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sábado, 5 de outubro de 2019

BRUCE LEE VS. TROVADOR RAMOS - FATO OU FARSA?


 


Bruce Lee foi considerado o maior Artista Marcial do século XX e atualmente já se aproximando o vigésimo ano do século XXI a maioria dos especialistas de todo o mundo ainda o venera como o maior expoente da arte do combate já surgido na era moderna. Mas mesmo assim, ele nunca foi unanimidade.


Enquanto viveu foram poucos os que atreveram a desafiá-lo para um combate para testá-lo em suas reais capacidades. Alguns destes confrontos foram testemunhados e vieram ao conhecimento do público anos depois de sua morte através de depoimentos das próprias pessoas que presenciaram estas raras disputas.

Nestes registros extremamente raros, Bruce Lee se saiu vencedor em todos, de acordo com os poucos presentes que confirmaram os resultados sempre a favor do Pequeno Dragão. Nada consta na história de Bruce Lee que ele saísse perdedor em algum destes poucos desafios relatados e testemunhados por um pequeno público seleto.

Um dos raros confrontos testemunhados entre Bruce Lee e um desafiante
no set de filmagem de Enter the Dragon em 1973.
Mas, décadas após a sua morte, surpreendentemente surge algumas histórias fantasiosas sobre mestres exóticos e pouco conhecidos que teriam sido desafiados por Bruce Lee (e não ao contrário do que sempre ocorreu) e o teriam derrotado até com certa facilidade. Para a sorte destes mestres falastrões Bruce Lee já não estava mais vivo para rebater suas histórias e o suposto grande número de testemunhas que teriam presenciado tais lutas não apareceram para confirmar ou negar tais confrontos.

O fato é que Bruce Lee até hoje continua ser o cara a ser vencido e se não conseguiram derrotá-lo em vida, o ciúme, o rancor, a inveja, o ódio e o oportunismo é o que ainda move algumas pessoas a insistir na destruição de sua imagem e seu legado através de filmes de qualidade duvidosa, falsas homenagens, ou depoimentos sem nenhuma credibilidade. A verdade que as artes marciais nunca mais foram as mesmas depois do surgimento e desaparecimento do Pequeno Dragão.

Trovador Ramos Sr., fundador do sistema de luta TRACMA
e auto nomeado 14º Dan, Faixa Vermelha.
Uma destas fantasias que mais circulam na internet ultimamente e que já está me incomodando a um tempo é sobre o tal mestre filipino Trovador Ramos. Bem, acho que chegou a hora de desmascarar mais um “grande mestre” do oriente que teria vencido o Rei do Kung Fu.

Mas quem então seria esse tal Trovador Ramos Sr.?

Trovador Ramos Sr.,  ainda jovem, nos anos de 1970.
Surge o Mestre Filipino Desconhecido – O que se sabe sobre Trovador Ramos Sr.? Na internet se acha pouca coisa.  Não se sabe onde e quando precisamente nasceu, a não ser que seria de origem filipina. Em algumas postagens consta que Ramos se iniciou no mundo das artes marciais por volta dos 6 anos de idade, em San Antonio, Zambales, nas Filipinas, onde teria aprendido Boxe, Arnis e Jiu-jitsu. Desde criança teria participado de competições de lutas na região onde vivia, sempre por alguns trocados. Era comum por lá as realizações de lutas tanto para adultos quanto para crianças. Ele só teria encarado seriamente as artes marciais após a Segunda Grande Guerra Mundial, quando teria recebido instruções de um mestre chinês e de outro japonês por volta da década de 1950. Em seguida, teria sido na antiga Base Naval da baía de Subic, em Olangapo, Filipinas, que Trovador Ramos trabalhou como instrutor de Artes Marciais para o Pessoal de Segurança do Comando Subic. Ele teria permanecido por lá por 17 anos ensinando artes marciais e tocando saxofone numa banda, que geralmente se apresentava no Clube dos Oficiais nesta instalação militar dos EUA.

Na sequência, o trabalho o trouxe para Cingapura, onde Trovador Ramos teria desenvolvido o sistema de luta que é conhecido como TRACMA.

O TRACMA foi “fundado” em 1957 com o nome IRCJK, que significa “International Real Combat Judo Karate” (Combate Real de Judo e Karate Internacional). Mais tarde em Cingapura, por volta de 1970, passou a ser chamado de TRACMA, que significa “Trovador Ramos Consolidated Martial Arts” (Artes Marciais Consolidadas de Trovador Ramos).

Trovador Ramos  (primeiro à esquerda) em entrevista.
Segundo relatos, foi em 1970 que Trovador Ramos teria  aceito um desafio público para uma luta em Cingapura, onde teria ficado famoso após vencer o embate. O ocorrido teria chegado ao conhecimento do primeiro-ministro de Cingapura, Lee Kua Yew, que convidou Trovador Ramos para ensinar à sua equipe de segurança seu método de luta. E assim Trovador passou a ser instrutor especial de artes marciais para os seguranças do líder maior de Cingapura. Dizem, que por volta de 1971, a fama de Trovador Ramos chegou à Hong Kong e consequentemente aos ouvidos de Bruce Lee, que já tinha filmado The Big Boss (O Dragão Chinês).

