seattle (EUA) ainda criança com seus pais e irmãos. Começou nas artes marciais na década de 1950, experimentando inicialmente o Judô e Jiu-Jitsu. Na década seguinte partiu para o aprendizado do Choy Lay Fut, Shaolin do Norte, Wrestling, Taekwondo, Wing Chun e Boxe ocidental.  Leo Fong anos mais tarde criou o seu próprio sistema de luta, o Wei Kuen Do (Caminho do Punho Integrado) após Bruce Lee o ter incentivado a se desvincular das escolas tradicionais e procurar o seu próprio caminho.

Fong Conheceu Bruce Lee através de James Lee, como já foi mencionado, e foi justamente na época do confronto deste contra Wong Jack Man. Bruce Lee teria relatado posteriormente os detalhes desta disputa ao amigo recente, Leo Fong, que por motivos de trabalho não pôde estar como testemunha junto a James Lee e a esposa de Bruce (Linda) grávida de Brandon, na época.  

Fong percebeu que Bruce teria adotado contra Wong a postura ereta e tradicional de Wing Chun, avançando em linha reta e desferindo os socos diretos em sequência cobrindo a linha central que impediu uma reação de seu adversário, que supostamente teria um “arsenal” mais variado. Mas, ao mesmo tempo, essa postura de ataque tradicional do Wing Chun não oferecia alternativas de golpes para Bruce atingir em definitivo e com contundência a Wong (que fugia desesperado). Os socos diretos de Lee não foram eficientes. Quando ouviu esse relato, Fong teria dito: “Você deveria ter desferido ganchos e uppercuts, procurando boxear com ele!”

Leo Fong logo apontou os erros de Bruce Lee no confronto
com Wong Jack Man.

Mas outra coisa que ficou clara nesta luta de apenas três minutos, é que Bruce estava sem condicionamento físico adequado, pois se cansou rapidamente. Se Wong estivesse melhor preparado talvez o resultado fosse outro. O que pesou para a vitória de Lee foi a sua obstinação e seu desejo de ganhar a qualquer custo.  

Na reflexão de Bruce Lee sobre as limitações do Wing Chun que, de certa forma, era prático mas limitado, ele concluiu que se sentiu preso e sem condições de adaptabilidade para um confronto real e de circunstâncias imprevisíveis. Além de ter percebido a carência de ritmo, da inexistência do jogo de pernas e de opções para desferir socos de ângulos diferentes, existia a questão física onde a capacidade aeróbica, na época, era tão negligenciada por muitos artistas marciais.

Após a experiência decepcionante com Wong Jack Man, e apesar de
ter ganho a luta, Bruce Lee incorporou de vez o Boxe em sua
prática diária de artes marcais.

Quando apareceu na casa de James Lee pouco depois desse evento, Leo Fong presenciou Bruce Lee socando um saco pesado, desferindo jabs, diretos, ganchos, cruzados e uppercuts. Lee também se sustentava nas pontas dos pés, movendo-se sempre. Fong percebeu que a partir daí Bruce Lee começava a encarar o boxe com mais seriedade e de forma científica, ainda que com liberdade e espontaneidade, inerentes da arte. Bruce se libertou daquela fixação do Wing Chun como uma arte definitiva; agora a ciência do boxe lhe abriu os olhos e lhe deu novas perspectivas.

A nobre arte então passaria a ser um dos principais pilares para a concepção do Jun Fan Gung Fu (mais tarde chamado Jeet Kune Do), além do Wing Chun Kung Fu, da Esgrima Ocidental, Wrestling e do Judô.

Daniel Lee, um dos mais confiáveis e aplicados alunos de
Bruce Lee nos tempos do Jun Fan Gung Fu, pré-Jeet Kune Do.

A Experiência e o Incidente com Daniel Lee – Em 1948 ocorreu o Sétimo Encontro Atlético em Xangai, na China. Jovens a partir de 18 anos, como Dan Lee na época, foram selecionados para competir em diversas modalidades. Dan Lee foi selecionado para as competições de boxe na categoria meio-médios. Ele enfrentou sete adversários de várias partes da China e Filipinas para se consagrar campeão do torneio. Daniel Lee teria começado sua prática no boxe ocidental aos 12 anos de idade.

