God drawer

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sexta-feira, 8 de maio de 2020

BRUCE LEE E O SEU EQUIPAMENTO DE TREINO INCOMUM



Bruce Lee tinha plena consciência do que podia desenvolver em termos de capacidade física e técnica como também de suas limitações quando retornou aos Estados Unidos aos 19 anos de idade para exercer sua cidadania americana. Ele sabia o que enfrentaria naquela “terra de gigantes”, onde seus 1,68m e 62 kg encontrariam sérias dificuldades para se impor ou ao menos estar no mesmo patamar dos melhores, maiores e mais fortes artistas marciais mundiais concentrados na terra do Tio Sam.
Daí a necessidade de aprimorar suas qualidades inerentes, como a velocidade, a potência e contundência de seus  golpes.
Ao contrário de muitos mestres acomodados e charlatões do oriente e mesmo do ocidente, Bruce Lee sempre valorizou o condicionamento físico, seja anaeróbico, aeróbico e muscular. Basta conferir alguns registros fotográficos antigos, ainda dos anos de 1950, onde se vê um jovem adolescente já buscando o desenvolvimento físico e o condicionamento de suas armas naturais para o combate.

O jovem Bruce Lee em Hong Kong, na década de 1950, já se preocupava com o condicionamento
físico, muscular e a estética, antes de mudar-se para os EUA.
No início da década de 1960,  já nos EUA, ele procurou ter em disponibilidade, equipamentos básicos que o permitisse afiar ou condicionar suas ferramentas de trabalho, ou seja, mãos, cotovelos, antebraços, pés, joelhos e pernas.

No Instituto Jun Fan Gung Fu de Los Angeles, os principais alunos de Bruce Lee
exibem alguns materiais de treinamento, na década de 1970,
pouco depois da morte do Pequeno Dragão.
E a partir do momento em que os equipamentos habituais deixaram de ser resistentes ou versáteis suficientes para o seu progresso assustador como artista marcial, ele recorreu a alguns amigos que tinham recursos e conhecimentos para desenvolver equipamentos de treino nunca antes usados no campo das artes marciais, unicamente para saciar sua sede  inesgotável por novos desafios e experimentos.

James Lee, George Lee e Herb Jackson, os principais colaboradores de Bruce Lee
 no que se diz respeito a aparelhos de treino inovadores para artes marciais.
Alguns amigos seletos, capacitados e inventivos, como James Yimm Lee (1920/1972), George Lee (1916/2013) e Herb Jackson (morto em 2007), criaram, desenvolveram e aperfeiçoaram equipamentos únicos a partir das crescentes necessidades de Bruce Lee.

Bruce Lee e seu parceiro George Lee, o mago criador de aparelhos
de treinamento que suportavam os golpes devastadores do Rei do Kung Fu.
Segue parte do depoimento de um dos seus primeiros alunos na Califórnia, George Lee:
“...Enquanto outros profissionais estavam treinando em aparelhos convencionais, Lee estava projetando seu próprio equipamento para lhe dar uma vantagem adicional.”
“...Enquanto eu construía muitos deles, era Bruce quem realmente os projetava. Ele fazia esboços e, em seguida, me entregava para confeccioná-los.”
“ ...Sendo um mecânico  de profissão, eu era capaz de montar os seus aparelhos em minha loja ao norte da Califórnia.”
“...Alguns dos dispositivos mais difíceis a fazer foram a Pedra Tumular; o Agarrador com Pesos; e os Sapatos Especiais, reforçados na parte de frente das solas, com lâminas de alumínio revestidas.”

Bruce, o pequeno Brandon e o Nunchaku de três segmentos feito por George Lee
 de acordo com as especificações e pedidos de seu amigo vindo de Hong Kong.


Os sapatos plataforma, com a parte da frente das  solas reforçadas 
com lâminas de alumínio revestidas, usados por Bruce Lee para 
afastar repórteres indesejados e fãs exaltados ou inconvenientes. 
Segundo George Lee, Bruce preferia investir no reforço de um  par
 de sapatos, do que comprar novas camisas para substituir
 as peças rasgadas  pelos fãs descontrolados.
“...O nunchaku de três sessões, o rolo de pulso, e os dispositivos para treinamentos isométricos para fortalecer os antebraços, foram alguns dispositivos que desenvolvi para Bruce Lee.”
“...Todos os escudos de chutes e sacos de pancada que fiz, levou algum tempo. Eu fiz três escudos de chutes para ele, o primeiro redondo, outro que parecia um sapato, e um quadrilongo.”

Aparelhos desenvolvidos por George Lee para Bruce Lee realizar
exercícios isométricos específicos.

O treinamento nos diversos tipos de sacos de pancadas, era uma prioridade para Bruce Lee.


“...Outro dispositivo favorito de Bruce era a Bolsa para estocadas de dedos. Ele a enchia com arroz, areia e pedras, então a golpeava com a ponta dos dedos. Ele usou bastante os sacos de pancada também. Havia cerca de sete ou oito sacos diferentes para treino em seus Institutos.”

A Pedra Tumular feita por George Lee, onde se lia: "Em memória ao homem uma vez fluído,
afogado e deformado pela Confusão Clássica."
George Lee fez a famosa Pedra Tumular ou a ‘Tumba do Artista Marcial Clássico’ idealizada por Bruce Lee, onde estava escrito no seu epitáfio:
“Em Memória ao Homem uma vez fluído, afogado e deformado pela Confusão Clássica.”

Herb Jackson com o rolo de pulso e outros materiais de
treinamento usado por Bruce Lee e alunos.
Herb Jackson, um dos alunos pioneiros de Bruce Lee, também chegou a contribuir na confecção ou aperfeiçoamento de alguns equipamentos de treino para o Pequeno Dragão.  

Jhoon Rhee, mestre introdutor do Taekwondo nos EUA e amigo de Bruce Lee,
 lançou uma série de materiais para treino e competição,
 visando principalmente o Contato Total.
Jhoon Rhee, mestre introdutor do Taekwondo nos EUA, amigo e parceiro de treinos de Bruce Lee, também tinha a aptidão para criar equipamentos de treino e proteção que se tornaram convencionais nas décadas seguintes principalmente para competição. Alguns destes para treino também foram utilizados pelo Pequeno Dragão; mas nada em comparação a alguns criados pela equipe inventiva de Bruce Lee, que tentarei detalhar a seguir.
Tais equipamentos foram feitos para suportar o poder devastador dos golpes de Lee, que segundo testemunhos dos que estiveram ao seu lado em treinamento, era acima do normal para um homem de seu tamanho e peso.
A principal exigência de Lee na confecção de tais equipamentos é que além de serem ultra resistentes, eles teriam que “reagir” aos golpes recebidos como se fossem um oponente vivo.
Seria impossível listar aqui os inúmeros equipamentos de treinamento de Bruce, mesmo porque muitos eram até desconhecidos pelo público ou se perderam com o tempo.
Bruce Lee diferenciava coisas do tipo, “levantar pesos” ou “treinar com pesos”, pois ele sabia que o excesso de massa muscular poderia prejudicar a velocidade dos seus golpes, só para se ter uma ideia de sua visão prática.

