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terça-feira, 17 de abril de 2018

OITO LUTAS REAIS DE BRUCE LEE


Mesmo após 44 anos de sua morte, Bruce Lee ainda é muito assunto para quem ama e curte as artes marciais em geral. Os filmes de Kung Fu made in Hong Kong se tornaram febre mundial no início da década de 1970, apesar de já serem bastante populares desde a década de 1950. Mas a origem  do mito de Bruce Lee não seu deu no teatro chinês ou nos filmes “made in” Hong Kong, mas nas ruas.
Antes de conhecer formalmente as artes marciais chinesas, ou precisamente o Wing Chun  do mestre Ip Man, Bruce Lee teve sua iniciação nas chamadas “brigas de rua” (munido, às vezes,  de correntes e até canivetes) promovidas por gangs de adolescentes em Hong Kong, que justificavam as contendas em razão de defenderem seus “territórios” invadidos por gangs rivais ou para simples disputas sem regras (geralmente nos terraços dos prédios) entre praticantes das diversas escolas de Kung Fu existentes na então colônia britânica. 

O Jovem praticante de Wing Chun testava a efetividade de seu estilo
em lutas reais nas ruas e terraços de Hong Kong
Bruce Lee, um jovem adolescente de classe média alta não poderia ter motivos para estar envolvido entre os menos favorecidos rebeldes e ou filhos de membros das máfias de Hong Kong em seus confrontos pelas ruas, mas era assim que acontecia. Mas enquanto era expulso de um colégio e ingressava em outro, Bruce Lee já atuava em produções cinematográficas locais, graças à forte influência e ao bom relacionamento de seu pai, famoso e respeito ator de Ópera Chinesa, Lee Hoi Chuen.
Mas até Bruce ser mandado às pressas para os EUA para exercer sua cidadania norte-americana, onde conheceria uma variedade de artistas marciais profissionais experientes que o levaria a se tornar também respeitado como um artista marcial extremamente habilidoso, ao seu retorno à Hong Kong, para se firmar como um astro internacional de “filmes de Kung Fu”, muita coisa se passou. Sua imagem de herói invencível nas telas se confundia com o Bruce Lee verdadeiro, de tal forma que seus fãs e até mesmos os desafetos pareciam cobrar dele na vida real o mesmo desempenho exibido em seus filmes, ou seja, o ideal da perfeição heroica e infalibilidade que eles mesmos jamais alcançariam em vida.
Mas ele era realmente um lutador nato, um verdadeiro artista marcial e mestre de Kung Fu ou tudo não passava de encenação e um bom marketing? Bruce Lee, já com certo reconhecimento nos EUA na metade da década de 1960, poderia se gabar de ser um lutador altamente letal? Há relatos de confrontos reais que atestem a sua fama construída ao longo de tantos anos?


O Jovem Bruce Lee praticando Chi Sao com o lendário Ip Man
Inicialmente, é bom salientar que Bruce Lee desde a sua fase de “rebelde sem causa” na década de 1950, teria despertado para a necessidade para a luta efetiva e prática nas ruas de Hong Kong. Ele deve ter experimentado e presenciado muitos jovens praticantes de estilos clássicos de Kung Fu sendo surrados em brigas de rua por delinquentes experientes, que lutavam sujo, sem regras, sem escrúpulos e que não tinham nenhum respeito pelo oponente. Isso deve ter lhe causado enorme impacto, ao ponto dele não ficar impressionado com os estilos de Kung Fu muitos vistosos e pouco eficientes para uma luta real, porque ele vivia a realidade do “vale tudo” já naquela época. Sua opção pelo Wing Chun se deu pela praticidade, simplicidade e efetividade, apesar de ainda assim ser um estilo limitado, com todos os outros.
Mas, vem outra questão, mas se ele era tão bom assim, porque ele não tentou a carreira como lutador profissional ou boxer, o que era comum entre alguns atores de filmes de Kung Fu nas décadas de 1970 e 1980, em Hong Kong. Ora, alguns tentaram, mas se torna impossível ter sucesso satisfatório em ambas as atividades ao mesmo tempo. Ou se dedica a uma ou a outra. Sem contar com o retorno financeiro, já que a carreira como ator de cinema sempre compensou muito mais do que a de lutador profissional, e isso vale até hoje, mesmo considerando os altos cachês dos lutadores de M.M.A.
Outro detalhe, Bruce Lee era extremamente criativo. Sua capacidade de criação seria completamente satisfeita somente no cinema. Seus projetos que não vingaram por um motivo ou outro em vida, tais como o racismo, preconceito, discriminação, falta de verba ou mesmo por causa de sua morte precoce, atestaram que sua mente era uma geradora incessante de novas ideias e roteiros criativos sempre baseados em temas marciais com cunho filosófico. 


Projetos de Bruce Lee, como The Warrior e The Silent Flute, inicialmente rejeitados pelos grandes
estúdios de Hollywood, foram às telas anos após a sua morte e bastante modificados da ideia original. 
O ensaio fotográfico feito por Bruce Lee em 1972, nos estúdios de Hong Kong, seria outro projeto 

não realizado, um filme de época sobre um lendário herói da cultura chinesa.
Vale lembrar os projetos de “The Warrior’ (O Guerreiro), que adulterado, se tornou a famigerada série “Kung Fu”, na TV; “The Silent Flute” (A Flauta Silenciosa), que se tornou “Círculo de Ferro’ (Iron Circle) numa versão deturpada do script original; o ensaio fotográfico para  a Shaw Bros em Hong Kong, que se tornaria um filme de época que alguns dizem erroneamente ser “O Dragão de Jade”, baseado num personagem heroico do folclore chinês; e, certamente, o que seria o seu maior triunfo e que não pôde ser concluído da forma que gostaria por ele ter falecido antes, o enigmático filme O Jogo da Morte (The Game of Death) que superaria o sucesso de Operação Dragão (Enter the Dragon), no meu entender.


O Jogo da Morte (The Game of Death) fatalmente superaria Operação Dragão (Enter The Dragon),
pois a obra trataria essencialmente sobre a filosofia e conceito do Jeet Kune Do. Esse projeto
compensaria a frustração da não realização de The Silent Flute (A Flauta Silenciosa).
Mas, infelizmente, Bruce morreria precocemente em julho de 1973 e não pôde finalizar sua obra como queria.
Assim, se ele fosse se dedicar apenas à luta profissional, estaria cerceando sua vasta capacidade de criação e, certamente, apesar de estar figurando entre os melhores de sua categoria de peso, algum dia ele seria vencido pelo avanço da própria idade e pela ação implacável do tempo. Fatalmente, seus projetos para divulgação da filosofia do Jeet Kune Do ficariam para trás, pois ele estaria apenas preocupado em se manter em forma e se preparando para o próximo combate ou disputa de título. Considerando também que numa competição oficial, como o M.M.A., Boxe, ou mesmo no chamado Vale-Tudo, as regras existem e limitam a livre atuação do artista marcial e isso era tudo o que ele combatia.
É fato também que Bruce Lee confidenciava aos mais íntimos que ele tinha um forte pressentimento de que não viveria por muito tempo. Uma de seus principais objetivos era conseguir sua independência financeira como ator e depois continuar no cinema como produtor e diretor de filmes. A carreira na indústria cinematográfica é extensa para quem tem talento, e isso Bruce tinha de sobra. 


Em O Vôo do Dragão (The Way of the Dragon - 1972) Bruce exerceu as funções de
promotor, produtor, diretor, escritor, ator e coreógrafo das lutas.
Ele podia facilmente exercer as funções de ator, coreógrafo, diretor, produtor e promotor de sua própria obra. Sua capacidade intelectual estava muito acima da média dos demais atores do gênero e mesmo de Hollywood. Por que então perder tantas oportunidades se digladiando por dinheiro, tentando provar a cada confronto ele ou o seu “sistema de luta” era o melhor? Para ele isso não fazia sentido e não era de forma alguma muito promissor.
Sobre sua capacidade físicas como lutador? Ora, vários faixas-pretas, lutadores profissionais e campeões de diversos estilos e pesos que treinaram ou fizeram sparring com Lee (de 1,68-1,70 e 58-62 kg) atestaram sua rapidez, intocabilidade, movimentação e poder ao desferir seus golpes com os punhos e pés. Podemos citar Ed Parker (Kempô e Shorin-Ryu Karate), Bob Wall (Tang Soo Doo), Chuck Norris (Tang Soo Doo), Joe Lewis (Shorin-Ryu Karate), Louis Delgado (Shorin-Ryu Karate), Mike Stone (Shorin-Ryu Karate), Jim Kelly (Shorin-Ryu karate), Wally Jay (Small Circle Jiu-Jitsu, Judô, Boxe), Gene LeBell (Judô, Jiu-Jitsu, Wrestling), Hayward Nishioka (Judô), Jhoon Rhee (Taekwondo), Ji Han Jae (fundador do Hapkidô) e Wong In Sik (Hapkidô), só para citar alguns.


Bruce Lee tinha proveitosos relacionamentos com os mais diversos artistas marciais, como 
Gene Lebell, Hayward Nishioka, Chuck Norris, Jhoon Rhee, Ji Han Jae ...