O Encontro entre Bruce Lee e Trovador Ramos Sr. – Segundo depoimento do próprio Trovador Ramos, pouco antes de “O Dragão Chinês” (The Big Boss) começasse a ser exibido com estrondoso sucesso por toda a Ásia, Bruce estava procurando conhecer algum artista marcial de destaque em Cingapura para realizarem uma entrevista e demonstração juntos visando a promoção de seu primeiro filme. Os responsáveis pela divulgação do filme teriam escolhido justamente Trovador Ramos. Mas Bruce desistiu do evento na ocasião por ter surgido outro compromisso mais urgente em Hong Kong. Apesar da desistência de Bruce Lee, a promoção do filme se realizou em Cingapura com Trovador Ramos, que aproveitou a oportunidade para também divulgar seu sistema de luta, agora conhecido como TRACMA. Mas Ramos teria outra oportunidade de conhecer Bruce Lee pessoalmente quando mudou-se para Hong Kong no ano seguinte, onde também trabalhava como músico.

De acordo com as palavras do próprio Trovador Ramos assim aconteceu: “Um amigo em comum com quem eu tinha lutado e derrotado, pavimentou o caminho para o nosso primeiro encontro no Clube Filipino, na Willy Road, em Hong Kong. Esse amigo era Benny Liao (?), um mestre de artes marciais (?), que era conhecido como o ‘Filho mais Rápido de Hong Kong’.”
Os que defendem essa história sustentada por Trovador Ramos, dizem que foi Benny Liao que contou a Bruce Lee sobre um artista marcial de origem filipina de “técnica incomum e única”. Liao também teria recomendado a Bruce Lee para procurar lições de sparring com Trovador Ramos em Cingapura.

Bruce Lee em 1972, ano em que teria ocorrido o suposto encontro com Trovador Ramos.
Trovador Ramos sustenta que finalmente Bruce Lee veio assistir a uma apresentação de sua banda no clube noturno em Hong Kong (no fim de 1972) e logo após sua performance no palco teria se aproximado dele com um inesperado pedido de desculpas por não ter participado da exibição programada para a divulgação de The Big Boss em Cingapura. Ramos teria dito que não havia necessidade de desculpar-se pois compreendia o “status” de Lee e os compromissos de sua agenda concorrida.

A visita de Bruce Lee teria sido uma experiência inesquecível para Trovador Ramos, mas Bruce Lee queria uma outra coisa, desejava lutar com ele. “Ele me pediu para lutar com ele e para qualquer artista marcial a ser chamado por Bruce Lee para lutar, era um desafio que traria muita honra e prestígio”, lembrou Trovador Ramos. No entanto, Trovador Ramos sentiu que não poderia aceitar.

“Tinha certeza e estava confiante das minhas habilidade  como artista ‘multi-marcial’ (?), mas ao mesmo tempo, eu tinha tanto respeito por Bruce Lee, que lutar com ele significaria um desrespeito de minha parte”, lembrou Trovador Ramos.
Foi dito a Trovador Ramos que Bruce Lee frequentemente (?) procurava por desafiantes e escolheria a dedo àqueles que pudessem desafiá-lo. A ele foi dito que teve sorte por ter sido desafiado por Bruce Lee, mas ele recusou o desafio no entanto.

Na noite seguinte, Bruce Lee voltou a procurar Trovador Ramos no clube noturno. Recorda Ramos: “Dizer ‘não’ uma segunda vez também é uma forma de desrespeito a um colega das artes marciais, então eu finalmente aceitei o desafio. Afinal de contas, eu não fui desafiado por nenhum lutador comum, mas sim pelo ‘pelo maior lutador de artes marciais do mundo’”, acrescentou Ramos. Assim, Trovador Ramos entrou num carro onde estavam Bruce Lee e acompanhantes e se dirigiram para o local da luta.


O Duelo em Diamond Hill – Segundo relembra Trovador Ramos, nas primeiras horas da manhã, em uma arena particular de combate improvisada na sede da Golden Harvest Productions, localizada em Diamond Hill, Lee e Ramos ficaram frente a frente com centenas (?) de espectadores privilegiados aguardando o desfecho da luta entre o famoso artista marcial filipino contra o então considerado maior artista marcial do mundo.

A multidão aplaudia e os gritos ensurdeciam, mas ambos os lutadores estavam focados para somente testar a força e as habilidades um do outro. Mas o que se presenciou foi além de força e habilidade, mas de graça, estratégia e imaginação.

Segundo as memórias de Ramos, Bruce Lee foi rápido em suas investidas, mas foi surpreendido  pela tática usada pelo seu adversário filipino. Ramos teria uma imaginação perceptiva (?) e já teria estudado os movimentos de Bruce Lee (?) antes que ele desafiasse o mestre filipino.

Recorda Trovador Ramos: “Ele era rápido, mas eu usei o ritmo e muita imaginação. Antecipei seus movimentos e consegui superá-lo” (?).

Ramos teria vencido o maior lutador de artes marciais de todos os tempos, mas ele é o primeiro hoje a se recusar a chamar esse evento de sua vitória e de derrota de Bruce Lee. Ele justifica: “Foi uma luta de uma vida e nós dois usamos as disciplinas de artes marciais para as quais treinamos.”