Pular corda era essencial para o jogo de pernas, uma prática valorizada
por boxeadores campeões como Sugar Ray Robinson e Muhammad Ali.

A Medicine Ball, uma peça essencial para o condicionamento abdominal
dos boxers ocidentais, adotada também por Bruce Lee.

A luva de foco, outro material utilizado pelos boxeadores e
absorvido por Bruce Lee.

Com o Saco teto-chão, desenvolve-se o reflexo, o tempo certo,
a rapidez e a precisão no golpear.
Dentre os seus equipamentos para treino convencionais podemos citar a corda de pular; a medicine ball; sacos de pancada padrões e de diversos tamanhos e pesos; a pera; e o saco teto-chão, todos esses equipamentos habituais de treino do boxe ocidental.

Escudos de ar com diversos formatos foram desenvolvidos por George Lee
para absorver os chutes poderosos de Bruce.
O escudo pesado e o almofadão de ar, para absorver chutes e socos, estes equipamentos originais para o treino do Futebol Americano ou Rugby, eram alguns dos seus favoritos.

Aquelas bolsas quadradas fixadas nas paredes, recheadas de areia, limalhas de ferro, feijões e
até pedregulhos, serviam para calejar os punhos devastadores de Bruce Lee.
Mas também haviam aquelas bolsas quadradas fixadas nas paredes, preenchidas com areia, limalhas de ferro e pedregulhos para condicionar e calejar seus punhos; como também uma simples folha de papel suspensa por um fio a qual ele ultrapassava com seus dedos ou socava e chutava para desenvolver rapidez, precisão e penetração.
Alguns destes equipamentos mencionados e alguns que irei descrever já foram assunto na série de posts deste blog intitulada, “Bruce Lee e sua Rotina Diária de Treinamento” (partes de I a IV), confira nos links abaixo: 
https://bruceleeinfocus.blogspot.com/2015/02/bruce-lee-e-sua-rotina-diaria-de.html
https://bruceleeinfocus.blogspot.com/2015/03/bruce-lee-e-sua-rotina-diaria-de.html
https://bruceleeinfocus.blogspot.com/2015/05/bruce-lee-e-sua-rotina-diaria-de.html

Vamos então conhecer ou relembrar um pouco mais sobre os equipamentos ímpares e exóticos feitos exclusivamente para suportar o poder dos golpes do inesquecível Pequeno Dragão.

O Boneco de Madeira "modelo Bruce Lee", construído por James Yimm Lee,
 era diferenciado do tradicional chinês.
Mudjong, o Boneco de Madeira – O boneco de madeira é um aparelho tradicional principalmente para os treinos dos estilos Wing Chun Kune e Praying Mantis (Louva-A-Deus) do Kung Fu chinês. Bruce Lee utilizou o mudjong tradicional enquanto treinou em Hong Kong sob a supervisão do mestre Ip Man, e ensino direto do então jovem instrutor, Wong Shun Leung. Quando Bruce Lee já tinha se estabelecido nos Estados Unidos, no início da década de 1960, ele importou um mudjong tradicional feito em Hong Kong. 

O jovem Bruce Lee em Hong Kong, à esquerda; e em San Francisco,
Califórnia, à direita, com um Mudjong modelo tradicional, importado de Hong Kong.
Mas ao dispor de locais de treinamento adequados para o ensino e para os seus treinos particulares em sua casa, ele começou a praticar as técnicas tradicionais de Wing Chun em bonecos de madeira adaptados para as suas necessidades, visando principalmente o condicionamento dos antebraços, pulsos e punhos, como também o aperfeiçoamento das técnicas de bloqueios, agarres, chutes baixos, socos e estocadas com os dedos. O boneco de madeira consistia num grosso tronco de madeira com três braços também de madeira que podiam ser parcialmente “puxados” de seu corpo e uma “perna” de aço dobrada para baixo simulando a perna frontal do adversário, que poderia ser chutada. 

Para suportar os golpes de punhos e pés de Bruce Lee, o
Mudjong foi adaptado com molas e amortecedores de carro.


O mudjong também possibilitava o desenvolvimento do poder e energia de impacto de seus punhos; a fluidez deslizante nos bloqueios, nos agarres para torções e arremesso; e a imobilização (apresamento) dos braços do oponente. Era ainda um excelente aparelho para o aprimoramento da velocidade, sincronia e coordenação ao desferir bloqueios e contra-ataques simultâneos. Bruce Lee tinha projetado um boneco de madeira com algumas adaptações e incumbiu a seu aluno, James Yimm Lee, que era soldador, que o confeccionasse. Esse mudjong especial, que ele tinha em sua sala particular de treinamento, era escorado por um suporte de molas e amortecedores de carro; tinha cerca de 1,90 de altura e 30 cm de diâmetro; possuía molas nos três braços de madeira, dois paralelos abaixo do “pescoço” do boneco e um terceiro na altura de “cintura” (de 66cm de extensão cada); contava também com duas “pernas” laterais prolongando-se como pés que estabilizavam o mudjong e uma terceira “perna” de metal ao centro, esta também com um amortecedor, já que Bruce Queria que as “reações” do boneco fossem as mais reais possíveis, quando Lee desferisse seus golpes com a máxima potência, sem se preocupar em ferir alguém.
Segundo  seu aluno, Herb Jackson, Lee praticava inúmeras formas diferentes de socar e chutar o mudjong, partindo de qualquer ângulo  e em  qualquer direção, sem a menor alusão de que um chute ou soco iria ser desferido.

Richard Bustillo, aluno de Bruce Lee, testando o Braço com Mola.
O Braço com Mola – Esse aparelho era usado para a prática de puxões (Lap Sao) do Wing Chun Kune. Era um braço de madeira semelhante ao do boneco de madeira que era adaptado à uma parede ou a um pedestal de aço. Esse braço era preso à uma base por uma mola que o fazia “resistir”  quando puxado  em direção ao praticante. O mecanismo permitia que esse braço de madeira fosse movido ou desviado para qualquer direção, tal qual um braço humano. Esse aparelho possibilitava o desenvolvimento da rapidez, coordenação no uso dos braços e antebraços, ao exercitar puxões (pulling hands), apresamentos (trapping hands) e bloqueios com as mãos. Considerados excelentes exercícios de resistência, desenvolviam poder e força de uma maneira mais prática e eficiente do que o simples levantamento de pesos. Daí tais exercícios serem assíduos na rotina de treinamento de Bruce Lee. Segundo Richard Bustillo, um dos primeiros e tradicionais alunos de Bruce Lee, esse treinamento específico dava um poder considerável aos ombros do praticante, e era preciso cuidado na prática quando se transferia tais técnicas do aparelho para um companheiro de treino, com o risco de deslocamento de ombros, já que geralmente estariam relaxados.