... Ed Parker, Mike Stone, Joe Lewis, Wally Jay, Jim Kelly e Bob Wall, 
lutadores experientes e campeões que o inspiraram e o levaram a desenvolver 
o seu conceito ou estilo próprio conhecido como Jeet Kune Do.
Não posso deixar de citar seus principais e respeitados alunos, Dan Inosanto, Taky Kimura, James Yimm Lee, Jesse Glover, Ted Wong, Daniel Lee, Richard Bustillo, James De Mile, Howard Williams, Bob Baker, Kareen Abdul Jabbar, Herb Jackson, Ed Hart, Jerry Poteet, Bob Bremer, dentre outros. 


Bruce Lee e seus discípulos mais íntimos, como Jesse Glover, Taky Kimura, James Yimm Lee, 
Dan Inosanto, Ted Wong e Daniel Lee, acompanharam toda 
a transição do Wing Chun para o Jun Fan Gung Fu.


James De Mile, Richard Bustillo, Jerry Poteet,  também fizeram parte 
do grupo dos alunos selecionados de Bruce Lee que acompanharam toda 
a transição até chegar ao conceito libertário do Jeet  Kune Do. 
Todos eles testemunharam a capacidade e determinação do Pequeno dragão.
Os seus contemporâneos de juventude transviada não ficam para trás para ao abonarem as qualidades físicas, poderosa força de vontade e a capacidade de rápida assimilação do Pequeno Dragão, como William Cheung, Wong Shun Leung, Hawkins Cheung e Leung Ting, mestres de Wing Chun; e Vince Lacey e Dave Lacey, mestres de Choy Lay Fut.


Da Esquerda para a direita, William Cheung, Wong Shun Leung, 
Hawkins Cheung, Leung Ting e Dave Lacey. Todos colegas da escola Ip Man de Wing Chun, 
com exceção de Dave Lacey, praticante de Choy Lay Fut. Juntos à Bruce Lee, 
vivenciaram os áureos tempos dos combates nas ruas  e terraços em Hong Kong.  

E para finalizar a lista interminável de testemunhas, temos algumas celebridades de Hollywood da década de 1960/70, como os atores Van Williams, Steve McQueen, James Coburn, James Garner, James Franciscus e Dean Martin; os roteiristas e escritores Stirling Silliphant e Joe Hyams; os produtores Fred Weintraub e Roman Polanski, e outros mais que também foram seus alunos particulares.


Os astros de Hollywood, como James Garner, Steve McQueen, James Coburn, Lee Marvin, 
Dean Martin, Van Williams e James Franciscus, se renderam 
ao carisma, energia e habilidades de Bruce Lee...


...até os mestres consagrados do cinema, como Stirling Silliphant, Joe Hyams, 
 Roman Polanski e Fred Weintraub, foram seus discípulos.
Se todos esses acima citados, mentiram ou fantasiaram sobre a real capacidade de Lee com artista marcial, trata-se então do maior embuste mundial já montado para promover a imagem de uma figura pública.
Acho que delonguei demais...vamos ao que interessa. Várias lendas em torno de Bruce Lee surgiram desde a sua morte em 1973 em se tratando das lutas reais que ele teria experimentado antes e depois da fama. A seguir faço um apanhado de oito lutas que teriam ocorrido com testemunhas presentes que confirmaram o fato ou que, em algum caso, deixaram alguma dúvida sobre o que ocorreu realmente na ocasião dos confrontos. A maioria dessas lutas são as mais citadas nas diversas biografias existentes do Pequeno Dragão, considerando também que podem ter ocorrido outras mais.

Oito Lutas Reais de Bruce Lee


Bruce Lee luta para valer e vence o Campeonato Amador de Boxe de Hong Kong, aos 18 anos.
01 – Ano: 1958 – Bruce Lee aos 18 anos participou do Campeonato Amador de Boxe entre doze colégios de Hong Kong. Bruce teria se inscrito dois meses antes da competição e começado às pressas seu treinamento de boxe. A final do campeonato foi entre Bruce Lee, representando o San Francisco Xavier College e o britânico Gary Elms, representando King George V College. Bruce Lee fez uso de técnicas de bloqueio de Wing Chun para travar os ataques com os punhos do atual campeão, Gary Elms e, para o ataque, além dos golpes padrões do boxe, se dispôs dos socos (manivela) diretos em sequência característicos desse estilo peculiar de Kung Fu. Bruce Lee sagrou-se campeão do torneio para o espanto de todos que esperavam mais um título seguido do tri-campeão britânico.


As lutas nos terraços dos prédios de Hong Kong eram habituais entre os jovens praticantes
dos mais variados estilos de Kung Fu. Um combate importante entre Bruce Lee
e um lutador de Choy Lay Fut se deu em 1959.
02 – Ano: 1959 - Bruce Lee tinha sua gang de rua, chamada por eles mesmos de “Tigers of Junction Street”. Ele e sua gang teriam se envolvido em muitas brigas de rua pelos bairros mal afamados de Hong Kong. Mas, segundo algumas fontes, em 29 de abril de 1959, uma dessas lutas aconteceu num terraço de um prédio de apartamentos onde haviam feito uma quadra esportiva. A luta desta vez não era entre líderes de gangs, mas de dois representantes de duas escolas rivais de Kung Fu em Hong Kong,  dos estilos Wing Chun e Choy Lay Fut. O desafio teria partido dos praticantes de Wing Chun. As regras foram acertadas de tal modo que quem fosse empurrado para além da linha branca que delimitava a área de luta, perdia; ou, se fosse nocauteado ou desistisse da luta. O perdedor também poderia ser atirado do terraço. Segundo relatos, Bruce Lee como o representante oficial da escola Wing Chun, estava retirando sua jaqueta para lutar, quando seu oponente praticante de Choy Lay Fut, aproveitou sua distração para lhe atacar com um soco traiçoeiro no olho. Bruce Lee de imediato reagiu de forma furiosa atacando-lhe com uma sequência de socos diretos próprios do estilo Wing Chun, fazendo seu adversário desequilibrar-se com o rosto moído pelos golpes e cair de costas sobre a linha branca. No chão, seu oponente ainda recebeu um par de chutes no olho e na boca, perdendo alguns dentes. Alguns relatos afirmam que o praticante de Choy Lay Fut acabou tendo um braço fraturado. Bruce Lee teria saído apenas com um olho roxo do episódio e teria decidido não jogá-lo de cima do prédio de 5 andares. Os pais do rapaz teriam dado queixa à polícia local. Foi dito também o jovem espancado por Bruce Lee, na verdade, era filho de um membro da máfia Triads. A mãe de Bruce, Grace Lee, foi intimada pela polícia e se viu obrigada a assinar um termo de responsabilidade assegurando a boa conduta de seu filho. Daí a necessidade de Bruce Lee ser praticamente despachado às pressas para os EUA, ainda neste ano, pelo seu pai Lee Hoi Chuen.


Na luta contra o karateca em 1960, Bruce explodiu e partiu para cima do adversário como
um rolo compressor.  Nas fotos, Bruce bloqueia um chute e soco simultâneos de Taky Kimura; na seguinte,
aplica um cruzado em seu outro discípulo Dan Inosanto, numa sequência próxima ao
que aconteceu no desafio em Seattle.
03 – Ano: 1960 – Bruce Lee tinha chegado há alguns meses em San Francisco, na Califórnia, e mudou-se pouco tempo depois para, Seattle, no estado de Washington. Mas já havia feito boas amizades e conseguido seus primeiros discípulos fiéis. Mas, da mesma forma, já estava criando inimizades e desafetos por defender seus pontos de vista em relação a uma possível superioridade das artes marciais chinesas em relação à algumas artes marciais orientais, como o karate japonês, por exemplo. Na verdade Bruce Lee era muito autoconfiante, mas pecava pela sua imaturidade e falta de conhecimento em relação às demais artes marciais existentes impulsionado pela sua vontade de se sobressair à todo custo na América. Numa dessas palestras em que ele costumava dar em teatros ou em locais públicos para eventos diversos, Bruce discursava sobre os estilos internos ou suaves e externos ou duros do Kung Fu.
Enquanto falava, ele foi interrompido e desafiado por um lutador de Karatê e judô de origem japonesa que se sentia ofendido com suas colocações sobre a inferioridade do karate japonês; que na verdade, Bruce Lee praticamente desconhecia, a não ser pelo fato de que sua origem seria do Kung Fu chinês. Depois de ignorar os desafios e provocações em outras ocasiões, inclusive no Thomas Edison College, onde dava prosseguimento aos seus estudos, Bruce irritado, resolveu aceitar o desafio do lutador japonês. O Local da luta seria numa quadra esportiva do YMCA, um ginásio popular. Bruce Lee teria levado Jesse Glover (seu primeiro discípulo nos EUA) e Ed Hart, como suas testemunhas. 