Após a luta o que teria sido realmente ganho foi o respeito e admiração comuns de ambos os lados, selando um vínculo longo e duradouro entre Hong Kong e as Filipinas no campo das artes marciais.

O Faixa Vermelha, 14º Dan, fundador do estilo que reunia Karate e Judô para
combate real, Trovador Ramos.
Trovador Ramos Sr., de Fã à Instrutor de Bruce Lee?!? - Não muito depois dessa luta, Bruce pediu a Ramos que lhe ensinasse a disciplina TRACMA (?) e mostrasse a ele como era possível combinar todas as artes marciais em um único ritmo de movimentos de luta harmoniosos (?).
Esse evento de sucesso pavimentou  o caminho para a carreira (?) de Ramos como uma estrela (?) de ação desempenhando papéis coadjuvantes em filmes de artes marciais feito em Hong Kong produzidos pela Golden Harvest Productions, de Raymond Chow.

Trovador Ramos ainda afirma que estava previsto um projeto para um filme a ser filmado na Itália intitulado “O Homem Ritmo e o Dragão” (?) onde ele e Bruce Lee seriam os protagonistas principais. Mas a morte inesperada de Bruce Lee em julho de 1973, impediu que o projeto fosse adiante.

“Eu perdi um amigo, o maior lutador do mundo das artes marciais, e aquele que abriu as portas para outros artistas marciais asiáticos de nossa geração”, disse Ramos.

Seguidores de Trovador Ramos afirmam que Bruce Lee, impressionado com as habilidades marciais de Trovador Ramos, o teria convidado para participar de um de seus filmes, “Enter the Dragon” (Operação Dragão) ou “The Game of Death” (O Jogo da Morte), em que Ramos faria o papel de um lutador vilão que seria morto pelo personagem de Lee no filme. Ramos teria recusado o papel, pois a ideia não combinava com ele (?).

De Artista Marcial à Religioso de uma Seita Cristã – Nos anos de 1980, o ditador da Líbia Mauammar Khadafi teria mandado representantes à Manila, nas Filipinas, para convidar Trovador Ramos a se tornar instrutor de artes marciais de sua guarda pessoal. Ramos recusou o convite milionário sob conselho de um líder da sua igreja. Depois de aposentado como mestre de artes marciais (segundo ele mesmo, Faixa Vermelha de 14º Dan???) e músico, Trovador Ramos Sr. passou a viver de sua pensão com sua esposa e como cidadão permanente em Hong Kong. Ambos são membros ativos da Igreja NI CRISTO (Igreja de Cristo) fundada por um pastor filipino. A seita pseudo cristã tem milhares de seguidores pela Ásia. Ramos, já idoso, chegou a sofrer um enfarto, mas se recuperou e continuou a ensinar artes marciais até deixar definitivamente estas atividades para se dedicar à igreja. Atualmente ele está bastante debilitado numa cadeira de rodas, mas não se sabe exatamente sua idade, apesar de certamente estar próximo dos 80 anos. Mas a velhice não o impede de contar e imaginar histórias bastante criativas, ele ainda pretende escrever um livro sobre sua vida.

Trovador Ramos Sr., idoso e já aposentado relembrando em entrevista o
suposto duelo com Bruce Lee.
Uma Análise Crítica e Ponderada sobre a História contada por Trovador Ramos Sr. – Não há provas concretas, registros fotográficos, filmagens ou mesmo testemunhos críveis que comprovem ter ocorrido a luta entre Bruce Lee e Trovador Ramos. Das centenas de pessoas que supostamente testemunharam o suposto evento, nenhuma se manifestou até agora, 48 anos depois, para confirmar a luta ou o possível resultado da disputa. A única pessoa que confirma o ocorrido é o próprio Trovador Ramos, principal interessado. Bruce Lee está morto desde de 1973, e não consta nenhum comentário ou citação de sua parte sobre o confronto até a data de seu falecimento. Mesmo estando atualmente idoso, doente e fazendo parte de uma seita cristã, não é suficiente para que Trovador Ramos Sr. tenha alguma credibilidade em relação à suposta luta.

Vamos analisar alguns pontos:

- Primeiro:
Bruce Lee nunca teve o hábito de sair por aí procurando adversários capacitados para medir suas habilidades ou de desafiar abertamente algum “lutador rival”. Mas o contrário ocorreu várias vezes, principalmente na última fase de sua vida (1971 – 1973), após seu retorno à Hong Kong para realizar os filmes que lhe trouxeram fama internacional. Ele sim é quem era constantemente provocado e desafiado por lutadores anônimos e inexpressivos em lugares públicos e nos sets de filmagens. Nas raríssimas vezes em que Bruce Lee aceitou algum desafio (dos muitos que ocorreram) foi em algum lugar privativo com poucas testemunhas. Bruce saiu vitorioso em todos os confrontos.