Bruce Lee treinando no Cabeça de Boneco.
Cabeça de Boneco – Outro aparelho projetado por Bruce Lee e confeccionado pelo seu aluno e parceiro, James Yimm Lee. Um a estrutura de aço que podia ser adaptada em qualquer lugar ou instalada a uma parede. Esse aparelho tinha uma “cabeça” sem rosto, feita de uma borracha negra que reagia como uma cabeça humana ao receber os golpes, graças às molas de sustentação. Na base do aparelho, como no tradicional mudjong, tinha uma perna frontal de aço adaptada a uma mola, que era utilizada para a prática de varreduras com os pés e técnicas de obstrução de pernas utilizando os chutes barreiras. A cabeça de borracha atuava como um oponente que recebia estocadas de dedos nos olhos e poderosos socos diretos no rosto. Bruce Lee o utilizava este aparelho para aprimorar  a precisão e velocidade de seus golpes. Era muito útil também para condicionar a ponta de seus dedos para as temíveis estocadas.

O Obstrutor de Pé – Outro aparelho que teria sido construído por James Yimm Lee sob a orientação de Bruce Lee. Era destinado exclusivamente ao treinamento e aperfeiçoamento das varreduras e bloqueios com os pés e aplicações de chutes baixos. Era um aparelho fixo, semelhante a uma perna humana, mas feita de madeira. Sua base vertical em aço, era fixada em uma parede sustentada por grossas molas nos lados e na parte de trás da “perna”, possibilitando mais realismo no alcance e na movimentação. Era um excelente aparelho para desenvolver técnicas de ataques com chutes baixos e chutes interceptadores nos joelhos e nas canelas.

O Saco Super Pesado que Bruce Lee ganhou do amigo Bob Wall.
O Saco Super Pesado – Esse era um saco de pancadas especial e nada convencional, porque pesava cerca de 136 kg, com 1,35m de largura e 1,65m de altura. Eram precisos dois homens com os braços esticados para abraçar o saco monstruoso. Bruce tinha facilidade para “estourar” ou fazer “voar” qualquer tipo de saco de pancada, mas seu amigo, o karateca profissional Robert (Bob) Wall, o presenteou com aquele saco gigantesco, duvidando que Bruce pudesse aos menos movê-lo levemente com seu poderoso chute lateral direto tão famoso. Bruce realmente foi pego de surpresa. O super saco foi então sustentado por uma corrente reforçada e uma viga de aço, ocupando uma boa parte da varanda na área de treinamento. Por ser um equipamento enorme, mas macio, era preciso desferir o golpe com todo poder para conseguir um mínimo de impacto, pois seu tamanho absorvia o poder e força de qualquer um que o golpeava. Era como golpear um tronco de árvore. Se isso fosse possível, apenas Bruce Lee podia tirá-lo notadamente do seu eixo com seu poderoso chute lateral. Bob Wall o teria dado à Bruce Lee por não acreditar que ele pudesse fazê-lo, pois ele sabia que Lee tinha, no máximo, por volta de 62 kg e, pela lógica, não teria potência suficiente para isso. 
Richard Bustillo, experimenta o Saco Gigante feito especialmente para Bruce Lee.
Quando Bruce Lee testou o saco pela primeira vez com seu chute lateral, se desequilibrou e caiu, para a satisfação de Bob Wall. Bruce então pediu a Wall que lhe desse um tempo para adaptação com o saco gigante. Quando Bob Wall retornou à casa de Bruce, em uma semana, constatou o que a determinação pode produzir. Bruce saltou em direção ao saco gigante e desferiu seu melhor chute lateral, fazendo com parte da estrutura do teto da varanda se abalasse e em seguida desabasse junto com o gigantesco saco de pancadas. A lenda diz que só Bruce Lee conseguia movê-lo com seu chute lateral naqueles bons tempos na sua casa em Bel Air, Los Angeles. Howard Williams (falecido em 2012), um dos primeiros alunos afro-americanos de Bruce, se gabava de ser o único, além de Bruce, a conseguir fazer o saco gigante se mover com um chute lateral. Muitos não acreditam nessa história, mas o testemunho de lutadores profissionais respeitáveis como Bob Wall, Joe Lewis e outros, que presenciaram várias vezes Bruce golpeando o equipamento gigantesco, seria suficiente para dar credibilidade à história.

Bruce Lee com seu Agarrador com Pesos.
Agarrador com Pesos – As mãos e os antebraços de Bruce Lee eram tidos com de ferro. Quem conheceu Bruce Lee de perto, testemunhava que quando ele apertava suas mãos a impressão que dava é que ele poderia esmagá-las se quisesse, ao mesmo tempo em que não se notava um mínimo esforço de sua parte, enquanto ele sorria para você. Essa experiência desconcertante foi vivida certa vez pelo ator e artista marcial japonês, Yasuaki Kurata, quando se encontrou com Bruce Lee pela primeira vez, por volta de 1972, nos estúdios da Golden Harvest, em Hong Kong. Da mesma forma, os antebraços de Bruce Lee relaxados, aparentemente pareciam normais, mas na verdade eram como se fossem forjados no aço de tão rígidos.  O agarrador de pesos certamente contribuiu para o desenvolvimento da força de seu agarre e para a rigidez muscular de seus antebraços. O aparelho era uma plataforma de canos de aço com meia base construída de modo a subir e descer quando agarrada pelas duas barras de cima. Essa base comportava tantos discos de peso quanto se pudesse levantar. O peso era levantado ao se agarrar as barras de cima com uma das mãos fechando-a tanto quanto possível. A utilização deste aparelho exige muito esforço e persistência, apesar do movimento aparentar ser muito simples para quem apenas observa. Seus benefícios serão o fortalecimento gradual dos dedos e mãos; a força no agarre; e o enrijecimento dos antebraços, tão necessários para a prática com sucesso dos bloqueios no Boneco de Madeira.
O Matador, para treinar chutes baixos nos joelhos e canelas.
O Matador – Um aparelho simples, mas eficiente. Era utilizado para treinar a interceptação com os pés, de possíveis chutes frontais desferidos pelo oponente ou, ao contrário, para simular um ataque ao adversário. Essa peça de treinamento era composta  de uma “armação” de madeira (com rodas) e fixada com parafusos, que era manipulada por um companheiro de treino que avançava em sua direção, simulando um ataque com os pés do adversário que deveria ser neutralizado num contra ataque rápido aplicando chutes bloqueios. Em contrapartida, o “matador” era muito eficiente para o desenvolvimento da rapidez no desferir chutes baixos contra os joelhos e canelas do oponente. Quando o companheiro recuava com o aparelho, revertia a situação, pois nesse caso, você buscava o alvo baixo (joelhos e canelas) em ataque ao adversário. Bruce Lee ao utilizar esse aparelho desenvolvia mais velocidade nos chutes, eficiência e rapidez no jogo de pernas, exigidas numa situação de combate real, onde também são importantes o foco, a precisão e uma boa coordenação motora.
O Boneco Absorvedor de Pancadas, construído e sendo testado
por James Yimm Lee.
Richard Bustillo explora outra variação do Boneco de Madeira
desenvolvido por James Yimm Lee. Notem  as molas e amortecedores
do aparelho.