A primeira vez que Daniel Lee viu Bruce Lee pela primeira vez, foi no Torneio Internacional de Karate de Long Beach, na Califórnia, organizado por Ed Parker em 1964. Bruce Lee efetuou demonstrações apresentando ao público norte-americano alguns conceitos de Kung Fu, demonstrando golpes característicos, fazendo sparring com alguns alunos e demonstrou pela primeira vez o famoso “soco de uma polegada”. Daniel Lee lembra-se de ter ficado impressionado com sua apresentação, principalmente com sua técnica, potência, rapidez e segurança.

Mas Dan Lee só passou a treinar regularmente com Bruce Lee a partir de 1967, quando Bruce se mudou de Seattle para Los Angeles e abriu seu segundo Instituto Jun Fan Gung Fu. Naquela época Daniel Lee já era faixa preta em Kempo Karate e faixa marrom em judô, além ter estudado Tai Chi Chuan por um ano com um mestre chinês. 

Um incidente aconteceu entre o mestre e o discípulo que ainda poucos fãs de Bruce Lee sabem. No final da década de 1960, Bruce Lee já tinha Dan Lee como um aluno regular e amigo de confiança. Certo dia Dan apareceu na casa de Bruce para uma visita informal quando Bruce lhe chamou para mostrar sua nova aquisição.

Daniel Lee cutucou a onça (ou o dragão) com a vara curta...

Bruce tinha acabado de comprar dois pares de luvas de boxe de 16 onças. Bruce então sugeriu que eles testassem as luvas ali mesmo na cozinha. Bruce o convida para calçar as luvas para      trocarem alguns socos, com calma e como “irmãos”. Ambos afastaram as cadeiras de lado e começaram a troca despretensiosa de golpes.

Dan tinha a consciência de que era apenas um sparring de forma leve e sem pegada. Quando Bruce soltou um direto, Dan instintivamente (como nos tempos de competição) se esquiva golpeando simultaneamente e atinge o rosto de Bruce Lee.

Foi uma reação muito rápida e sem intenção, frisou o sorridente Dan Lee em uma entrevista várias décadas depois, quando lembrava do ocorrido. Segundo Dan Lee, a frustração de ter sido surpreendido tomou conta de Bruce Lee que de imediato partiu para cima do amigo com uma saraivada de socos. Quando Dan finalmente foi atingido ele teria gritado para Bruce se afastar.

Ainda recuando Daniel Lee acabou por esbarrar na mesa de costas e numa ação de reflexo baixou os braços para se apoiar, justamente quando veio mais um potente soco no queixo. As coisas se esfriaram logo em seguida.

Daniel Lee, um dos lendários discípulos de Bruce Lee.

No dia seguinte, Daniel Lee conta que estava trabalhando em seu quintal quando sentiu seu queixo travado. Ele teria começado a tremer e sentiu que sua mandíbula tinha caído como se soltasse. Indo ao ortopedista ele constatou que o osso tinha fissurado com o soco dado por Bruce Lee.

Daniel Lee lembrou tempos depois e sem remorso que com a mesma rapidez que Bruce se encolerizava, ele também se acalmava e tudo estaria bem de novo.

Muhammad Ali, sem dúvidas, uma das maiores influências
de Bruce Lee.

As Maiores Influências de Bruce Lee no Boxe – Uma das principais influências de Bruce Lee no boxe profissional, foi sem dúvidas Cassius Marcellus Clay ou Muhammad Ali (1942/2016). Em 1964, mesmo ano em que Bruce Lee lutou e derrotou Wong Jack Man, em Oakland, Ali se tornava campeão mundial de boxe da categoria peso-pesado ao derrotar o poderoso Sonny Liston.

Dan Inosanto, um dos primeiros alunos de Bruce Lee e parceiro fiel de treinos e descobertas na busca pela verdade nas artes marciais, lembrou que Bruce pedia aos seus alunos que prestassem atenção no jogo de pernas de Muhammad ali e sua variedade de golpes.  Bruce Lee copiou o seu footwork, a movimentação de suas “pernas dançantes” ou o suffle de Ali.

Pode se constatar claramente essa influência de Ali com seu jogo de pernas, fintas, jabs e diretos nos filmes O Voo do Dragão (The Way of The Dragon - 1972) e Operação Dragão (Enter the Dragon - 1973) protagonizados por Bruce Lee.

Bruce Costumava assistir as lutas de Ali através do reflexo de um grande espelho, onde a imagem aparecia invertida; pois no Jeet Kune Do, ao contrário do boxe ocidental, a mão predominante ficava à frente para uma interceptação com um direto respondendo ao avanço do oponente.