Em menos de 1 ano, Bruce Lee se tornaria mega-star na Ásia
com o lançamento de seus primeiros dois filmes, The Big Boss e Fists of Fury.
De acordo com a história de Trovador Ramos, a luta ocorreu em uma arena de combate em Diamond Hill com centenas de pessoas assistindo, como se fosse um espetáculo programado, e Bruce Lee é que teria desafiado Ramos. Mas não consta nenhum testemunho ou relato em todas as biografias sérias de Bruce Lee em que é citado tal episódio ou que observe Bruce Lee desafiando alguém publicamente e com tantas pessoas assistindo. O fato é que Bruce Lee sempre evitou humilhar alguém que o desafiasse, não era seu modo de agir. No ano em que teria ocorrido a tal luta imaginada por Ramos, por volta de 1972, Bruce já havia filmado The Big Boss e Fists of Fury e já tinha uma fama crescente por toda a Ásia, assim não seria de forma alguma interessante para ele por sua reputação em risco num combate contra um desconhecido que seria assistido por centenas de testemunhas, por mera vaidade.


- Segundo:
Nunca se soube de uma única testemunha, das centenas que teriam assistido tal combate, que  relatasse à mídia o ocorrido naquela madrugada em Diamond Hill. Seria uma enorme tentação, não é mesmo? Já faz mais de 40 anos e ninguém apareceu para confirmar tal luta, a não ser Trovador Ramos Sr., que somente divulgou sua versão recentemente, depois de aposentado, doente, passando por dificuldades e idoso.
Ramos chegou a afirmar no passado que teria conhecido Bruce Lee em Hong Kong em meados de 1970, mas nunca tinha mencionado que teria lutado com ele e o derrotado.

A foto original (à esquerda) do encontro entre Bruce Lee e Trovador Ramos Sr., em 1972.
O clima parece bastante amistoso e descontraído entre Bruce e Betty (principalmente).
As imagens coloridas à direita são partes das fotos originais parcialmente divulgadas na internet. 

A foto registra um jantar onde estão reunidos na mesa Betty Ting-Pei, Bruce Lee,
Unicorn Chan, Trovador Ramos e dois desconhecidos, num restaurante em 1972.
É o único registro oficial do encontro entre Bruce Lee e Trovador Ramos.


Foto raríssima do registro do encontro entre Bruce Lee e Trovador Ramos Sr., em 1972.
Essa cópia parcial e colorida foi tirada provavelmente no clube de Hong Kong
onde Trovador Ramos se apresentava com sua banda.
De fato, há apenas uma fotografia raríssima e de péssima qualidade em que se vê reunidos, provavelmente num clube ou restaurante não identificado, Bruce Lee, seu amigo Unicorn Chan, Betty Ting-Pei, um sorridente Trovador Ramos Sr. e outra pessoa desconhecida. A foto deve ter sido tirada por volta do segundo semestre de 1972, por ocasião das filmagens de The Way of the Dragon (O Voo do Dragão), já que foi neste período que Bruce Lee foi apresentado à atriz Betty Ting-Pei, que se tornaria sua amante.

- Terceiro:
Parece ser bastante fantasioso por parte de Trovador Ramos afirmar que derrotou Bruce Lee guiado pelas batidas de sua música. Ramos disse que usou o ritmo e muita imaginação, antecipando os movimentos de Bruce Lee e assim conseguindo superá-lo. Ainda afirma que já tinha estudado seus movimentos muito antes do desafio. Como assim? Ele se baseou apenas nos filmes The Big Boss (1971) e Fists of Fury (1972)?
Ora, todo estudioso de Bruce Lee sabe que o que Lee demonstrava em seus filmes eram apenas técnicas plasticamente atrativas para as telas de cinema. Em combate real ele usaria táticas mais efetivas e diretas. A meu ver todos esses pseudo mestres que sutilmente questionavam a capacidade real de luta de Bruce Lee só enxergavam ou queriam superar o que viam nas telas, desconhecendo totalmente o que Bruce Lee poderia realizar em pleno combate sem regras.



Registros de Bruce Lee em treinamento.

Bruce Lee amaciando o saco de areia.

Bruce Lee praticando sparring com Ted Wong nos EUA, em 1968.

Temos disponíveis na internet inúmeros vídeos de Bruce Lee em demonstrações, treinamento e sparring com amigos e alunos, socando e chutando sacos de areia com velocidade e potência. Em contrapartida não se tem um único vídeo demonstrando alguma exibição real da capacidade de Trovador Ramos.

Demonstração do "soco de uma polegada" em Long Beach, 1967.

Bruce Lee no Torneio Internacional de Karate de Long Beach, 1967.


Bruce Lee instruindo no Jun Fan Gung Fu Institute no final dos anos de 1960.

Bruce Lee lecionando no Jun Fan Gung Fu Institute de Los Angeles.
Como não duvidar de um suposto mestre que não tem registro algum de seus feitos, a não ser da boca de seus seguidores, que creem realmente que ele teria derrotado Bruce Lee?