James Yimm Lee, o mestre fabricante de aparatos não convencionais
criados por Bruce Lee.
O Boneco Absorvedor de Pancadas – Este outro aparelho, mais complexo, idealizado por Bruce Lee e construído por James Yimm Lee, era uma espécie de Mudjong incrementado com multi alvos em seu corpo. Chamado também de “o homem barulhento”, era composto de molas diversas, amortecedores de carro, canos de aço e peças semelhantes com um revestimento especial. Esse aparelho era utilizado por Bruce Lee para desenvolver a resistência física, fôlego, rapidez e impacto no desferir dos golpes. O aparelho foi adaptado para suportar os golpes potentes de Lee, sejam estocadas com os dedos, socos diretos, cotoveladas, chutes laterais, joelhadas, chutes baixos, bloqueios, etc. A reação do “homem barulhento” era satisfatória graças às molas e amortecedores. Só mesmo um aparato desses para resistir à saraivada de golpes desferidos por Bruce Lee, normalmente numa sequência avassaladora.

Bruce Lee reconhecia os benefícios do treinamento com o Alvo de Papel.

O Alvo de Papel - Era simplesmente uma folha de papel com as medidas (em média) de 18 x 25 cm, suspensa por uma corrente ou corda na altura do rosto. A ação de golpear a folha ajudava a Bruce Lee desenvolver o movimento de rotação dos quadris para adquirir ímpeto e velocidade na utilização dos braços e pernas, o que acrescentava mais potência aos golpes de forma considerável. Além disso, ajudava no desenvolvimento do equilíbrio do corpo, na fluidez dos movimentos, na coordenação e controle do peso corporal durante o deslocamento. A folha de papel era usada para desferir  jabs com os dedos, socos em gancho, chutes laterais, chutes em gancho, etc. Era um ótimo treino para o aprimoramento da velocidade e do posicionamento correto do corpo, para gerar o máximo de potência e a capacidade de calcular a distância correta para a aplicação exata do poder desferido contra um alvo. 

Desferindo chutes, socos ou estocadas no alvo de papel para
o aprimoramento do posicionamento, equilíbrio, fluidez, coordenação
e velocidade dos golpes.
Em suma, o treino com o alvo de papel lhe proporcionava uma crescente precisão e explosão para ataque. Bruce declarou certa vez sobre esse treinamento: “A teoria é que se você disser a alguém para desferir 100 socos no alvo de papel, com tudo que tem, a pessoa desferirá 100 socos com tudo o que tiver. Mas não o fará no boneco de madeira, pois depois de 20 socos, seus punhos estarão machucados. A razão pela qual treino os alunos a atingirem a folha de papel é diminuir-lhes o temor de atingir algo. Depois, ao praticar na madeira, basta pensar que se trata da folha de papel e fazer do mesmo modo: a coisa se tornará uma reação natural. O praticante conseguirá mais explosividade nos socos e mais penetração (ao treinar com a folha de papel) do que se treinar na madeira.”

O Almofadão de ar,  de suma importância para o treinamento da
precisão e profundidade dos chutes, ficou bastante popular depois
das famosas demonstrações de Bruce Lee.

O Escudo Pesado, usado para o treino dos jogadores de Futebol Americano,
foi adaptado para o exercício dos chutes no Jeet Kune Do.

O Almofadão de Ar e o Escudo Pesado – O almofadão era usado para desenvolver a distância apropriada e penetração contra um alvo móvel ou estático. Assim, o parceiro de treino poderia recuar ao perceber o disparo do golpe ou permanecer parado segurando o almofadão que absorvia a pancada. Com o alvo estático procurava-se desenvolver o modo correto de desferir o chute e, com o alvo em movimento, procurava-se desenvolver a penetração. Tal treinamento era precioso para ambos parceiros, para quem golpeava e para quem segurava o almofadão. O que chutava aprendia a não telegrafar sua intenção de golpear e, quem recebia o chute, aprendia a antecipar o ataque do parceiro recuando.
O Escudo Pesado era uma variante do almofadão de ar que servia para o mesmo propósito. Podia ser utilizado como alvo estático ou móvel da mesma forma. A diferença entre os dois equipamentos era que o escudo era uma peça compacta, enquanto o almofadão tinha que ser preenchido com o ar. O escudo pesado não podia absorver totalmente o golpe como o almofadão de ar, obrigando a quem o segurasse mover-se para trás para facilitar o amortecimento da pancada. Mas graças à maior mobilidade proporcionada com o escudo pesado, podia-se desferir o golpe mais potente sem o receio de ferir o parceiro de treino.

Espero que os amigos de Bruce Lee In Focus tenham apreciado mais esta postagem. Até a próxima.

Por Eumário J. Teixeira.

domingo, 1 de março de 2020

A FLAUTA SILENCIOSA, UM REFLEXO DA FILOSOFIA DE BRUCE LEE



Nesta postagem especial, tentei reunir o maior número de informações sobre o que seria o projeto mais ambicioso de Bruce Lee no final da década de 1960. Aviso de antemão, aos quem têm certa resistência para ler, que é melhor tomar fôlego. Em outra postagem já tratei da verdadeira concepção que Bruce Lee teria para o filme O Jogo da Morte (The Game of Death) que teve sua produção interrompida no final de 1972, pela proposta irrecusável para filmar Operação Dragão (Enter the Dragon – 1973), o clássico das artes marciais que concebeu ao Pequeno Dragão, a fama internacional.
Na verdade, O Jogo da Morte seria um remake de A Flauta Silenciosa (The Silent Flute), um projeto que Bruce alimentava desde o final da década de 1960 e que tomou força precisamente no ano de 1970 quando ele apresentou suas idéias para um filme épico sobre a filosofia das artes marciais ao ator (amigo e aluno) James Coburn e ao escritor e roteirista (amigo e aluno) Stirling Silliphant.
Bruce reconhecia que dificilmente conseguiria um papel de protagonista nos filmes de Hollywood devido ao preconceito à atores de origem oriental. O máximo que ele havia conquistado até então, eram papéis coadjuvantes ou meras participações especiais em séries de TV (The Green Hornet, Iron Side, Longstreet, etc.) e em filmes como Marlowe (estrelado por James Garner).

Bruce Lee concluiu que seu amigo James Coburn deveria ser o protagonista em
"A Flauta Silenciosa".
Com um projeto nas mãos, Bruce propôs ceder ao amigo James Coburn (1928/2002), o protagonismo para um filme que, no seu modo de pensar, seria um  filme de artes marciais sem precedentes, o primeiro a ser filmado nos Estados Unidos e que teria além da violência habitual do gênero, uma abordagem de diferentes estilos de luta dentro de uma qualidade técnica jamais reunida e demonstrada nas telas do cinema; mas reforçada por uma mensagem filosófica que faria o público refletir sobre o verdadeiro propósito da caminhada no Budô.
Bruce Lee seria um coadjuvante importante no filme, mas teria que interpretar possivelmente quatro personagens diferentes, já que na indústria cinematográfica dos EUA apesar de poderem escalar facilmente atores extremamente capacitados para atuar, o mesmo não podia se dizer em relação à lutadores que teriam que ter habilidades específicas para os personagens da estória que Bruce tinha em mente e que ainda pudessem interpretar.