Bruce Lee e suas duas testemunhas que testemunharam o massacre imposto
por Bruce Lee ao karateca, em Seattle.
Os dois oponentes e suas testemunhas foram de ônibus para o ginásio e durante o percurso, o japonês continuava com as provocações, fazendo Bruce ficar ainda mais furioso. Ficou acertado entre as partes que a luta teria três assaltos de 2 minutos. O vencedor seria aquele que derrubasse ou atingisse mais vezes seu oponente, vencendo pelo menos dois dos três assaltos; ou fosse nocauteado; ou desistisse da luta por alguma razão. Segundo Ed Hart, Bruce Lee adotou a postura de combate tradicional de Wing Chun com a perna direita à frente e o punho direito apontando para o nariz do seu adversário. O karateca iniciou sua postura de luta com o zenkutsu-dachi e em seguida para nekoashi-dachi. O japonês tomou a iniciativa de ataque com sua perna esquerda à frente desferindo um rápido chute frontal (mae-geri) em direção aos testículos de Lee, que se defendeu com o antebraço direito varrendo para fora a perna do karateca quase ao mesmo tempo em que seu punho esquerdo alcançava em cheio o nariz de seu oponente, que já tinha lançado em vão um soco com seu punho direito (guiaku-zuki) que foi bloqueado por uma sequência avassaladora de socos diretos aplicados por Bruce Lee, cobrindo a linha central do oponente. O karateca começou a recuar de costas em vão e de encontro à parede à medida em que os socos de Lee encontravam seu rosto. Ao tentar segurar os braços de Bruce Lee, o karateca recebeu um soco duplo no peito e no nariz ao mesmo tempo, sendo lançado ao chão com o rosto desfigurado. 


O karateca teria tentado atingir os testículos de Bruce com um chute frontal baixo, mas foi
bloqueado e sofreu um contra-ataque simultâneo, numa sequência avassaladora
de socos diretos.
De joelhos  ainda recebeu um chute direto no nariz que fez o sangue do karateca jorrar no piso da quadra. A luta teria durado 11 segundos apenas, segundo Ed Hart que era o responsável por cronometrar o tempo dos assaltos. Bruce Lee mais calmo, teria prometido ao karateca e suas testemunhas que o ocorrido ficaria apenas entre eles. Mas, de alguma forma, o resultado da luta vazou.


Wong Jack Man, o jovem praticante de Kung Fu Shaolin do Norte. 
Personagem responsável pelo reavivamento, décadas depois, de toda uma 
polêmica em torno da clássica luta contra Bruce Lee ocorrida em Oakland, 1964.
04 – Ano: 1964 – Bruce Lee seguia com suas palestras em locais públicos na Chinatown de San Francisco e Oakland, agora não só desmerecendo o karate esportivo, mas questionando a também a efetividade das artes marciais ortodoxas chinesas, presas às tradições e fora da realidade das ruas com seus movimentos floreados. Isso chegou aos ouvidos de um mestre chinês de Kung Fu estilo Shaolin do Norte e Tai Chi Chuan, chamado T. Y. Wong, que liderava uma associação de artes marciais chinesas tradicionais em San Francisco. Wong designou um jovem praticante de Shaolin do Norte, chamado Wong Jack Man, chegado recentemente de Hong Kong, para desafiar a Bruce Lee para uma luta, com a prerrogativa de fechar seu Instituto Lee Jun Fan Gung Fu em Oakland, caso Bruce Lee perdesse o desafio. Em 1964, Bruce ensinava basicamente o Wing Chun, mas já acrescido de alguns elementos de outros estilos de Kung Fu, judô, boxe e outros estilos de luta (o Jeet Kune Do viria bem depois). O desafio para a luta foi levado até Lee pelo praticante de Tai Chi Chuan, David Chin. Bruce teria observado a Chin na ocasião, que ele teria lhe entregado a sentença de morte de Wong Jack Man. No dia da luta, estavam presentes, segundo as fontes mais confiáveis, James Yimm Lee (parceiro e discípulo de Bruce) e Linda Lee. Por parte de Wong Jack Man, estavam os praticantes de Tai Chi Chuan, David Chin e William Chen.


Bruce Lee e sua testemunha principal na luta contra Wong Jack Man: 
Seu amigo e parceiro de Oakland, James Yimm Lee. 
Linda Lee, grávida, estaria no local do evento também.
Segundo Linda Lee, Wong já chegou ponderando e tentando acordar com Lee que a luta seria mais uma troca de técnicas, sem golpes no rosto ou abaixo da cintura. Bruce Lee que já estava inflamado, não concordou com a sugestão de Wong Jack Man afirmando que já que o desafio partiu dele, agora ele teria que se sujeitar a uma luta sem regras. Isso teria pego o desconcertado Wong Jack Man de surpresa. Os dois oponentes saudaram-se tradicionalmente, mas Wong Jack Man teria ainda estendido a mão à Bruce, que ignorou e lançou uma estocada de ponta de dedos em direção aos olhos de Wong, que por pouco não conseguiu se desviar, mas acabou com a testa arranhada. Em seguida Bruce Lee partiu para cima com uma sequência de socos diretos característicos do Wing Chun e ainda desferia chutes frontais na altura da virilha de Wong Jack Man, que não tinha espaço para aplicar seus chutes característicos do Shaolin do Norte. Acuado, Wong teria dado as costas e fugido literalmente do confronto, ao mesmo tempo que Bruce Lee o perseguia socando-lhe a nuca. 


A sequência que Bruce Lee teria usado contra Wong Jack Man:
 Estocada de ponta de dedos nos olhos, socos diretos de Wing Chun e pontapés diretos à virilha.
Wong Jack Man acabou tropeçando e caindo. Bruce se debruçou sobre ele com o punho cerrado e perguntou se bastava. Wong Jack Man teria dito que sim. A luta termina aí. Segundo James Yimm Lee (falecido em 1972) e Linda Lee, a luta teria durado 3 minutos. Segundo as versões das testemunhas de Wong Jack Man, quase 30 minutos. De qualquer forma um Bruce Lee extenuado e decepcionado com sua performance, foi declarado o vencedor. Essa luta, em especial, foi devidamente comentada e explorada neste blog.

Bruce Lee em plena forma, na Tailândia, quando das filmagens
de O Dragão Chinês (The Big Boss - 1971).
05 – Ano: 1971 – A “luta” teria ocorrido durante as filmagens no set de O Dragão Chinês (The Big Boss) que teriam se iniciado em julho de 1971. Um grupo de figurantes tailandeses participavam das filmagens e entre eles, segundo a lenda, havia um dublê experiente e campeão de Muay Thai da região, infiltrado. Não se sabe o que aconteceu para ocorrer a disputa, mas poderia ter começado com provocações ou ironias durante as filmagens que também eram geralmente interrompidas por pessoas desavisadas e desatentas atravessando o set de filmagem, desentendimentos entre Lee e o diretor Lo Wei e outros contratempos. Era um  clima tenso em muitas situações, mas havia seus momentos de descontração e relaxamento.


Na série de TV, The Legend of Bruce Lee, Bruce (Danny Chan) enfrenta
o lutador campeão de Muay Thai desafiante (Mark Dacascos).
O que se sabe ou foi presenciado é que Bruce Lee e o campeão tailandês de Muay Thai resolveram fazer “sombra” ou uma troca de golpes sem contato. Só que durante a sessão de sparring, as coisas começaram a esquentar e, de acordo com uma testemunha, que seria o tio de um mestre pioneiro e autoridade de Muay Thai tailandês conhecido nacionalmente como “Woody”, o suposto campeão de boxe tailandês conseguiu acertar alguns chutes laterais com a canela, nas coxas e pernas de Bruce Lee. Segundo ele, quando as coisas pareciam que iam esquentar para valer, foram interrompidos para que Bruce Lee voltasse ao set de filmagem.


Mestre Woody, afirmou que seu tio teria presenciado a luta de Bruce Lee e o
ainda desconhecido lutador campeão de Muay Thai.


A propriedade de mestre Woody serviu de cenário para as filmagens de o Dragão Chinês.
Mestre Woody, que não estava presente na suposta luta, teria cedido a sua propriedade contendo um casarão e um vasto campo gramado que serviu como residência do vilão de “O Dragão Chinês” interpretado pelo coreógrafo e ator, Han Ying-Chieh.


Lo Wei, diretor de O Dragão Chinês e desafeto de Bruce Lee,
 nunca teria mencionado o suposto combate entre ele e o lutador de Muay Thai.
O diretor Lo Wei, que se tornaria em poucos meses um desafeto de Bruce Lee, nunca mencionou o episódio do confronto em entrevistas ou depoimentos. Os extras tailandeses e artistas chineses que contracenaram na época com Bruce Lee, nunca mencionaram tal confronto, por desconhecerem ou por não estarem presentes no dia, se é que de fato aconteceu.
Mas, segundo rumores, o “figurante” campeão de Muay Thai desconhecia Bruce Lee e só queria ganhar um dinheiro em cima da situação (contra o badalado ator e lutador de Kung Fu chinês) apostando que poderia acertá-lo com alguns chutes. Bruce teria mencionado após o breve confronto que ficou surpreso com a técnica e vigor do lutador tailandês, considerando-o um competente  e realmente profissional.


Equipe de dublês tailandeses que participaram das cenas de lutas em O Dragão Chinês.
O desafiante e lutador de Muay Thai estaria entre eles?