- Quarto:
Não podemos duvidar que Trovador Ramos Sr. existe, sim ele é real, mas por incrível que pareça, na era da internet nada consta sobre sua origem, carreira e trajetória que atestem sua história. A maioria dos resultados mostrados quando se busca algo sobre sua biografia é somente sobre sua suposta luta com Bruce Lee.
Alguns sites de procedência duvidosa ainda afirmam que o grande mestre filipino criador do sistema TRACMA recusou o convite de Bruce Lee para filmar Enter The Dragon (Operação Dragão - 1973), porque seu personagem seria derrotado por Lee no filme e ele não aceitaria perder uma luta, mesmo na ficção.
Ora, para quem não sabe, Trovador Ramos perdeu uma grande oportunidade de ficar famoso participando dos filmes de Bruce Lee (se é que ele foi mesmo convidado), como aconteceu com diversos lutadores profissionais e dublês que tiveram suas carreiras cinematográficas alavancadas como Chuck Norris, Bob Wall, Ji Han Jae, Whang (Wong) In Sik, Kareen Abdul Jabbar, John Saxon, Angela Mao, Jackie Chan, Yuen Wah, Sammo Hung e Yang Sze (Bolo Yeung).

Cartazes dos filmes em que Trovador Ramos participou apenas como coadjuvante.
A ironia é que após a morte de Bruce Lee, o mesmo Trovador Ramos que recusou o convite para participar dos filmes do Pequeno Dragão, atuou em pelo menos em cinco filmes sofríveis de artes marciais apenas como coadjuvante, interpretando lutadores a serviço dos vilões que sempre eram derrotados e mortos no final pelos heróis representados por atores/lutadores inexpressivos, salvo Angela Mao, atriz e lutadora de Hapkido, que já tinha participado de Enter the Dragon e outros filmes razoáveis. Os filmes em que se vê o mestre Trovador Ramos sempre como um dos capangas do vilão, são “A Tooth for a Tooth” (1973); “The Opium Trail/Deadly China Doll (1973, com Angela Mao); “Kung Fu King (1973); “Martial Arts” (1974) e “Gambling for Head” (1975). Em todos estes, as lutas em que Trovador Ramos participa como um lutador bandido, não vi nada de excepcional, aliás em algumas ele parece estar um pouco acima do peso, muito longe daquela condição atlética que Bruce Lee sempre exibiu em seus filmes. Suas performances foram apenas razoáveis e não percebi nenhuma técnica ímpar ou o emprego do “ritmo de sua música” nas suas atuações nas telas.

Trovador Ramos em dos filmes em que participou como um mero bandido a ser derrotado.
Notem que ele está um pouco além do peso ideal para um lutador vencedor.
Lembram-se daquela célebre luta entre Bruce Lee e Chuck Norris em The Way of the Dragon? Chuck Norris inúmeras vezes campeão de Karate profissional nos Estados Unidos contra Bruce Lee que não tinha nenhum título ou medalha em competições oficiais. Quem parecia ser o mestre campeão ao julgar pela performance de ambos no filme? Quem demonstrou ter mais domínio de seu corpo, velocidade estonteante, técnica ímpar e criativa, explosão e ritmo desconcertante na sua atuação? Precisa responder?

Bruce Lee vs. Chuck Norris em The Way of the Dragon ,  a superioridade
técnica e física de Bruce Lee era evidente.

- Quinto:
O único lutador de origem filipina que introduziu Bruce Lee às artes marciais de seu país de origem foi Dan Inosanto. Foi Inosanto foi quem ensinou Bruce Lee os fundamentos do manejo do nunchaku, bastões duplos curtos e ainda lhe repassou técnicas do Pencak Silat (Indonésia), Eskrima e Arnis ou Kali (Filipinos). Mas mesmo assim, Inosanto não era ainda considerado mestre destas distintas artes marciais. Em meados dos anos de 1960 quando conheceu Bruce Lee no Torneio de Karate Internacional de Long Beach, Inosanto era um lutador de Shorinji Kempo que buscava novidades para se desenvolver com artista marcial. Hoje, Inosanto é considerado “mestre” pelo seu conhecimento diverso das mais variadas artes marciais, incluindo o Jeet Kune Do, criado por Lee. Inosanto buscou se aprofundar ainda mais nas artes marciais filipinas após a morte do Pequeno Dragão.

O único filipino que deu instruções à Bruce Lee, seu amigo e
parceiro, Dan Inosanto.
Bruce Lee enfrenta Dan Inosanto em The Game of Death
no espetacular duelo de nunchaku.

Dan Inosanto, é reconhecido atualmente
como um mestre das artes marciais genuinamente filipinas.

Já estamos cansados de ver milhares de fotos de Inosanto com Bruce Lee antes e depois da fama do Pequeno Dragão, seja em treinamento nas academias nas quais ensinavam Jun Fan Gung Fu nos EUA, ou em filmes como “The Game of Death“ (1972/1978).
Bruce Lee que havia desenvolvido o Jeet Kune Do por volta de 1967/1968 se baseando principalmente nas técnicas efetivas do Boxe ocidental, Wing Chun Kung Fu e Esgrima ocidental, adicionando ainda elementos de Eskrima, Savate, Wrestler, Judô, Hapkidô, Taekwondo e alguns estilos de Kung Fu do Norte, precisaria das instruções regulares de um mestre filipino que tinha como base no seu sistema apenas Karate, Judô e o ritmo de sua música?
Entretanto, você já achou alguma foto de Bruce Lee com Trovador Ramos em algum centro de treinamento, set de filmagens ou em alguma outra situação, a não ser aquela do restaurante exibida neste post?

Benny Liao, o suposto amigo em comum de Bruce Lee e Trovador Ramos,
um personagem que certamente nunca existiu...