Bruce Lee e Stirling Silliphant discutindo sobre
o roteiro de A Flauta Silenciosa.
A função do escritor Stirling Silliphant (1918/1996), ganhador do Oscar em 1968 pelo melhor roteiro adaptado em “O Calor da Noite” (In The Heat Of the Night) estrelado por Sidney Poitier, era adaptar a ideia de Bruce Lee num roteiro que fluísse de tal forma que a mensagem filosófica do filme se casasse perfeitamente com as cenas de ação e  diálogos apurados.      
Assim, os três amigos que tinham personalidades, visões e propósitos distintos na vida, passaram a se reunir três vezes por semana onde por duas horas interruptas, voltavam-se para um só propósito, um projeto ambicioso que denominaram “A Flauta Silenciosa”.
A partir daqui, tentarei descrever os sentimentos  envolvidos no projeto que se tornaria o primeiro filme de artes marciais realizado nos EUA, bem como suas expectativas, esforços e frustrações numa busca que parecia valer a pena, detalhando ainda alguns aspectos da estória original concebida por Bruce Lee.       

A mensagem do filme – Bruce Lee elaborou num texto introdutório para o roteiro o que queria transmitir no filme A Flauta Silenciosa:

Texto original escrito por Bruce Lee para a apresentação do roteiro de
A Flauta Silenciosa.
“Três espadachins sentaram-se em uma mesa em uma pousada japonesa lotada e começaram a fazer comentários altos sobre um mestre próximo a eles, na esperança de provocar um duelo. O mestre não percebeu nada, mas quando suas observações se tornaram mais rudes e mais agudas, levantou os pauzinhos e, com rápidos cortes, capturou sem esforço quatro moscas pelas asas. Quando ele baixou lentamente os pauzinhos, os três espadachins retiraram-se apressadamente da sala.”

O primeiro filme sobre Zatoichi, o espadachim cego, interpretado por Shintaro Katsu, em 1962,
deu origem a uma série de muito sucesso na década de 1960. O personagem pode ter inspirado
a Bruce Lee, um aficionado por filmes de Samurai.
“Esta estória ilustra uma grande diferença entre o pensamento oriental e ocidental. O ocidental médio ficaria intrigado com a habilidade de alguém de pegar moscas com pauzinhos e provavelmente diria que não tem nada a ver com o quão bom ele seria em combate. Mas o oriental perceberia que aquele era um homem que alcançou um domínio total de uma arte revelando sua presença de espírito em cada ação. O estado de totalidade e imperturbabilidade demonstrado pelo mestre, indicou o domínio de si mesmo.”

O soco ou um chute desferidos contra um adversário na verdade
são direcionados para a destruição de seu próprio ego.
- Cena de Bruce Lee em Operação Dragão (1973).
“E assim é com as artes marciais. Para o ocidental, as estocadas com os dedos, os chutes laterais, os socos diretos, e assim por diante, são ferramentas de destruição e violência que, de fato, são algumas das suas funções. Mas o Oriental acredita que a função primária de tais ferramentas é revelada quando são auto-dirigidas e destroem a ganância, o medo, a ira e a loucura.”
“A habilidade e controle não é o objetivo do oriental. Ele está dirigindo seus chutes e socos para si mesmo, e quando é bem sucedido, ele estará fora de combate. Após anos de treinamento, ele espera alcançar esse relaxamento vital e a equidade de todos os poderes, foi o que os três espadachins viram no mestre.”

O  verdadeiro  artista marcial procura o relaxamento vital e a paz interior.
“Na vida cotidiana, a mente é capaz de mover-se de um pensamento (ou objeto) para outro - "ser" a mente em vez de "ter" a mente. No entanto, quando se encontra face a face com um oponente em uma competição mortal, a mente tende a parar e perder sua mobilidade. A vulnerabilidade ou a paralisação é um problema que assombra todo artista marcial.”


Bruce Lee em Fist of Fury (1972) e Kwan-yin, a deusa da misericórdia ou
compaixão no Budismo e Taoismo.
“Kwan-yin (Avalokitesvara), a deusa da misericórdia (do Budismo e Taoismo), às vezes é representada com mil braços, cada um segurando um instrumento diferente. Se a sua mente parar com o uso, por exemplo, de uma lança, todos os outros braços (999) serão inúteis. É só sua mente não parar com o uso de um braço, mas mudar de um instrumento para outro, que todos os braços dela se mostrarão úteis e com o máximo grau de eficiência. Assim, esta figura pretende demonstrar que, quando a verdade final for realizada, até mesmo mil braços em um corpo, podem ser utilizados de uma forma ou de outra.”

O objetivo do buscador é na realidade a "Ausência de Propósito",
o "Vazio", a "Não Mente" ou a "Não Arte".
“ ‘Ausência de Propósito’, ‘Vazio-Não Mente’ ou ‘não arte’ são termos frequentes usados ​​no Oriente para denotar a conquista final de um artista marcial. De acordo com o Zen, o espírito é, por natureza, sem forma, e nenhum "objeto" deve ser albergado nele. Quando qualquer coisa é abrigada lá, a energia psíquica perde seu equilíbrio, sua atividade nativa torna-se apertada, e já não flui com o fluxo. Onde a energia é inclinada, há muito em uma direção e uma escassez dela em outra direção. Onde há muita energia, ele transborda e não pode ser controlada. Em ambos os casos, é incapaz de lidar com situações em constante mudança. Mas quando prevalece um estado de "sem propósito" (que também é um estado de fluidez ou falta de consciência), o espírito não abriga nada nele, nem é inclinado em uma direção. Ele transcende sujeito e objeto; ele responde com uma mente vazia para o que quer que esteja acontecendo.”
“ O verdadeiro domínio transcende qualquer arte particular. Isso decorre do domínio de si mesmo - a habilidade, desenvolvida através da autodisciplina,  para ser calma, plenamente consciente e completamente em sintonia com si mesmo e com as circunstâncias. Então, e só então, uma pessoa poderá conhecer a si mesmo.”
– Bruce Lee

Capas variadas para o famoso livro "A Conferência dos Pássaros" do místico
persa, Farid Ud-Din, que teria inspirado Bruce Lee a escrever a estória de
A Flauta Silenciosa.
Como tudo começou – O sonho de Bruce Lee era fazer um filme que iria mostrar ao mundo a beleza e o verdadeiro significado das artes Marciais. Começou a pensar nisso em meados de 1968,  quando percebeu que a sua condição oriental só lhe daria pequenos papéis no cinema ou na televisão na América. Apesar de não ter o roteiro pronto, ele escreveu um rascunho com 18 páginas, com argumentos para fazer o seu filme, que ele pensava chamar “A Flauta Silenciosa”. Nele iria falar sobre a evolução de um artista marcial que deveria passar por testes em diferentes níveis pelo caminho. Explicou Bruce a um entrevistador: “É uma exploração da evolução e atitude do homem à medida em que ele se encontra e enfrenta a morte e o  amor, em busca da verdade.” A história do filme era baseada e inspirada, segundo algumas fontes, no livro “A Conferência dos Pássaros”, escrito no século XII pelo místico persa, Farid Ud-Din Attar.