Bruce Lee confidenciaria ao amigo e discípulo Daniel Lee sua forte impressão sobre os fortes chutes
com as canelas dados pelos lutadores profissionais de Muay Thai nas coxas de seus adversários.


Bruce Lee teria comentado ao discípulo Daniel (Dan) Lee, algum tempo depois, sobre o estilo de lutar dos boxeadores Thai. Dan afirmou que Bruce não teria mencionado a luta, mas teria enfatizado sobre os chutes característicos do Muay Thai com “aquelas canelas destrutivas”, abaixo da linha da cintura que atingem as coxas do adversário. Bruce explicou a Dan Lee que: “o problema com eles é que eles são o John L. Sullivam com as pernas, quer dizer, vão para cima sem nenhuma sutileza! Eu vi na Tailândia em primeira mão, o campeão dos pesos Bantam (pesos galo, de 53 a 57 kg), ele era um dos dublês...”. “Se eles conseguem entrar e golpear a parte traseira de sua coxa, isso dói e geralmente é o que eles fazem para que o adversário desista da luta!”


Bruce Lee comparou o ímpeto dos lutadores de muay thai ao chutar aos poderosos
e contundentes socos diretos do lendário boxeador John L. Sullivan.
Bruce Lee conclui: “Bem, nem todos eles conseguem isso; você sabe, só se pode fazer isso (chutar com a canela nas coxas) quando seu adversário está parado, mas quando o oponente está em constante movimento isso não é possível.”
Será que essa troca de técnicas entre Bruce e o campeão de Thai boxing realmente aconteceu, ou é mais uma lenda em torno do mito Bruce Lee? De qualquer forma o suposto confronto foi encenado na série de TV, The Legend of Bruce Lee, com Mark Dacascos fazendo o papel do lutador de Muay Thai e Danny Chang como Bruce Lee. Bruce Venceu, mas a luta foi dura...


O ator e boxeador profissional de Hong Kong teria mesmo lutado com Bruce Lee?
06 – Ano: 1971 – Bruce Lee tinha retornado à Hong Kong com sua família para reiniciar a sua carreira cinematográfica e estrelado com sucesso, O Dragão Chinês (The Big Boss). Um ator de filmes de kung fu e de Boxe pesos leves chamado Lau Dai-Chuen, teria emitido um desafio público a Bruce Lee através dos jornais de Hong Kong.  Segundo alguns depoimentos a luta teria sido acertada entre Bruce Lee e Lau Dai-Chuen através do Sr. Dang, um conhecido de Bruce Lee, e que exercia as funções de policial e presidente da Associação de Artes Marciais Chinesas de Hong Kong. O local da luta seria numa casa particular nos Novos Territórios da colônia britânica. 


Bruce Lee teria confirmado a realização da luta por telefone à Daniel Lee. Já Mr, Dang teria
sido o responsável pela realização da luta privativa para um grupo seleto de umas 20 pessoas. 
Conta-se que quase 20 testemunhas estavam presentes e que Bruce Lee havia aceito o desafio por diversão. Frente a frente os dois se posicionaram para a luta. Lau teria tomado a iniciativa usando o boxe que bem conhecia, partindo para cima de Lee com uma combinação de socos. Bruce Lee reagiu ao ataque recuando com a guarda alta de forma natural como um boxer profissional. Lau Dai-Chuen de imediato tentou tirar o equilíbrio de Bruce Lee varrendo suas pernas com um chute circular baixo padrão dos lutadores de muay thai, mas Bruce intercepta sua tentativa com um bloqueio com sua perna direita ao mesmo tempo que a lança com extrema rapidez e potência em chute lateral direto contra o peito de Lau, que cai por terra se contorcendo em dor. Lau provavelmente sofreu traumatismo nas costelas devido ao poder do golpe desferido por Lee. A luta durou alguns poucos segundos. Algumas fontes dizem que Bruce Lee teria custeado o tratamento de Lau Dai-Chuen e os dois teriam se reconciliado depois. Lau teria ficado longe dos campeonatos de boxe e dos filmes de Kung Fu por algum tempo sem dar explicações públicas e se retiraria definitivamente do cinema e das competições, em 1975. Daniel Lee, aluno do Instituto Lee Jun Fan Gung Fu, de Los Angeles, teria sabido da luta pelo próprio Bruce Lee por telefone. 


Lau Dai-Chuen em entrevista anos depois da suposta luta, em entrevista para TV em Hong Kong.
Tony Liu, que participou do filme O Dragão Chinês (The Big Boss) fazendo o papel do filho do “chefão”, chegou a declarar à imprensa que a luta não tinha acontecido. O que teria presenciado, na verdade, foi somente uma provocação de Lau Dai-Chuen a Bruce Lee no  restaurante Hon Gung, em Hong Kong. No Local estavam juntos numa mesa, Bruce Lee, Tony Liu e Lam Ching Ying (dublê de filmes de Kung Fu e amigo de Lee); Lau Dai-Chuen teria desafiado a Bruce Lee abertamente para que todos os presentes pudessem ouvir. Bruce Lee o ignorou, mas Lam Ching Ying tomou as dores e foi até a mesa de Lau propondo a lutar com ele primeiro. Lau não aceitou e teria saído. Bruce Lee teria permanecido impassível. Segundo Tony Liu, teria sido uma tentativa de golpe de marketing de Lau Dai-Chuen tentando alavancar sua carreira em baixa, explorando a fama cada vez mais crescente de Bruce Lee naquele ano de 1971. Segundo Tony Liu, se Bruce Lee se levantasse naquela ocasião, ele certamente chutaria Lau Dai-Chuen escada à baixo.


O desafiante teria pulado os muros da casa de Bruce Lee em Kowloon e o desafiado
abertamente. Bruce indignado e surpreso com a audácia do jovem punk, não lhe deu a mínima chance.
07 – Ano: 1972 - Herb Jackson, um dos discípulos de Bruce Lee em Los Angeles, o visitou em sua casa, na 41 Cumberland road em Kowloon, Hong Kong, no ano de 1972. Com ele estavam Ted Wong (discípulo de Lee) e o mestre de Taekwondo, Jhoon Rhee. 


Ted Wong, mestre Jhoon Rhee e Herb Jackson em visita à Bruce Lee em Kowloon,
pousam no jardim japonês da residência, por ocasião de uma viagem à Hong Kong, em 1972.


Herb Jackson teria ouvido do próprio Bruce Lee, um relato
sobre a invasão de sua casa em Kowloon. Na foto, Jackson está ao

lado do dublê Steve Lambert, Jason Scott Lee e Ted Wong.
Não se sabe se o fato ocorrido foi antes ou depois da visita destes ao lar de Bruce Lee; mas, segundo o relato de Herb Jackson, um homem teria saltado o muro e invadido o jardim japonês que ficava em frente da casa e chamou alto por Bruce Lee, lançando-lhe um desafio. O invasor teria lhe perguntado o quão bom ele seria. Herb Jackson relata que Bruce Lee teria lhe confidenciado que teria ficado surpreso e espantado, pois não conseguia conceber que alguém pudesse invadir sua propriedade apenas para desafiá-lo. Um Bruce Lee furioso teria ido de encontro ao desafiante e o que se seguiu em diante não foi uma luta, pois ao se aproximar do rapaz aplicou-lhe um único e poderoso chute que o levou ao chão sem a menor chance de reação. O desafio terminou aí. Não houve envolvimento da polícia pela invasão do jovem punk e o caso foi abafado.


Bruce Lee cercado por 400 extras de Operação Dragão (Enter the Dragon - 1973), dentre
os quais haviam membros de gangs rivais e alunos de diversas escolas de Kung Fu que volta
e meia provocavam e desafiavam o rei do Kung Fu.



Bruce Lee num raro momento de descontração entre alguns figurantes e dublês no set de Enter the Dragon.
08 – Ano: 1973 – Nos últimos ensaios para as cenas de luta que envolviam uns 400 extras (guardas de Han contra os prisioneiros das catacumbas) no set de filmagem de Operação Dragão, podia se observar que algumas “lutas” se tornavam reais, pois estavam ali entre os figurantes, membros de gangs rivais que vinham uma oportunidade única de aparecerem diante das câmaras surrando seus rivais. Entre eles havia alguns mais corajosos que resolviam desafiar justamente a estrela do filme, Bruce Lee. Segundo Bob Wall, ator e faixa-preta de Tang Soo Doo, o mesmo que encarnou o personagem O’Hara em Operação Dragão (Enter the Dragon), um figurante estava gritando em cima de um paredão coisas do tipo: “Você não é um artista marcial de verdade, é apenas um ator”, ou “Bruce Lee! Aahhh, venha! E Vença-me!”. E bradava também contra o Jeet Kune Do. As provocações se deram durante os intervalos de gravações no set de Operação Dragão. Bruce o ignorou inicialmente, mas querendo dar um basta naquilo para aliviar a forte tensão que já existia no set, pediu para o rapaz descer do muro e mostrar o que ele sabia fazer. 




Esta sequência de fotos seria o registro, para alguns, da luta entre Bruce Lee e o figurante
 desafiante de Operação Dragão.  Não há confirmação oficial, sobre isso, mas também
poderia ser apenas uma simulação ou sparring. O que vocês acham?