Um confronto entre Ali e Lee poderia ter ocorrido?

Bruce Lee tinha consciência que seria praticamente
impossível derrotar Ali numa disputa de Boxe.
Quem sabe na luta sem regras as coisas poderiam ser diferentes?!?

Ao contrário do que muito se falou e foi demonstrado maldosamente no filme Era Uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino, Bruce Lee nunca afirmou que poderia derrotar Muhammad Ali numa luta. A diferença de peso e altura eram consideráveis e o próprio Bruce Lee observou que “suas pequeninas mãos chinesas não teriam chance contra o campeão dos pesos-pesados. Ali media 1,88m e pesava 100kg e Bruce Lee media 1,68m e oscilava entre 58 e 62 kg.

Willie Pep, altamente técnico e elegante, um bailarino
no ringue e, sobretudo, um guerreiro. Outra
influência dentro do boxe para Lee.

Outro boxeador que Bruce Lee admirava era Willie Pep (Guglielmo Papaleo - 1922/2006). Grande campeão norte-americano dos pena das décadas de 1940/50.  Willie Pep, de 1,65m e 57 kg, é um dos maiores boxeadores de todos os tempos e era conhecido por sua rapidez, técnica, garra e sobretudo pelo seu jogo de pernas, pois era um verdadeiro bailarino dos ringues, rivalizando no estilo elegante de boxear com Sugar Ray Robinson e muito antes do surgimento de Muhammad Ali ou Sugar Ray Leonard.

Willie Pep em ação.

Joe Lewis, campeão de Karate (de pontuação) norte-americano e mundial, mais tarde também lutador e campeão de Full Contact e um dos mais famosos alunos de Bruce Lee, conta que Bruce Lee costumava exibir para ele, como ilustração de suas aulas, tapes de lutas com Muhammad Ali e Willie Pep.

Um pioneiro do boxe moderno e um dos campeões mais 
admirados de todos os tempos: Jack Dempsey!

Outra forte influência de Bruce Lee no boxe foi Jack Dempsey (William Harrison Dempsey – 1895/1983). Um dos mais respeitados boxeadores de todos os tempos entre 1919 e 1926, na categoria peso-pesado. Dempsey tinha um estilo agressivo e um poder destruidor nos punhos. Ágil e muito forte, Dempsey usava combinações de golpes que surpreendiam seus adversários, ele deslizava para cima do seu oponente ziguezagueando, abaixando e levantando o corpo usando o seu “roll e drop”, além de constantemente inverter sua postura de destro para canhoto com facilidade durante as lutas, o que confundia seus adversários. Apesar de ser destro, o seu golpe mais temido era o poderoso gancho de esquerda. Uma das suas lutas mais notáveis foi contra o campeão Jess Willard em 1919, um verdadeiro gigante de 1,99m, que não resistiu aos golpes do valente Jack Dempsey com apenas 1,85m.  Willard caiu sete vezes apenas no primeiro assalto e desistiu da luta antes do início do quarto assalto.

Jack Dempsey, à direita, caça o gigante Jess Willard
sem tréguas em 1919.
 

Provavelmente dois livros que Bruce Lee queria autografados
de Dempsey. O da esquerda, um tratado clássico de Boxe; 
o da direita, um manual de Defesa Pessoal do Exército Americano.

Bruce Lee procurou por Jack Dempsey em 1965, através de uma carta, solicitando um dos livros de boxe de seu ídolo autografado e aproveitando para mencionar alguma coisa sobre o Kung Fu chinês, tentando assim chamar a atenção de Dempsey.

Carta enviada por Jack Dempsey à Bruce Lee, em 1965.

Eis a tradução da reposta enviada também por carta à Bruce Lee por Jack Dempsey:

“Caro Sr. Lee:

“Recebi sua carta de 26 de março e li sua interessante descrição da Arte de Combate Chinesa e sua comparação com o Boxe moderno.”

“Lamento não termos nenhum dos livros que você solicitou, mas estou incluindo um Cartão autografado que pode interessá-lo pela imagem de ação contida nele.”

“Conforme você solicitou, também estou enviando um para o seu filho e espero que o agrade.”

“Com todos os bons votos, sou,”

“Sinceramente, Jack Dempsey.”


Jorge Foreman, o grande campeão em meados dos anos de 1970.
Se tornou fã de Bruce Lee após assistir Enter The Dragon.