James Coburn "comprou" a ideia de Bruce Lee para A Flauta Silenciosa
sem hesitar. Os dois se entendiam muito bem, filosoficamente falando.
O caminho a seguir era o de praxe, apresentar um roteiro definido, buscar a aprovação e o financiamento, filmar e fazer a distribuição. No início de 1969, Bruce Lee e dois de seus alunos, o ator James Coburn e o roteirista Stirling Silliphant, começaram a trabalhar no script do filme denominado “A Flauta Silenciosa”. Para manterem a ideia em segredo, intitularam o projeto de “Leng”, que em chinês seria o equivalente a “belo” ou “magnífico”.
As primeiras reuniões com os três, se davam no escritório  de negócios da Pingree, na Sunset Boulevard. A primeira entrevista exclusiva sobre o assunto foi dada à revista Black Belt, quando anunciaram à comunidade de artes marciais o projeto do novo filme.

A ideia inicial de Bruce Lee era ter o dinâmico e ambicioso Steve McQueen como protagonista
para o seu filme, mas com o desdém do ator, a segunda opção foi  o desprendido James Coburn que
não pensou duas vezes para aceitar e participar do projeto.
Bruce previa uma nova visão cinematográfica, uma visão de vanguarda de filmes de ação onde variados estilos de artes marciais seriam reunidos. Ele dizia: “Está na hora de perpetuar o (típico) herói ocidental e o espadachim (oriental). Haverá uma virada das artes marciais, se eu conseguir fazer um novo filme com James Coburn* (estrela de “Our Man Flint” - 1966) – (Flint Contra o Gênio do Mal – no Brasil), no qual compartilharemos o estrelato.”
(*) Inicialmente Lee propôs o papel à Steve McQueen, que não demonstrou muito interesse. Bruce então recorreu à James Coburn, que era um entusiasta pela cultura e filosofia orientais, além de ser um aluno regular de Lee que lhe administrava aulas de Jeet Kune Do.
Em concordância com Bruce Lee, Stirling Silliphant e James Coburn decidiram investir e contratar um escritor profissional (Mark Silliphant, sobrinho de Stirling), que apresentou um projeto inicial em que a estória de Bruce Lee se transformaria num trama de ficção científica misturado com sexo. Eles então dispensaram Mark e, percebendo o crescente desespero de Bruce Lee, finalmente Stirling se ofereceu para desenvolver o roteiro reservando três dias da semana para esse propósito.

Bruce Lee ladeado por Linda Lee e James Coburn, no aeroporto de Hong Kong.
Segundo o relato de Linda Emery (na época, casada com Lee), o acordo “foi puramente amigável; não havia garantia de produção. Nos meses seguintes, encontravam-se todas as segundas, quartas e sextas por duas horas, com a promessa de que nunca haveria interferências, seja do trabalho ou da família, até concluírem o roteiro.”

Bruce Lee e seu grande parceiro, Jhoon Rhee, mestre introdutor
do Taekwondo nos EUA.
Em carta de março de 1969, para o amigo e mestre de Taekwondo, Jhoon Rhee (1932/2018), Bruce confidenciou: “Tivemos uma reunião de trabalho na sexta-feira passada para o Projeto Leng, James Coburn, Stirling Silliphant e eu. Leng é o nome de código do nosso filme sobre artes marciais. Leng pode significar ‘belo’ ou ‘magnífico’. Seja como for, será um grande passo em frente. Stirling não recebeu a notificação oficial de que seu sobrinho Mark foi demitido de seu trabalho como escritor. Assim que outro escritor chegar com o primeiro rascunho teremos uma outra reunião para a próxima semana. Tudo será planejado para um grande trabalho”.

Bruce Lee e Wong Shun Leung no set de Operação Dragão, em 1973.
Para o mestre Wong Shun Leung (1935/1997), que foi seu instrutor direto de Wing Chun, em Hong Kong no final da década de 1950, Bruce relatou entusiasmado em carta datada em janeiro de 1970: “Eu recentemente fundei uma empresa de produção de filmes. Eu também criei a estória para ‘A Flauta Silenciosa’. James Coburn e eu vamos investir nisso. Stirling Silliphant foi o autor do roteiro. Ele é um famoso escritor. Estamos planejando fazer o primeiro filmes de artes marciais produzido por Hollywood. As probabilidades são boas. A gravação irá começar em seis meses.  Todos que irão participar do filme são meus alunos. Já Steve McQueen poderá trabalhar comigo no futuro. Estou muito entusiasmado com essa perspectiva”.

William Cheung ao lado de um poster de Bruce Lee, seu amigo e antigo
parceiro de treino de Wing Chun, em Hong Kong.
Em fevereiro de 1970, Bruce Lee também teria escrito à William Cheung (hoje veterano mestre de Wing Chun nos EUA), um de seus parceiros na juventude durante  o aprendizado de Wing Chun em Hong Kong: “Estou para realizar um filme, A Flauta Silenciosa, para a Warner Bros e provavelmente neste outono na Índia. O filme é sobre artes marciais e deverá ser lançado em 1972. Você vai adorar”.

As idéias afloravam na mente criativa de Bruce Lee para projetos
promissores que nunca pôde realizar pessoalmente.
Uma Busca – Assim Bruce idealizou o desfecho para a Flauta Silenciosa: Um aventureiro e explorador procura por um livro sagrado e, quando o encontra, vê o seu reflexo nele, descobrindo que o procurava estava todo o tempo nele e com ele; então, se a reposta era essa por si só, o livro não deveria ser levado. Bruce idealizou essa imagem para o final do filme. Ele também teria adaptado essa ideia para o que seria o final para o inacabado O Jogo da Morte (The Game of Death)*.

(*) Confiram as postagens referentes neste blog:

A busca incessante de Cord, The Seeker, teve um surpreendente fim diante de um espelho...
Ainda sobre o projeto, dizia Bruce Lee: “Basicamente é uma estória de um homem que procura sua libertação, um retorno a uma sensação da liberdade original. Ao contrário do herói ocidental, “o gatilho mais rápido do oeste”, o personagem não afia suas ferramentas para destruir seus oponentes, em vez disso, os jabs de dedos, os chutes laterais e os golpes com os punhos são dirigidos inicialmente a si próprio.”

A busca da Verdade que aflige à todo aquele que é chamado, seria retratada em
A Flauta Silenciosa.
Bruce estava com grande expectativa para  a realização do filme que poderia finalmente significar para ele a sua aceitação como um herói, ainda que de origem asiática, pelo público norte-americano: “Está na hora de temos um herói oriental”.
E dizia: “Haverá algo que acontecerá neste filme que vai tocar diferentes pessoas em diferentes níveis. Haverá violência suficiente para agradar a qualquer um. Mas será uma exploração da evolução e atitude do homem à medida em que ele se encontra e enfrenta a morte e o amor, em busca da verdade.”
James Coburn deveria desempenhar o papel de Cord, The Seeker (ou Aquele que busca), enquanto Bruce Lee interpretaria quatro papéis: Monkey King (o Rei Macaco); Changsha (o Cigano); A Morte; e Ah Sahm (o Monge Cego peregrino).