Bruce teria perguntado ao rapaz se ele conhecia o Jeet Kune do, ao que o jovem desafiante respondeu sarcasticamente que ele conhecia o suficiente e que não fazia a mínima diferença para ele. Bruce Lee então teria dito que estava então tudo bem e que o rapaz poderia tentar acerta-lhe um chute. Segundo Bob Wall, o desafiante era um bom lutador, forte, de boa estatura e rápido. Mas todas as investidas do rapaz contra Bruce Lee não deram em nada, pois Lee se desviava e saia de seu alcance com facilidade, parecendo ser intocável. De repente, Bruce acha uma brecha em sua guarda e o empurra contra a paredão pressionando com seu joelho direito o tórax do desafiante ao mesmo tempo que imobilizava os braços do figurante com sua mão esquerda. 


Bob Wall teria presenciado a luta e confirmado que apesar da habilidade e força do desafiante,
ele não teria sido páreo para Bruce Lee.
A partir daí, Bruce começou a se divertir e a socar-lhe o rosto com seu punho direito até que ele começou a sangrar levemente pela boca. Bruce ainda lhe dizia: “Vê? Você está em meu poder.” O rapaz ainda relutou antes de se entregar, exausto. Bruce socou-lhe mais algumas vezes no rosto e após liberá-lo Bruce teria ainda teria dito: “Isso é uma lição para você.” E ainda teria lhe dado alguns conselhos sobre como melhorar sua guarda e melhores estratégias de ataque. No final, teriam apertaram-se as mãos e o jovem antes de voltar para cima do muro, teria dito à Bruce Lee: “Você é realmente um mestre em Artes Marciais.”

Esses fatos são os mais divulgados nas biografias e artigos dedicados à Bruce Lee. Se realmente foram totalmente ou parcialmente verídicos, acho que ninguém saberá, ao certo.

Por Eumário J. Teixeira.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A ORIGEM DO DRAGÃO (BIRTH OF THE DRAGON), VERDADES E MENTIRAS - ANÁLISE CRÍTICA DO FILME


Antes de pontuar algumas falsas informações ou fatos fantasiosos exibidos no filme A Origem do Dragão,  desejo frisar que se o considerássemos  como mais um “filme de kung fu” seria até aceitável, já que eu mesmo o considerei um filme razoável de ação dentro dos padrões para filmes do gênero. Há poucos anos percebi que a indústria do cinema está empenhada em mistificar a imagem do homem Bruce Lee nas telonas, tentando transformá-lo numa espécie de super-herói da Marvel ou num semi deus das artes marciais. Quando se separa o artista marcial, ator, esposo e pai de família e ser humano de carne e osso falível dos personagens que ele “encarnou” nas telonas fica mais fácil de observar os exageros cometidos. Nestas produções se cometem absurdos retorcendo os fatos reais em benefício de um enredo mais romântico ou dramático. Datas  e acontecimentos relacionados com os personagens são apresentados totalmente fora da ordem cronológica e até mesmo fatos inverídicos são enxertados em filmes supostamente de conteúdo biográfico.

"Dragão - A História de Bruce Lee" decepcionou como um filme biográfico sobre o Pequeno Dragão.
Basta lembrar do famigerado filme “Dragon - The Story of Bruce Lee” (Dragão - A História de Bruce Lee – lançado em junho de 1993), que teria sido baseado no livro de Linda Lee (The Man Only I Knew) e mostrava fatos importantes da vida de Bruce Lee totalmente fora da ordem real dos acontecimentos. Por Exemplo: Em “Dragão – A História de Bruce Lee”, a versão da própria luta entre Lee e Wong é apresentada como uma rixa pessoal que geraria dois confrontos e que culminaria na grave lesão nas costas (graças a um golpe traiçoeiro de Wong) que deixaria Bruce Lee paralisado por 6 meses. Ora, quem conhece a biografia de Bruce Lee, sabe que a luta entre ele e Wong aconteceu no final do ano de 1964; e a lesão gravíssima que Bruce teve no 4º nervo sacro, ocorreu devido a um exercício mal feito com halteres com pesos, em 13 de agosto de 1970 (seis anos depois). Ainda neste filme fantasioso, um fictício irmão de Wong Jack Man em busca de vingança (anos depois do irmão ter sido derrotado no famoso confronto em Oakland), desafia Bruce Lee durante as filmagens de The Big Boss (O Dragão Chinês - 1971), na Tailândia e leva uma surra, é claro.
No mesmo filme, a causa da morte de Bruce Lee foi apontada como resultado de um coma misterioso, sugerindo ao longo história como uma consequência de uma maldição familiar, uma batalha contra demônios, que passou de pai para filho. Intencionalmente ou não, acabaram envolvendo até Brandon Lee nesta maldição hereditária, pois este morreria 03 de abril de 1993, pouco antes do lançamento de “Dragon – The Bruce Lee History” (em junho) e durante as filmagens de seu derradeiro filme intitulado “O Corvo”. E como seu pai, Brandon morreria também de forma suspeita, ao receber um tiro mortal num descuido da equipe técnica que municiava as armas de fogo com festim. De qualquer forma, toda essa série de meias-verdades e fantasias teve o aval e o  consentimento de Linda Lee. O interessante neste filme biográfico de Bruce Lee, é que Betty Ting Pei (considerada por muitos envolvida na morte de Lee) não é ao menos citada, já que é sabido que Lee entrou em estado de coma no apartamento da atriz chinesa.

The Legend of Bruce Lee teve grande produção, mas pecou por fantasiar demais.

Cenas da série de TV "The Legend of Bruce Lee" com Danny Chan.
Pouco depois viria a bem produzida série de TV “The Legend of Bruce Lee” (lançado em outubro de 2008) tendo Shannon Lee (filha de Bruce e Linda) como produtora executiva; onde dentre outras coisas duvidosas, se assistia em seus últimos capítulos, um Bruce Lee tão superior como lutador que seus adversários mal podiam tocá-lo ou perceber seus ataques quase que sobrenaturais. Na série, de 50 capítulos, Bruce Lee se torna campeão de um torneio de Artes Marciais nos EUA, exibindo orgulhoso seu troféu de campeão, sendo que na realidade, o único torneio em que Lee participou foi como convidado para demonstração em agosto de 1964 na cidade de Long Beach, na Califórnia (ele também marcaria presença no mesmo torneio, em 1967), um tradicional torneio internacional de “karate”, onde pôde demonstrar técnicas de Wing Chun (ainda não se falava em JKD) auxiliado por seus alunos e voluntários. Na mesma série ainda insistiram com fantasiosas lutas que nunca ocorreram na realidade, como Lee contra um mestre de Karate japonês, chamado Yamamoto;  contra um mestre de jiu-jitsu nos EUA que seria, supostamente, Wally Jay (este um personagem real); um mestre não identificado de Taekwondo; e uma luta contra um desafiante Lutador e campeão de Muay Thai, durante as filmagens de The Big Boss na Tailândia. Apesar de algumas testemunhas da época insistirem em dizer que existia um campeão de Muay Thai "infiltrado" na equipe de dublês tailandeses que participaram do filme. Bruce Lee teria "trocado" alguns golpes com o suposto Thai Boxer. Mas essa luta não foi confirmado pelo próprio diretor Lo Wei ou por atores coadjuvantes que sempre estavam circulando pelo set de filmagem.
Entretanto, o “tratamento” que a série daria para o confronto entre Bruce Lee Wong Jack Man foi especial. A luta com Wong Jack Man é demonstrada no filme como uma rivalidade pessoal que se iniciou na juventude de ambos em Hong Kong e que gerou 5 (cinco) confrontos ao longo da série. Isso mesmo, Wong Jack Man persegue Bruce Lee ao longo da história e vice-versa, até o final da série. E adivinhem, a causa da “famosa” lesão no 4º nervo sacro que deixaria Bruce Lee imobilizado por meses na cama e numa cadeira de rodas, foi graças a um ataque traiçoeiro de Wong Jack Man pelas costas enquanto Bruce Lee era declarado vencedor pelos árbitros da luta.

Versões de cartazes para "A Origem do Dragão" (Birth of the Dragon)
A Origem do Dragão – O Filme

Mas uma outra versão da famosa luta entre Lee e Wong foi montada para “A Origem do Dragão”, lançado em agosto de 2017. Só que desta vez parece que quiseram “arranhar” mais um pouco a imagem de “bom moço” de Bruce Lee, mostrando-o como um personagem secundário e quase vilão, de forte temperamento, ambicioso, calculista, arrogante e egoísta ao extremo. O protagonista principal neste suposto filme sobre Bruce Lee, seria na verdade Wong Jack Man, que ao contrário de Lee, tem todas as qualidades de um monge de Shaolin, sabedoria, paciência, auto-controle e maturidade, segundo a versão do filme. E ainda por cima, o “personagem” Wong Jack Man, se revela no final como o mestre que (ao procurar a reconciliação consigo mesmo, devido a um erro no passado) direciona e praticamente instrui (e não inspira ou provoca) Bruce Lee a desenvolver seu famoso método de luta, conhecido como Jeet Kune Do.
Percebe-se claramente que a intenção do filme é a promoção e resgate da figura obscurecida de Wong Jack Man. Então no meu entender o título apropriado do filme, poderia ser “Wong Jack Man, o Mestre Inspirador de Bruce Lee” ou “Wong Jack Man, o Monge que domou o Dragão”. Mas estes títulos são longos demais e fora do contexto do que realmente aconteceu.
Bem, chega de delongas e vamos aos pontos falhos que observei no filme e que não condizem com os fatos verídicos que fazem a história do Pequeno Dragão.