- Sexto:
Para finalizar o estudo, lamento informar aos seguidores de Trovador Ramos, que não há nenhuma informação disponível sobre o amigo em comum de Bruce Lee e Trovador Ramos, o suposto artista marcial de Hong Kong chamado Benny Liao.
Ramos afirmou que teria sido apresentado a Bruce Lee pelo misterioso Benny Liao.
Já foram feitas pesquisas no banco de dados em Hong Kong e não foi encontrada nenhuma pessoa conhecida como Benny Liao, o tal artista marcial tão conhecido e popular de Hong Kong parece nunca ter existido.

Sifu Bruce Lee, o grande Mestre das Artes Marciais.
Espero que esta postagem possa ajudar a acabar com mais uma polêmica que envolve o nome do maior artista marcial de todos os tempos, o Pequeno Dragão e Rei do Kung Fu, Bruce Lee; até hoje insubstituível e, por isso, tão combatido e contestado por alguns poucos que ainda teimam em denegrir sua imagem ou tirar proveito de sua fama e trajetória vencedora.

Por Eumário J. Teixeira.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

BRUCE LEE NO FILME DE TARANTINO - UM INSULTO À MEMÓRIA DO PEQUENO DRAGÃO



A polêmica em torno da caracterização de Bruce Lee pelo ator Mike Moh sob a direção do controvertido diretor Quentin Tarantino no filme “Era Uma Vez em Hollywood”, persiste. E a meu ver por muitas razões. Quentin Tarantino, na verdade, cutucou a onça ou um vespeiro (como queiram) com vara curta. Ele descobriu da pior maneira que o culto à Bruce Lee ainda está bem forte, mesmo após 46 anos de sua morte completados em julho deste ano de 2019. Os admiradores e verdadeiros fãs de Bruce Lee conhecem à fundo a personalidade e o forte caráter do Pequeno Dragão e, portanto, não aceitariam de forma nenhuma quaisquer deboches em relação ao maior ídolo das artes marciais de todos os tempos. Aliás, depois desta estrondosa gafe de Quentin Tarantino, tornou-se claro, ao contrário do que ele sempre posicionou, que o mesmo nunca foi de fato fã ou admirador de Bruce Lee.

Cartaz do filme "Era uma Vez em Hollywood" do polêmico diretor
Quentin Tarantino.
Um verdadeiro fã não iria tentar desconstruir uma imagem de seu ídolo que foi perpetuada por quase 50 anos, através de suas incríveis performances desde suas demonstrações nos torneios Internacionais de Karate de Long Beach, na Califórnia, em 1964 e 1967; passando por sua marcante representação de Kato, na série O Besouro Verde (The Green Hornet, 1967); até seu quarto e último filme Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973) e o incompleto O Jogo da Morte (The Game of  Death, 1972); citando ainda a produção de inúmeros documentários sobre sua obra; publicações de livros biográficos e sobre seu conceito de arte marcial, denominado Jeet Kune Do; depoimentos de seus amigos e parceiros, alunos, familiares e lutadores respeitados dos mais diversos estilos de artes marciais, além de atores renomados e dublês lendários de Hollywood dos anos de 1960/70,  tudo isso seria detonado, intencionalmente ou não, nas curtíssimas cenas de ação mal intencionadas e caricaturais dirigidas por Quentin Tarantino, se não fosse pela reação em massa dos fãs de Bruce Lee espalhados por todo o mundo.

O filme "A Origem do Dragão", de 2017, foi a primeira tentativa
sutil de Hollywood para denegrir o mito Bruce Lee.
Me parece que Tarantino aderiu à onda política da atual Hollywood que é desmistificar e destruir os grandes personagens heroicos do cinema, e principalmente os que transmitiam a imagem do “mocinho” másculo, destemido e justiceiro que inspiravam os garotos e faziam as meninas suspirarem nas poltronas. Quem se esqueceu da versão arrogante e imatura de Bruce Lee no filme "A Origem do Dragão" (The Birth of the Dragon - 2017) contra o sábio monge budista, Wong Jack Man, que ainda contrariou fatos históricos comprovados? Foi a primeira tentativa de Hollywood denegrir a imagem do Pequeno Dragão em favor de um desafiante derrotado. Atualmente, todo cuidado é pouco para não machucar os sentimentos de uma geração mi mi mi, sensível ou “politicamente correta” contemporânea que é adulada com "anti-heróis" adaptados aos novos tempos. Ainda pior, é crer que Tarantino quis trazer à tona algo que já estava nas profundezas do esquecimento, o preconceito racial e barreiras impostas principalmente contra os atores de origem asiática em Hollywood.
Mas a discussão está apenas girando em torno do resultado da luta apresentada no filme entre o jovem ator e artista marcial, Bruce Lee (Mike Moh) e o veterano dublê, Cliff Both (Brad Pitt); o que foge do foco da questão, pois a luta em si poderia terminar em empate ou em vitória de um ou de outro numa disputa apertada e equilibrada, sem problemas, já que se tratava de um jovem Bruce Lee, de apenas 27 anos, chegando à maturidade e que ainda não tinha revisto e reformulado seus conceitos para criar o seu próprio estilo, o Jun Fan Gung Fu, que mais tarde se tornaria o Jeet Kune Do.
Lee enfrentaria um dublê durão, experiente e bom de briga, ex-fuzileiro e quarentão. O problema, na verdade, foi como Bruce Lee foi representado nas telas na depreciativa visão de Tarantino.