"A flauta... é apenas uma metáfora para o chamado da alma que
somente algumas pessoas podem ouvir..." - Bruce Lee
Segundo Bruce Lee: “A ‘flauta’ a que o título se refere é apenas uma metáfora para o chamado da alma que somente algumas pessoas podem ouvir. Durante essa busca pela verdade e autocompreensão, o buscador (The Seeker) enfrenta várias provas e tem revelações à medida que confronta seus adversários, suas dúvidas e seus medos.”
Nas palavras de James Coburn: “É um encontro de muitas forças. Nós usamos as artes marciais no núcleo da história, embora não seja estritamente sobre lutas e artes marciais. A arte marcial é usada como uma ferramenta para descrever a autoevolução do homem. As artes marciais então realmente tornam-se um veículo para alcançar o objetivo”.
Stirling ressaltou que ele era muito diferente de James Coburn, pois ele (Stirling) era muito ocidental em suas perspectivas, mas sempre foi fascinado com a metafísica oriental. Ele não era tão profundo quanto Coburn ou teria estruturado seu estilo de vida com crenças asiáticas, mas ponderou: “Eu realmente acredito nela (metafísica). Eu tenho um respeito infinito por isso e medo na maior parte. Eu descobri que nós (ele e Coburn) temos muito em comum nas nossas crenças espirituais. No que nos diz respeito, as artes marciais fazem parte desta metafísica, a parte oriental desta expressão espiritual. Sabemos que é prático. Nos entendemos as suas origens e benefícios, mas não estudamos artes marciais para esses fins.”
Continua Stirling: “Tudo isso à parte, e o fato que este é um exercício maravilhoso e nós amamos muito Bruce, acredito que ele nos ensinou muito de tudo o que sabemos no campo das artes marciais, nós acreditamos que era um bom tema para um filme. O tipo de filme que nunca foi feito no contexto das artes marciais.”

Texto original escrito à mão pelo próprio Bruce Lee onde
se destaca as características dos personagens principais
de A Flauta Silenciosa.
Características dos personagens de A Flauta Silenciosa - James Coburn iria interpretar Cord, The Seeker (ou “aquele que busca”), enquanto Bruce Lee interpretaria quatro papéis, Monkey King (o Rei Macaco); Changsha (o  Cigano); A Morte; e Ah Sahm (o Monge Cego peregrino).

- Ah Sahm (O Monge Cego tocador de flauta) – Um monge peregrino mestre das artes marciais e guia para o buscador em sua jornada pelo livro da sabedoria.
- Cord (“The Seeker”, o buscador) – Um lutador que se infiltra num torneiro de artes marciais que daria ao vencedor o direito de desafiar Zetan, o guardião do livro que guardava toda a sabedoria do mundo.
- O Homem Mecânico - Morthond, lutador que conduziu Cord - com má vontade - para a primeira das três provações. Ele é estilista condicionado e confinado dentro dos limites de seu estilo e é cego em sua fé no sistema. Rígido em forma e maneira, mas definitivamente adorável.
- O Rei Macaco - o primeiro oponente aterrorizante de Cord. Representava o Ego. Ele era o primeiro julgamento. Um artista marcial tecnicamente hábil, mas sem profundidade de alma. Ele adquiriu o poder de manipular as situações e as pessoas, mas não o que ele era em si mesmo. Quando a "macaquice" fosse retirada dele, ele permaneceria vulnerável como qualquer ser humano.
- Tara - Uma garota que conduz Cord através do ritual de amor do yoga tântrico e ensina a ele o significado último do amor, no segundo julgamento.
- A Morte – O espírito da morte surge para testar a coragem de Cord.
- O Homem Ritmo (Changsha, o Cigano) - Um verdadeiro conhecedor e mestre das artes marciais. Sua arte deslumbrante é uma forma de expressão de sua alma. Ele tem absoluta liberdade interior, que é perfeitamente dispensada a todo instante. Ele é o guia dos líderes. Cord para integrar-se em seu ser, deveria entrar instantaneamente no reino atemporal da simultaneidade e da totalidade.
- Zetan – O Guardião do Livro que teria toda a Sabedoria do Mundo, ele seria o último obstáculo de Cord.

"E diante de mim agora há somente um fato real, a morte."
"A verdade que eu vinha buscando, esta verdade é a morte." - Bruce Lee

Pausa para o Espírito da Morte – No roteiro original, Cord (o buscador) interpretado por James Coburn, se depara com o espírito da morte, interpretado por Bruce Lee. A morte testa a coragem de Cord, que acaba por dissipar o espírito opressor por não demonstrar nenhum temor. A fala original de Cord ao encarar a morte foi escrita por Bruce Lee. Aqui transcrevo a fala integral de Cord:

“Claro que você está aí, a morte sempre está aí.”
“O que você poder tirar de mim que não já é seu?”
“Tudo o que tenho feito até agora, tem sido inútil e não levou a nada.”
“Não há outro caminho exceto aquele que não leva a nada.”
“E diante de mim agora há somente um fato real, a morte.”
“A verdade que eu vinha buscando, esta verdade é a morte.”
“Contudo a morte também é buscadora.”
“Está sempre à minha procura.”
“Assim finalmente nos encontramos.”
“E estou preparado. Estou em paz.”
“Porque conquistarei a morte com a morte.”

- (Tradução do texto original escrito por Bruce Lee)


A Iluminação alcançada por aquele que busca – Nas anotações de Bruce Lee:

Uma mente restaurada é uma mente imune a influências emocionais, livre de medo, raiva, tristeza, ansiedade e de união afetuosa regular.
Quando a mente não está presente, olhamos e não vemos; nós ouvimos e não entendemos; comemos e não sabemos o sabor do que comemos.
Não permitir que coisas externas alguma emaranhem a mente; em outras palavras, que mudanças externas não alterem a mente.
Essa função reside na supressão dos sentidos e na redução do desejo.
Um homem de Kung Fu repousa nisso, e porque ele descansa, ele está em paz, ele fica quieto.
Aquele que está em paz e está quieto, nenhuma tristeza ou dano pode entrar; portanto, seu poder interior permanece inteiro e seu espírito intacto.
A natureza da água é que, se nada for misturado, ela permanecerá clara; se nada a agita, permanecerá suave.


- Lembre-se:

1 - Ser uma coisa e não mudar, é o clímax da quietude.
2 - Não ter nenhuma resistência, é o clímax do vazio.
3 - Permanecer desapegado à todas as coisas externas, é o clímax da prudência.
4 - Não ter em si contrariedade, é o clímax da pureza.