Verdades e Mentiras

A lendária luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man ocorreu no outro lado da ponte, no
Lee Jun Fan Gung Fu Institute, em Oakland.
01 – A Luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man ocorreu em Oakland, no Lee Jun Fan Gung Fu Institute, academia de Bruce Lee, no final de 1964. Na versão do filme, a luta ocorre numa área de depósito ou num armazém localizado cais de San Francisco.

O jovem praticante (e não mestre) de Kung Fu Shaolin do Norte, Wong Jack Man, por volta de 1964.
02 – Wong Jack Man na época, não era um mestre de Kung Fu e muito menos um monge de Shaolin da província de Henan, na China. Em 1964, Wong Jack Man era apenas um jovem praticante, de nível médio para bom, de Kung Fu Shaolin do Norte recém chegado a Hong Kong. Certamente poderia ter sido um bom executor do vasto currículo de katis com ou sem armas do Shaolin do Norte, mas isso não quer dizer que ele estaria apto para uma luta sem regras. Bruce Lee e vários de seus amigos foram, na segunda metade da década de 1950, alunos do mestre Ip Man, máxima autoridade de Wing Chun em Hong Kong e podemos citar alguns de seus colegas de aprendizado, tais como Wong Shun Leung, Leung Ting, Hawkins Cheung e William Cheung representando o Wing Chun; e os irmãos Vince e Dave Lacey (o Pantera Negra), representando o Choy Lay Fut. Todos eles se conheciam e viveram parte de sua mocidade em Hong Kong enfrentando desafios de alunos de outras escolas de Kung Fu rivais nas ruas e nos terraços dos prédios e nunca tinham ouvido falar de Wong Jack Man até o dia em que foi revelado o resultado do confronto de 1964 muito tempo após, nas comunidades chinesas de Oakland e San Francisco e mesmo em Hong Kong.

Da esquerda para a direita: Bruce Lee e Hawkins Cheung em Hong Kong na década
de 1950; Hawkins Cheung e Wong Shun Leung, nos anos de 1980; Bruce Lee e Wong Shun Leung
na década de 1950; e Wong Shun Leung e William Sheung, nos anos de 1970.


Da esquerda para a direita: Ip Man e Leung Ting; Ip Man e  Wong Shun Leung;
Ip Man e William Cheung; e Ip Man e Bruce Lee. na década de 1950.


Dave Lacey (o Pantera Negra) e seu irmão Vince, foram amigos de Bruce Lee na década de 1950, em
Hong Kong. Bruce admirava o estilo de Kung Fu adotado pelos Lacey, o Choy Lay Fut.

Flagrante de disputa entre alunos de diversas  escolas de Kung Fu nos terraços de
Hong Kong na década de 1950. Geralmente o Wing Chun levava vantagem.


03 – Como no filme, também se conta enganosamente na história oficial ou na versão romântica do livro de Linda Lee, viúva de Bruce, que Wong Jack Man foi desafiar a Bruce Lee pelo simples fato dele ensinar os “segredos” do Kung Fu aos não chineses em Oakland. Na verdade, segundo testemunhas confiáveis e próximas à Bruce Lee, o que levou ao desafio de Wong Jack Man foi outra coisa. O principal motivo seria que, em meados da década de 1960, Bruce Lee costumava “visitar” as academias tradicionais de Kung Fu nos bairros chineses de San Francisco questionando abertamente seus métodos de treinamento e até mesmo desafiando alguns instrutores locais para por à prova a efetividade de seus estilos em comparação ao Wing Chun, que ele considerava um estilo enxuto e mais eficiente. A audácia do jovem Bruce Lee despertou a ira de alguns mestres veteranos e de seus alunos de San Francisco, que escolheram o tímido e desconhecido lutador recém chegado de Hong Kong, Wong Jack Man, para desafiá-lo. Wong Jack Man tinha lá suas ambições pessoais, queria se firmar na comunidade chinesa como um bom e respeitado praticante de kung fu tradicional, e assim decidiu desafiar à Bruce Lee por influência de mestres veteranos da Chinatown de San Francisco.

No início da década de 1960, o jovem Bruce Lee basicamente ensinava
o Wing Chun Kung Fu nos EUA. Na foto, Bruce e James Yimm Lee no
Instituto de Oakland.


Aos poucos durante o decorrer dos anos de 1960, Bruce Lee
foi mesclando ao Wing Chun elementos de outros estilos de Kung Fu
 e de outras artes marciais orientais e ocidentais.


Bruce Lee recebe a visita ilustre de seu colega e instrutor de Wing Chun, Wong Shun Leung
no set de Operação Dragão (1973), na foto à esquerda. Na foto à direita, Bruce Lee e Wong Shun Leung
 na década de 1950. Na época Wong era um dos alunos mais experientes de Ip Man.
04 – Na ocasião do confronto, em 1964, Bruce Lee defendia o Wing Chun, um estilo prático e direto de origem no Sul da China e que tinha como autoridade máxima o mestre Ip Man, de Hong Kong. Bruce Lee ainda não tinha criado o Jeet Kune Do, seu conceito ou método de luta que ainda surgiria nos anos seguintes após a luta com Wong. Por sua vez, Wong Jack Man defendia o Shaolin do Norte, estilo que como diz o nome, tem a origem no Norte da China. Mas Wong Jack Man teria iniciado neste estilo em Hong Kong, onde nasceu e viveu até se mudar para os EUA. Ambos tinham 24 anos e tanto um como o outro não poderiam ser considerados professores e muito menos mestres de seus respectivos estilos. Bruce praticou Wing Chun sob a supervisão de Ip Man e teve aulas diretas com o aluno mais avançado Wong Shun Leung, de 1954 a 1958 aproximadamente. Desconheço qualquer informação sob a origem do aprendizado de Wong Jack Man, apesar de seus alunos e alguns seguidores baterem o pé em afirmar que o jovem Wong Jack Man, de 24 anos, já era grão-mestre de Shaolin do Norte quando enfrentou Bruce Lee. Sendo assim, o “grão-mestre” empatando a luta com um lutador não totalmente formado em Wing Chun, não pegaria bem; imagine então, perdendo a mesma luta para alguém que não poderia nem ser taxado de professor  ou “sifu”, oficialmente.

05 – Em 1964, Bruce Lee ainda não atuava em séries de TV e muito menos em filmes de Kung Fu (Ainda desconhecidos nos EUA) ou em filmes “caseiros” de ação, como foi demonstrado erroneamente no filme A Origem do Dragão. Na verdade, Bruce fotografava ou filmava seus próprios treinos ou aulas aos seus alunos no instituto ou ao ar livre. Dois anos após o confronto com Wong Jack Man e graças à sua primeira exibição no Torneio Internacional de Karate em Long Beach no mesmo ano, é que ele foi convidado à trabalhar na série o Besouro Verde (The Green Hornet – 1966-1967) fazendo o personagem Kato.

Bruce Lee (Philip Ng) e seus discípulos problemáticos, Mac e Vinnie.

06 – Não há registro algum que comprove que Bruce Lee teve algum discípulo caucasiano na academia de Oakland (no filme, San Francisco) chamado Steve (Mac) McKee e outro de origem chinesa de nome Vinnie (que seria viciado em jogos e que fosse perseguido pela máfia).

Segundo o filme, Wong Jack Man era um monge (cheio de contradições) à procura
de redenção ao mesmo mesmo que exercia a função de "inspetor" das artes marciais chinesas.
07- Wong Jack Man, como já foi citado, não veio de um Templo Shaolin na China para uma peregrinação na América com o intuito de inspecionar os instrutores de Kung Fu chineses que para lá emigraram, como se fosse uma autoridade fiscalizadora delegada pelos mestres Shaolin de Henan, conforme anunciado no jornal que circulou na Chinatown de San Francisco, segundo a versão do filme, é claro.

Quan  Xilulan, a linda namorada chinesa de Mac e escrava da máfia chinesa, que nunca existiu.
08 – Quan Xiulan, a namorada chinesa de Mac, o aluno rebelde e dissidente de Bruce Lee, nunca existiu, como o próprio Mac. No filme, a personagem fictícia era escrava da máfia chinesa e também perita em Do-In (massagem chinesa).

Steve McKee aluno dissidente de Bruce Lee (no filme), à procura de
mais emoções com Wong Jack Man, recém-chegado a San Francisco.
09 – O discípulo fictício de Bruce Lee, Steve McKee, nunca recepcionou Wong Jack Man em sua chegada a São Francisco, na Califórnia. No filme, Mac, insatisfeito com Bruce Lee e curioso com a fama (inexistente, na época) de Wong Jack Man, o procura para aprender o kung fu Shaolin do Norte. Como um jovem de 24 anos como Wong Jack Man, poderia ser considerado “uma lenda viva” e ser tão afamado tanto na China como em San Francisco?