Boxeadores Campeões que foram inspirados por Bruce Lee – Da mesma forma que Bruce Lee foi influenciado por boxeadores notáveis, o contrário também ocorreu. Alguns boxeadores consagrados do passado e campeões recentes também foram influenciados ou inspirados pela meteórica trajetória do Pequeno Dragão.

Alguns dos muitos boxeadores que assumiram ser fãs incondicionais de Bruce Lee, foram George Foreman, Sugar Ray Leonard, Manny Pacquiao e Mike Tyson.

George Foreman fazendo mais uma vítima.


No livro “Bruce Lee: The Life Of A Legend”, George Foreman (1,92m), medalhista de ouro dos Jogos Olímpicos de 1968 no México e duas vezes campeão mundial de boxe na categoria peso-pesado em 1973 e 1994, deixa o seu depoimento sobre o Pequeno Dragão:

“Bruce Lee era um bom atleta e poderia ter sido um bom boxeador. Ele poderia ter sido qualquer coisa. Em sua categoria de peso, ele teria sido um campeão de boxe. Lembro que estava no Havaí em 1973 e saí na chuva para assistir Enter the Dragon (Operação Dragão). Depois do filme, eu estava sentindo arrepios nas costas! Aliás, eu era o campeão mundial dos pesos pesados, mas só conseguia pensar, uau! Eu estava em choque. Ele deixou todos os espectadores pasmos. Bruce Lee mudou tudo.”

Se Bruce Lee se dedicasse ao Boxe profissional nos anos de 1970,
ele teria que enfrentar feras como Roberto Duran, na sua categoria.

Na primeira metade dos anos de 1970 se Bruce Lee (1,68m e 58-62 kg) tivesse se aventurado na carreira do boxe, ele estaria na categoria de pesos leves de até 62 kg e provavelmente teria que enfrentar lutadores duros como o lendário Roberto “mão de pedra” Durán (1,70m) ou, quem sabe, Sugar Ray Leonard (1,78m). É mole?!?

O grande campeção Sugar Ray Leonard, um fã incondicional
da técnica e filosofia de Bruce Lee.

Falando em Sugar Ray Leonard, ele nunca escondeu sua admiração por Bruce Lee. Em uma palestra ele declarou:

“Bruce Lee era um ícone amado pelo mundo, mas sua influência foi muito maior que apenas o entretenimento. Muitos levaram a sério suas filosofias e se elevaram por causa disso. Bruce Lee foi um dos meus meu ídolos, principalmente pela estabilidade mental, pelo espírito de luta, porque era mais mental do que físico. Era o que ele chamava de ‘conteúdo emocional’. Conteúdo emocional foi o que desenvolvi para enfrentar grandes obstáculos e grandes oponentes como Thomas Hearns, Roberto Duran e Marvin Hagler. Por causa da minha estabilidade mental, consegui vencer esses caras. Sem dúvida, Bruce Lee está relacionado com aquela posição de qualquer forma, porque se trata de ter tudo em sincronia para obter o melhor desempenho.”

Sugar Ray Leonard foi outro bailarino do ringue.
Fazia do Boxe uma arte.

“O estado mental de operação no qual um pessoa executa uma atividade, está totalmente imerso em um sentimento de foco energizado, envolvimento total e prazer no processo da atividade. Em essência, o fluxo é caracterizado pela absorção completa no que se faz e uma perda resultante do senso de espaço e tempo. Tudo isso se conecta e você deve, sua mente, corpo e espirito, tudo deve se conectar para obter os melhores resultados. Bruce foi um exemplo do que se materializou a partir de um trabalho árduo e não havia limites.”

"Bruce Lee era um dos meus ídolos." - Sugar Ray Leonard.

“Não havia barreiras raciais, não havia nada. Ele poderia gerar tanta velocidade em seus socos. Os socos curtos que usou, seu corpo e o tipo de alavanca que ele foi capaz de desenvolver porque ele sabia e entendia da mecânica do corpo.”

Sugar Ray castigando mais um...

“Sua suavidade, quero dizer, ele deslizava. Ele não era metódico. Ele era muito espontâneo em seus movimentos e tudo o que fazia era por um motivo. Ele simplesmente não se movia para apenas ser ‘bonitinho’. Ele se movia por uma razão, para entrar na fila, para ficar em posição de lançar algo, se posicionando. Tudo tinha um motivo. Ele tinha a capacidade de superar qualquer pessoa. Não importa o tamanho, não importa o quão forte, Bruce Lee sempre teve um jeito e ele faria isso com estilo. É Por isso que adoro tudo isso, ele fez isso tudo com estilo”, concluiu Sugar Ray Leonard.