No filme de Tarantino, Bruce Lee (Mike Moh) fala sem parar sobre suas
mãos registradas como armas letais e que poderia aleijar o campeão Muhammad Ali...

O dublê veterano Cliff Both (Brad Pitt) toma as dores e resolve desmascarar
o falastrão Bruce Lee (Mike Moh) em três tentativas...

Humilhado pelo dublê (Brad Pitt) que o vence com certa facilidade ao atirá-lo
contra o carro, Bruce Lee (Mike Moh) insiste sem sucesso até serem interrompidos...
Tarantino exibiu um Bruce Lee arrogante, falastrão e que mal poderia sustentar o que prometia fazer, ou seja, uma farsa. Na versão de Tarantino, Bruce Lee (Mike Moh) chegou ao ponto de dizer que ele poderia derrotar e aleijar a lenda dos pesos pesados, Muhammad Ali, o que deixou o dublê Cliff Both (Brad Pitt) incomodado com tamanha arrogância.

Bruce Lee, o verdadeiro, fazendo sparring com o dublê (real) de
Van Williams (astro de O Besouro Verde), Bennie Dobbins, em 1970.

Bruce Lee treina o chute lateral voador contra o dublê Bennie Dobbins, em 1970.
Tarantino que se dizia fã do Pequeno Dragão se mostrou ignorante neste ponto, já que é sabido pelos estudiosos de Bruce Lee que o mesmo admirava Muhammad Ali e sua movimentação elegante nos ringues e se percebia visivelmente que Lee se movimentava (ou dançava nas pontas dos pés) em seus filmes imitando Ali. Bruce chegou ao ponto de assistir um documentário com  cenas das lutas de Ali em imagem invertida através de um espelho para estudar e adaptar a as técnicas do famoso boxeador ao Jeet Kune Do, já que na posição de luta no seu sistema (JKD), o punho direito ficava à frente para interceptar com um soco direto ao contrário do boxe tradicional, que lançava o punho esquerdo à frente para jabear e fintar para então lançar a direita para nocautear. Detalhes que um verdadeiro fã deveria conhecer.

Bruce Lee vs. Muhammad Ali, a luta poderia ter acontecido?

Bruce Lee, na verdade, venerava o jogo de pernas e a técnica de boxear de Ali.
Talvez desejasse que o campeão dos pesos pesados algum dia participasse de um de seus filmes.
Infelizmente, Lee faleceu antes que o encontro dos dois mitos se tornasse realidade.
Bruce planejava se encontrar com Muhammad Ali, seu grande sonho, quando fosse promover Operação Dragão (Enter the Dragon – 1973) nos EUA, depois de uma entrevista agendada com Johnny Carson no The Tonight Show na TV, para quem sabe treinarem juntos e trocarem ideias e experiências. Ele e Ali tinham muitos amigos em comum, dentre os quais, o mestre de Taekwondo Jhoon Rhee e o karateca Jim Kelly (Williams, em Operação Dragão). 
Quando soube da morte de Bruce Lee em julho de 1973, Ali teria comentado respeitosamente: "Morreu o único homem capaz de me vencer." 
Em contrapartida, Bruce Lee teria respondido anteriormente quando lhe perguntaram sobre qual estratégia usaria para vencer Muhammad Ali, e ele ironizando, disse: "Todos dizem que devo lutar com Ali algum dia, mas compare o tamanho das mãos dele com as minhas mãos chinesas tão pequenas. Ele me mataria...". Bruce sabia do seu potencial extraordinário ainda que tivesse apenas 1,68m e 58-62kg, mas tinha consciência que teria poucas chances com o habilidoso e poderoso boxeador  de 1,91m e 107 kg.
As reações negativas e condenações vieram em resposta à essa caricaturização de Bruce Lee em Era uma Vez em Hollywood. Inicialmente, se pronunciou em desapontamento, a filha de Bruce, Shannon Lee e sua mãe, viúva de Lee, Linda Lee Cadwell. A seguir se pronunciaram Danny Inosanto, o mestre das armas brancas e do combate de origem filipina, amigo e parceiro de Bruce Lee de muitas jornadas; também estudiosos de Bruce Lee como o escritor Mathew Polly; o aluno e amigo de Lee, o ex-campeão de basquete dos Lakers, o lendário Kareen Abdul Jabbar; sem contar os fãs e blogueiros de todo o planeta revoltados com o desrespeito a insensibilidade de Quentin Tarantino, que ofendeu a memória do Pequeno Dragão e desrespeitou a família Lee.

Bruce Lee segurando Brandon e Shannon, em dezembro de 1969.