10 – Não há registro por parte de familiares ou amigos próximos a Bruce Lee em que se menciona que dele era cobrado as “taxas de rua” pela máfia Tríades de Seattle, Oakland (no filme, San Francisco), ou Los Angeles, cidades onde morou nos EUA e onde Bruce abriu seus três institutos de Kung Fu.

Na verdade não foi Wong Jack Man que inspirou Bruce Lee filosoficamente para a formação
do conceito do Jeet Kune Do. O principal responsável por tudo foi o controverso filósofo e
guru indiano, Jiddu Krishnamurti, radicado na Califórnia.
11 – No filme, Bruce Lee é retratado como um ambicioso lutador de rua rebelde que desprezava a disciplina e as tradições  das escolas ortodoxas e, Wong Jack Man, como um mestre fiel às tradições disciplinares, hierárquicas e milenares do Kung Fu, sendo um monge de elevada consciência espiritual. É sabido que Bruce Lee em meados da década de 1960 discursava questionando todas as “armadilhas” e tradições das escolas ortodoxas que limitavam a expressão natural e a liberdade individual de criação do artista marcial, mas ele nunca menosprezou a disciplina, o trabalho sistemático para evoluir tanto fisicamente quanto tecnicamente sob supervisão dentro de um método de ensino que deveria ser acompanhado hierarquicamente no desenvolvimento da aprendizagem. Bruce Lee já estudava filosofia desde 1961 e se formaria em 1964, era um leitor voraz dessa matéria tanto nas suas vertentes orientais ou ocidentais, sempre procurando conciliar a filosofia com o ensino das artes marciais, já naquela época. E se houve alguém quem inspirou a Bruce Lee para formular sua filosofia e conceito sobre o Jeet Kune Do, foi o sábio indiano, Jiddu Krishnamurti (radicado nos Eua), que pregava naqueles anos de rebeldia social, sobre a necessidade do homem alcançar um nível de atenção individual para poder “enxergar” a verdadeira “realidade” das coisas sem julgamento ou conflitos, o que seria somente possível a partir do momento em que ele se libertasse dos dogmas, escolas e tradições que só fazem escravizar e trazer sofrimento. Bruce Lee “devorava” transcrições dos discursos de Krishnamurti e procurava transferir os conceitos filosóficos deste para a prática do Jeet Kune Do que essencialmente pregava a adaptabilidade e livre expressão para a luta. Sobre Wong Jack Man, não há nada que comprove toda aquela elevada espiritualidade destacada no filme, aliás ele era tido como muito tímido e de certa forma inseguro, segundo avaliaram as testemunhas da luta entre ele e Lee.

Bruce Lee  e seus alunos no instituto de San Francisco (deveria ser Oakland) na versão do filme.
12 – No filme se insinua que o aluno de Bruce Lee, de nome Mac, começa a se interessar pelas habilidades marciais de Wong Jack Man, pondo em segundo plano os ensinamentos de Bruce Lee. Mas sabemos que Mac é um personagem fictício tanto quanto as habilidades de Wong Jack Man, por ocasião da luta.

13 – A comparação filosófica entre o Kung Fu chinês e a bomba atômica norte-americana feita por Wong Jack Man no filme, beira o ridículo e nunca aconteceu. Foi a justificativa para o personagem reprovar o ensinamento dos “segredos” do Kung Fu aos não chineses, já que, da mesma forma, os norte-americanos nunca compartilhariam os da bomba atômica aos asiáticos. E filosoficamente, Wong diz que a Bomba simbolizaria a morte e, o Kung Fu, a vida.

14 – No filme Bruce Lee é taxado como uma vaidosa celebridade de TV e Wong Jack Man, um monge sábio e de alto nível espiritual que, em sua humilde tão evidente, se rebaixa a lavar pratos num restaurante. A verdade sobre o lavar pratos, é que Wong Jack Man, que nunca foi monge e também não era nenhum mestre de Kung Fu em 1964, apenas um praticante aplicado do Estilo Shaolin do Norte, levava pratos como forma de obter seu sustento e não para “pagar promessa” ou se redimir de uma falta demonstrando arrependimento e humildade nessa função, considerada indigna por muitos chineses. Da mesma forma fez Bruce Lee no restaurante de Ruby Chow, onde trabalhou como garçom e lavou pratos, logo que chegou aos EUA em 1959. E Bruce Lee na ocasião da luta com Wong Jack Man ainda não trabalhava para a TV ou cinema.

Bruce Lee não ganhou nenhum torneio lutando para valer nos EUA e muito menos
humilhou seus oponentes, como mostra o filme.

15 – Bruce Lee não humilhou e venceu num torneio de artes marciais em 1964, um campeão veterano de karate chamado Vince, usando contra ele seu famoso “soco de uma polegada”, antes da derradeira luta com Wong Jack Man. Na verdade, Bruce Lee participou como convidado fazendo demonstrações no Torneio Internacional de Long Beach, na Califórnia, em 1964. Lee teve como auxiliar de demonstração, seu aluno Taky Kimura. Lee exibiu algumas técnicas de Wing Chun, como o Chi Sao (mãos aderentes) e algumas formas de aplicar chutes e socos. Inclusive o “soco de uma polegada em demonstração com um voluntário. Ele não lutou para valer ou humilhou ninguém, na ocasião.

Bruce Lee com seu discípulo (que realmente existiu) Barney Scollan. A demonstração
se deu um dia antes do Torneio de Long Beach num hotel próximo ao local do evento internacional de

Karate, em 1964. No hotel estavam vários artistas marciais que participariam do campeonato.
Taky Kimura (discípulo de Lee) participa da demonstração no hotel.

Bruce Lee e Taky Kimura em apresentação no Torneio Internacional de Karate
de Long Beach, Califòrnia, em  agosto de 1964.

16 – Mais absurdo ainda é que, na versão do filme, durante o fictício torneio de San Francisco em que Bruce Lee teria sido campeão (segundo o filme), Wong Jack Man está presente e é desafiado por Lee, que ainda tenta desqualificá-lo e humilhá-lo perante o grande público.

17 – No filme se menciona que Bruce aprendeu os princípios de Kung Fu com seu pai. O que não é verdade. Bruce começou a aprender a lutar nas ruas de Hong Kong, e da mesma forma que batia, apanhava também. Assim seu pai o enviou a Ip Man, o mestre lendário de Wing Chun, para  que o filho fosse disciplinado através da prática das artes marciais. Algumas fontes apontam que, no máximo, Lee Hoi Chuen praticava Tai Chi Chuan e que teria “ensinado” alguns movimentos à Bruce que não teria se adaptado  à lentidão do Tai Chi.

Wong Jack Man, em fotos tiradas em meados de 1970. 
18 – Outro fato fantasioso do filme é que Wong Jack Man conheceria técnicas de chutes mortais, as mesmas que ele usou e teriam ferido gravemente um mestre de Tai Chi Chuan numa luta demonstração, ocorrida na China, num passado distante. Imaginem, um rapaz de 24 aos e já tinha um passado tão impressionante. Assim, ele teria vindo aos EUA para pagar penitência lavando pratos na chinatown de San Francisco (ao mesmo tempo em que fiscalizava as escolas?!?). Se insinua também, que ele teria evitado usar os mesmos golpes contra o impetuoso Bruce Lee, para não feri-lo ou mesmo matá-lo. Apesar de ter vencido claramente a peleja, na versão do filme.
Obs.: Alguns chutes de Shaolin do Norte ou de qualquer outro estilo de Kung Fu, Taekwondo ou Karate, seriam mesmo mortais, se fossem aplicados com eficiência em qualquer pessoa.

19 – Lembram-se de toda aquela filosofia de Bruce Lee sobre “ter nenhum limite como limite”? Pois na versão do filme, é Wong Jack Man que desperta em Bruce Lee a ideia da adaptabilidade ao lutar se libertando das tradições que limitam a livre expressão do artista marcial. Numa evidente contradição do filme, Wong Jack Man que representava as tradições das escolas de Kung Fu chinesas ortodoxas faz um discurso para o “imaturo” Bruce Lee lhe dizendo que “...a técnica é uma armadilha e o estilo uma prisão” e que “...o kung fu deveria libertar”.

20 – O filme claramente é dedicado ao resgate da imagem apagada e desprezada de Wong Jack Man pela história, que ficou lembrado internacionalmente como aquele lutador de Shaolin do Norte inexperiente que foi ousou desafiar Bruce Lee em seu próprio dojô e foi surrado por ele, em 1964. E após esse confronto, Wong desapareceu por décadas, pois são raras suas fotos, imagens e mesmo entrevistas ou depoimentos sobre o ocorrido, se é que existem. E mesmo após a morte de Lee, ele não ousou a desmentir ou a confirmar qualquer uma das versões, de sua derrota ou suposta vitória. Apenas alguns de seus seguidores o defendem até hoje. Mas o importante, é que Bruce não está mais aqui para rebater qualquer versão e aí fica mais fácil polemizar. Mas com o cara vivo, mesmo velhinho, seria diferente.