Manny Paquiao copiava Bruce Lee até na aparência.

Outro grande fã declarado de Bruce Lee é o filipino “Manny” Dapidran Pacquiao, campeão em oito categorias diferentes, conquistou no total 11 títulos mundiais no boxe.  O boxeador canhoto, Manny Pacquiao, mede 1,68m e pesa 66 kg.  

Manny Pacquiao tinha na velocidade um dos seus
maiores atributos.

Algum especialista percebeu que durante os treinos Manny Pacquiao estava dando socos e jabs como Bruce Lee fazia. Então ele se aproximou e perguntou a Pacquiao se aquele jeito de jabear e socar semelhante ao estilo de Lee era consciente ou apenas uma coincidência. Pacquiao teria respondido: “Bruce Lee é meu ídolo. Assisti a todos os seus filmes. Você sabe, a rapidez, a velocidade das mãos, o trabalho com os pés. Essa é a velocidade.”

"Bruce Lee é meu ídolo." - Manny Pacquiao.

Até o indomável Mike Tyson se rendeu ao
carisma de Bruce Lee.


Mais um que declarou sua admiração à Bruce Lee foi o demolidor e campeão do pesos- pesados, Mike Tyson (1,81m e 99 kg); que por coincidência e como Bruce Lee, também admirava e copiou muito do estilo de Jack Dempsey. Mike Tyson chegou a participar com vilão do filme Ip Man 3, estrelado por Donnie Yen, que fazia o papel do mestre de Wing Chun de Bruce Lee, o lendário Ip Man, morto em 1972.

Mike Tyson como um temível boxeador em "Ip Man 3".

Mike Tyson também revelou sua admiração por Bruce Lee afirmando que o artista marcial gostava de lutar de verdade. Quando Lee morreu, Tyson ainda era uma criança. Tyson frisou em 2017: “Bruce Lee era um artista marcial, mas Bruce era também um lutador de rua. Ele gostava de lutar de verdade. Isso não é nenhum drama, ele gostava de fazer isso realmente.  Bruce Lee tinha uma filosofia de vida incrível, isso me surpreendeu. Ele era um 'assassino', ele machucaria e faria o máximo de estragos que pudesse e sairia sem se machucar."

Uma cena muito comum nas lutas com Mike Tyson.

Continua Tyson: “É preciso respeitar a filosofia. Essa filosofia final do guerreiro.” E Tyson acrescenta que a vantagem do seu tamanho seria demais para Lee, se os dois se confrontassem: “Se Bruce realmente pudesse me vencer numa luta, eu realmente, hum..., eu realmente acho que o mundo ficaria muito interessante, porque isso não poderia acontecer.”

Bruce Lee considerava a corrida com um exercício completo.

O Condicionamento de Boxer na Rotina de Treinamento de Bruce Lee – Quando Bruce descobriu definitivamente os benefícios do boxe, ele não só incorporou em sua rotina as técnicas de ataque, defesa e jogo de pernas da nobre arte, mas também considerou fortemente o sistema de treinamento dos boxeadores, incluindo elementos do aprimoramento técnico como da preparação física. Ele sabia que um boxeador profissional antes de ser um lutador, é um verdadeiro atleta.

Pular corda dá agilidade e favorece o jogo de pernas...

A Medicine Ball era essencial para um forte abdômen.

O Saco teto-chão era uma adaptação do Puching Ball do Boxe.

As Luvas de Foco para aprimorar a técnica e precisão.

O Saco de Pancada, essencial para desenvolver a pegada.

Sem a prática do Sparring, nada faz sentido no Boxe ou em
qualquer arte marcial que visa o contato.

Desta forma Bruce Lee explorou os benefícios da corrida diária, o trabalho com pesos, o uso de equipamentos característicos para o treinamento do boxeador como o puching ball adaptado para o saco teto-chão, a luva de foco, o saco de pancadas, a corda, a medicine ball e o essencial sparring.

Bruce Lee tinha em seu sistema ou concepção de luta, chamado Jeet Kune Do, o boxe como um dos seus principais fundamentos, sem sombra de dúvidas.

Espero que tenham aprovado essa pesquisa sobre mais uma modalidade de luta preferida pelo Pequeno Dragão.

Walk On!

Por Eumário J. Teixeira.