 - “Sem Mente” – “Sem Pensamento”

Ver o verdadeiro "eu" e dispensar as máscaras da ilusão
 no caminho para a "Iluminação
"...
Descarte todos os pensamentos de recompensa, todas as esperanças de elogios e medo de julgamentos, toda a consciência do próprio corpo e, finalmente, feche os caminhos da percepção sensorial e deixe o espírito agir como quiser.
O derramamento mais alto opera em um nível quase inconsciente.

A Mente Restaurada - Texto original e escrito à mão por Bruce Lee.

A Jornada dos Três Guerreiros Obstinados – Um artista marcial famoso, um ator consagrado e um escritor premiado se juntaram para capturar para capturar a “alma” das artes marciais em um filme. Eles esperavam espalhar a mensagem da evolução humana na prática das artes marciais.

Bruce Lee recepcionando a James Coburn no aeroporto de Hong Kong em
meados dos anos de 1970.

Bruce Lee recebe o amigo, aluno e roteirista consagrado, Stirling Silliphant, em Hong Kong.
Era uma combinação incomum de forças para um empreendimento inovador e ambicioso. James Coburn e Stirling Silliphant eram ambos alunos de Bruce Lee em Jeet Kune Do e, mais do que isso, era uma aliança das estrelas com suas distintas personalidades.
Com todo esse comprometimento o roteiro foi concluído por volta de maio de 1970 (algumas fontes se referem a março). O próximo passo seria Stirling apresentar o projeto à Ted Ashley, diretor da Warner Bros. O roteiro foi aprovado pela Warner Bros que prometeu investir na ideia. Mas tinha um porém, o filme deveria ser filmado na Índia, onde a Warner tinha uma grande soma de rúpias (moeda local) bloqueada.
Duas situações fizeram com que o andamento do projeto fossem interrompidos momentaneamente: James Coburn teve que viajar para a Itália para filmagens e, enquanto Bruce Lee esperava pelo seu retorno, continuou com a sua rotina habitual. Prosseguiu ensinando Jeet Kune Do, participando de demonstrações em torneios de artes marciais como convidado e mantendo seu treinamento físico em dia; mas então ocorre o terrível acidente enquanto manejava halteres com pesos em sua casa. O resultado foi uma grave lesão em sua coluna, em 13 de agosto de 1970, que o deixou praticamente paralisado e inativo fisicamente. Foram precisos quase seis meses para a sua total recuperação.
Em fevereiro de 1971, quase totalmente recuperado e com Coburn retornando definitivamente da Itália, Bruce, James e Stirling foram à caça de locais apropriados para filmagem na Índia. Eles começaram a busca em Nova Delhi, antes de viajar para Rajasthan e depois prosseguir para Goa. Eles estavam em busca de cenários nos desertos, mas não conseguiram encontrar um “deserto” compatível com a estória.

Bruce Lee, James Coburn e Stirling Silliphant sendo recepcionados
no aeroporto de Nova Delhi, na Índia.

O início da busca pelos melhores cenários na Índia, se inicia...
O cenário indiano não se encaixava na ideia original de Bruce Lee, que pretendia filmar no Japão, Tailândia e até no Marrocos; além disso, a Índia não oferecia o cenário com as paisagens que ele precisava e também não dispunham de lutadores capacitados à altura do projeto. Mas como era para “pegar ou largar” os três amigos aceitaram a imposição da Warner Bros.

Testes fotográficos nos cenários desérticos da Índia.

Bruce Lee desfere alguns golpes para o amigo James Coburn registrar...

A busca pelos cenários para a Flauta Silenciosa na Índia não seria nada fácil...

Espera, corrida, salto e chute voador desferido...
Frustrados com o insucesso na procura por um melhor cenário em vários pontos na Índia, o projeto acabou sendo arquivado e Bruce retornou para Hong Kong para prosseguir com sua carreira como ator de filmes de Kung Fu enquanto Coburn e Silliphant voltaram para os EUA. Em julho de 1971 começava as filmagens de O Dragão Chinês (The Big Boss) na Tailândia.
Bruce voltaria a pensar num remake para a Flauta Silenciosa em 1972,  quando terminou as filmagens de O Voo do Dragão (The Way of the Dragon). 

Um dos projetos que não vingaram de Bruce Lee foi "Punho do Sul - Perna do Norte",
talvez um remake para a estória original concebida para A Flauta Silenciosa.
Neste ensaio, em 1972, Bruce simula uma versão chinesa para Zatoichi,
 o espadachim cego japonês.
Ele idealizou uma jornada equivalente ao do buscador de A Flauta Silenciosa; o filme teria o título inicial de “Punho do Sul – Perna do Norte” (Southern Fist – Nothern Leg), que seria uma história de época para a qual Bruce teria até feito alguns ensaios fotográficos com roupas típicas e armas chinesas tradicionais. 

A estória de O Jogo da Morte seria uma adaptação do roteiro de
A Flauta Silenciosa.
Mas a ideia que acabou vingando foi sobre uma busca num pagode de cinco andares, na Coréia do Sul, onde um lutador obstinado teria que usar todo o seu desprendimento e poder de assimilação à situações adversas para superar os seus obstáculos e alcançar seu objetivo. O filme se chamaria “O Jogo da Morte” (The Game of Death). Mas aí já é outra história ou seria a mesma?!?

O remake adotado por David Carradine para "A Flauta Silenciosa",
conhecido também como 'O Círculo de Ferro', de 1978.
Um Remake para o que seria a Obra Definitiva de Bruce Lee - Uma versão sofrível para “A Flauta Silenciosa” foi lançada em 1978, com o título “Circle of Iron” (Círculo de Ferro). O filme foi estrelado pelo ator David Carradine que, por incrível coincidência (?!?), se apossou e interpretou novamente os personagens concebidos por e para Bruce Lee (a última vez foi na série para TV, “The Warrior” que passou a ser chamada “ Kung Fu”, lançada em 1972). Esse remake de A Flauta Silenciosa (com bela fotografia) foi filmado em Israel, sob a direção de Richard Moore; produção de Sandy Howard e Paul Maslansky; e com roteiro (modificado) de Stirling Silliphant  e Stanley Mann. As cenas de luta foram de fracas para razoáveis. Joe Lewis, campeão de Karate point (aluno de Bruce Lee) e posteriormente pioneiro de Full Contact, foi escalado para fazer o papel de Cord, mas acabou recusando porque ele e David Carradine não se davam. Apesar disso, Lewis teria ajudado ao outro karateca campeão (também conhecido de Bruce Lee), Mike Stone, na coreografia das lutas. O único ator/lutador/dublê que se destaca no filme foi Antony de Longis que interpreta o lutador Morthond. Cord (the seeker) foi interpretado pelo inexpressivo, Jeff Cooper; Christopher Lee interpretou Zetan; e David Carradine interpretou o Monge Cego; o Rei Macaco; a Morte; e Changsha, o cigano. Carradine até que se esforçou, mas quando penso que Bruce Lee deveria ter encarnado aqueles papéis,  me vem um sentimento de perda e frustração. Fazer o que? Walk On!

Fiquem em Paz e "Walk On"!

Por Eumário J. Teixeira.