Wong Jack Man em fotos à esquerda e T. Y. Wong à direita. Wong foi ex-mestre de James Yimm Lee
que o abandonou por desavenças financeiras, se tornando em seguida discípulo e parceiro
de Bruce Lee. T. Y. Wong, provavelmente, teria sido o responsável pelo desafio de
Wong Jack Man à Bruce Lee.
21 – Outra inverdade do filme, para não dizer algo mais pesado, é que Wong Jack Man, no alto da sua superioridade, só aceita lutar com Bruce Lee porque McKee (personagem fictício) o implora para fazê-lo, já que a máfia Triads estaria interessado nas apostas da luta já anunciada por toda chinatown, garantindo assim a libertação de sua namorada do trabalho escravo. Na versão oficial, sabemos que Wong Jack Man foi escolhido pelos mestres de Kung Fu da chinatown de San Francisco para desafiar a Bruce e fechar a sua academia em Oakland, se este perdesse.

Bruce Lee no "boneco de madeira" treinando técnicas de Wing Chun
em Hong Kong, na década de 1950.

Bruce Lee no final da década de 1960. O Wing Chun seria agora apenas
a base do Jeet Kune Do.
22 – Na verdade, o confronto de Bruce Lee e Wong Jack Man não teve divulgação popular alguma na comunidade chinesa de San Francisco ou de Oakland. Foi um acordo fechado entre as partes para que mantivesse em segredo independentemente do resultado. Se Bruce perdesse, a sua academia em Oakland seria fechada; se ele ganhasse, permaneceria aberta. É sabido que Bruce Lee não fechou sua Academia. Ele tinha aberto o primeiro Lee Jun Fan Gung Fu Institute em Seattle com o auxílio de Taky Kimura; abriu o segundo instituto em Oakland com James Yimm Lee; e abriria o terceiro instituto em Los Angeles, com Dan Inosanto, pouco depois dessa luta com Wong Jack Man. A princípio, Bruce ensinava o Wing Chun puro que aprendeu em Hong Kong por 4 anos na escola de Ip Man, com alguns poucos elementos de outros estilos que lhe interessava como o Praying Mantis, Choy Lay Fut e técnicas e pernas dos estilos do Norte. O conceito de Jeet Kune Do (O Caminho de Interceptação com o Punho) viria por de de 1966/1967 com a adesão de técnicas de outros estilos de luta ocidental e oriental, como o boxe (de forma evidente), savate, wrestling, judô, jiu-jitsu, chin-na, aikidô, muay-thai, esgrima, taekwondo, hapkido, etc. Ainda sim, a base do Jeet Kune Do seria o Wing Chun, ainda que de forma mais discreta.

23 – A data do confronto entre Bruce Lee e Wong Jack Man no instituto de Bruce Lee em Oakland, e não num armazém situado no porto de San Francisco, segundo a versão do filme, ocorreu em 24 de novembro de 1964. Não há nada que confirme essa data nos registros oficiais com entrevistas ou depoimentos das testemunhas. O certo é que foi no final do ano de 1964, já no inverno, sendo que Linda Lee já estava no fina da gravidez de Brandon Lee. Pode ter ocorrido entre o final de novembro e a primeira quinzena de dezembro.

As únicas testemunhas de Bruce Lee durante o confronto com
Wong Jack Man, teriam sido Linda Lee e James Yimm Lee (abaixo).

Bruce Lee e James Yim Lee, trocando técnicas de Wing Chun em Oakland.

24 – Por falar em testemunhas, o personagem fictício Mckee, não estava lá no dia e local da luta. As testemunhas do lado de Bruce eram Linda Lee grávida e James Yimm Lee, parceiro e administrador do Lee Jun Fan Gung Fu Institute, de Oakland. As testemunhas por parte de Wong Jack não foram devidamente indentificadas, mas algumas fontes citam os ainda professores (e não mestres) de Tai Chi Chuan, David Chin e William Chen. Aliás, na realidade, foi David Chin que entregou a carta de desafio à Bruce Lee.

A luta no filme começou até bem e parecia seguir a realidade dos fatos, mas aí desandou para
a mitologia de Hollywood e dos filmes de Kung Fu made in Hong Kong.
25 – Coreografia da Luta no filme – A luta começa quase seguindo fielmente os depoimentos oficiais das testemunhas Linda Lee e James Yim Lee. Logo depois de se cumprimentarem, Bruce lança uma estocada de dedos em direção aos olhos de Wong Jack Man, que se desvia por pouco mas acaba com um arranhão na testa. Bruce continua avançando em linha reta com os socos diretos característicos do Wing Chun e lançando alguns chutes frontais em direção à    virilha de seu adversário. Segundo a versão oficial, Wong passa a dar às costas e a correr; Bruce não lhe permite espaço para tentar usar os chutes altos característicos do Shaolin do Norte; Bruce o persegue e tenta alcançá-lo socando sua nuca, até que Wong tropeça e cai. Bruce se debruça sobre ele e com o punho erguido apontando para o seu nariz, pergunta-lhe se já basta. Wong responde que sim. E assim teria sido. Nada de espetacular ou plástico. Mas no filme, após o bom início da luta, começam-se os saltos acrobáticos de Wong, a correria pela escada acima, os voos em câmara lenta, até que Bruce é imobilizado e claramente vencido. Wong o solta, Bruce aproveita a oportunidade e o derruba com um poderoso chute lateral. Mas no filme, Wong teria vencido facilmente, se quisesse. Nas duas versões das testemunhas de um lado ou outro, divergem os tempos de luta. Para o lado de Bruce a luta durou estressantes 3 minutos; para a turma de Wong, quase de 25 a 30 minutos. Isso, segundo David Chin e William Chen. Vai saber...

26 – No filme, fica acertado um empate técnico entre as partes. Os dois passam a se respeitar. Mas a máfia exige uma definição para lucrar com o dinheiro das apostas. O “orgulhoso” Bruce Lee não aceitaria a derrota de forma alguma, mesmo tendo perdido claramente.

Bruce Lee e Wong Jack Man, juntos contra a máfia...é brincadeira!!!
27 – E o último dos absurdos acontece, Bruce e Wong decidem se unir para enfrentar a máfia e libertar a namorada de McKee na base do kung fu mesmo. Invadem o local do cativeiro, quebram tudo inclusive os mafiosos, mas acabam por acordar com a chefona da máfia que Bruce Lee foi oficialmente o vencedor da luta com Wong Jack Man. A máfia assim não perde, Mckee recupera e liberta a namorada, Bruce Lee se sai bem e promovido na história, e só Wong Jack Man acaba se danando... Claro que não! Pois ele pagou todos os seus pecados e está livre para voltar para o mosteiro Shaolin em Henan, com sua dignidade restaurada e quem sabe, retornar algum dia para San Francisco ensinar o seu estiloso kung fu.

28 – Na verdade, Wong Jack Man nunca teria saído de San Francisco após a luta com Bruce Lee. Mas continuou no anonimato e quase foi esquecido pela história. Mas se ele é lembrado agora, pode ter certeza que foi graças à trajetória vencedora e inspiradora da vida Bruce Lee, de quem os fãs sempre se lembram e nunca esquecerão, mesmo após mais de quatro décadas de sua morte.

Wong Jack Man em 2017 e em foto nos anos de 1970.
O "rival" de Bruce Lee ressurge das cinzas e da obscuridade.

Wong Jack Man, setentão, ao lado do seu jovem oponente Bruce Lee, ou melhor, Philip Ng.
Em suma, das testemunhas da luta por parte de Bruce Lee, somente Linda Lee ainda está viva. E ainda há depoimentos em que afirmam, que ela teria se retirado para uma outra sala por estar grávida de 7 a 8 meses de Brandon e que, por temer passar mal, preferiu não assistir a luta. A outra testemunha de Bruce foi o fiel escudeiro, James Yimm Lee, que faleceu de câncer nos pulmões em dezembro de 1972. Bruce Lee morreria logo depois, em julho de 1973. Por parte de Wong Jack Man, ainda estão vivos os agora “mestres” de Tai Chi Chuan, David Chin e William Chen, além do “setentão” Wong Jack Man. Ou seja, o placar está de 3 x 1 para a versão de Wong Jack Man. 
Um Wong Jack Man “setentão” e orgulhoso aparece ao lado do ator Philip Ng (que interpretou Bruce Lee) na noite da premiere do filme, em 2017. Após décadas de silêncio e no esquecimento, Wong Jack Man aparece do nada para ajudar na promoção de mais um engodo da indústria do cinema. Ele teria sido o consultor técnico da luta principal do filme que ilustra o famoso combate entre ele e Bruce Lee em 1964. Não se surpreendam se surgirem novas aventuras de Wong Jack Man nas telonas, em breve.


Walk On, Pequeno Dragão!
Mas, doa a quem doer e independentemente das fantasias e mitologia dos filmes mal intencionados, Bruce Lee será para sempre o maior artista marcial que já viveu. Walk On, Pequeno Dragão, pois os heróis nunca morrem!
Espero que tenham aprovado esta “análise”. Até mais!

Vejam também: Bruce Lee e a Verdade sobre a Luta com Wong Jack Man e
Bruce Lee, Krishnamurti e a Fé no Deus da Bíblia

Por Eumário J. Teixeira.