O que disseram os que entraram na polêmica ? Vamos começar então pela família Lee:

Shannon Lee ficou incomodada com o público no cinema rindo de seu pai na
representação feita por Mike Moh sob a direção de Tarantino.
Shannon Lee – A filha de Bruce Lee fez duras críticas em relação à representação de seu pai no filme de Tarantino. Ela sentiu que houve zombaria por parte de Tarantino e que o resultado a deixou decepcionada. Shannon disse não ter gostado de ver o pai ser representado como arrogante e falastrão. Ela lembrou que na década de 1960, o mercado do cinema norte-americano  para atores asiáticos era difícil, o que não foi demonstrado no filme de Tarantino. Bruce perdeu alguns papéis para atores brancos (que se passaram por asiáticos) que poderiam ser perfeitamente para ele, apenas pelo fato dele ser de origem oriental. David Carradine é um exemplo, ele fez a série de TV Kung Fu (The Warrior, título original) e o filme A Flauta Silenciosa (The Silent Flute), ambos projetos de Bruce Lee. Ela disse poder entender o período retratado de racismo e exclusão e que os personagens seriam anti-heróis e que até aceitaria a possibilidade do personagem de Brad Pitt (Cliff Both) vencesse Bruce Lee, mas não precisavam tratá-lo no filme da mesma forma com que certamente alguns brancos de Hollywood o fizeram em vida. Talvez Tarantino tentasse mostrar como Bruce era visto, mas não funcionou, disse Shannon. Ele aparece como um saco de pancadas egoísta e arrogante que fala sobre coisas que desconhece. Nada a ver com aquele que teve que lutar três vezes mais que os outros (brancos) para conquistar o espaço que os demais conseguiram com naturalidade. Decepcionada, Shannon ainda diz que foi muito desconfortável presenciar as pessoas rindo do seu pai na sala do cinema.

Shannon Lee diante dos túmulos de seu pai e irmão (Brandon Lee)
no cemitério Lake View, de Seattle.
Diz ainda Shannon Lee: “O diretor parece ter se empenhado para tirar sarro do meu pai e para retratá-lo como um palhaço.”
Em resposta aos comentários de Tarantino, que bateu o pé e afirmou que Bruce era mesmo daquela forma arrogante retratada em seu filme, Shannon disse que “Ele poderia calar a boca sobre isso. Isso seria muito bom. Ou ele (Tarantino) poderia pedir desculpas ou poderia dizer: ‘Eu realmente não sei como Bruce Lee era. Eu acabei de escrever para o meu filme. Mas isso não deve ser considerado como ele realmente era.’"
Shannon considerou que a confiança de seu pai pode ter sido confundida com arrogância e nunca o julgou um “homem perfeito”. Shannon frisa que esse tipo de crítica recorrida por Tarantino dirigida a seu pai, ela já teria ouvido de outros artistas marciais brancos de Hollywood. Ela reconhece que é apenas um filme de ficção e que Tarantino poderia retratar Bruce Lee do jeito que quisesse, mas não seria honesto afirmar que seu pai era assim.
Shannon ainda lembra: “Ele foi continuamente marginalizado e tratado como um incômodo na Hollywood branca, da mesma forma que foi mostrado no filme de Tarantino. Espero que as pessoas aproveitem a oportunidade para descobrir mais sobre Bruce Lee, porque há muito mais para descobrir e muito mais para se entusiasmar. O que o filme retratou definitivamente não era ele.”

Bruce Lee com sua filha Shannon, em Hong Kong, 1972.
Shannon confirma o que sempre foi dito pelos estudiosos de Bruce Lee, que por ser de origem asiática e ter um sotaque oriental, sofreu discriminação por uma grande parte da Hollywood dominantemente branca, poucos reconheciam o seu enorme potencial e talento ilimitado e na maioria das vezes barravam seus projetos e iniciativas. Mas no final, ele se impôs com a ajuda de alguns amigos e profissionais, atores, produtores, diretores e roteiristas que reconheciam o seu talento, como Jay Sebring, James Coburn, Steve McQueen, Stirling Shilliphant e Fred Weintraub.

Linda Lee Cadwell, decepcionou-se com a versão de seu ex-marido concedida por Tarantino.
Linda Lee Cadwell – De acordo com Shannon Lee, sua mãe lhe disse que achou a representação “horrível”. E ainda disse: “Eu pensei que o personagem era como uma caricatura de si mesmo, fazendo-se parecer estúpido, bobo e de uma forma insultuosa e forçosamente ‘chinesa’. Isso se afastou tanto da verdade de quem ele era e de qualquer disputa real que ele tivesse... Foi terrível de assistir.”

Linda e Bruce Lee, nos bons e maus tempos da ensolarada Califórnia, no final dos anos de 1960.
Linda que conhecia os princípios do Wing Chun Kung Fu e acompanhou a transição do Jun Fan Gung Fu para o Jeet Kune Do, certamente achou ridícula a abordagem que deram para luta entre Lee e o Both. Bruce Lee na realidade nunca atacaria um dublê durão e experiente de uma forma tão displicente e ingênua. Mas como já mencionei, Tarantino desconhecia Bruce Lee e o Jeet Kune Do, ele se baseou apenas no que viu na TV, principalmente nas atuações de Lee como Kato em O Besouro Verde (1967), o que estava longe do ele pregava para uma luta real.

Danny Inosanto, amigo e parceiro de Bruce Lee partiu em defesa de seu protetor
contra a versão desonesta de Tarantino.
Danny Inosanto – O parceiro e amigo de Bruce Lee, agora com 83 anos, também rejeitou a ideia de que Bruce Lee teria se gabado em algum momento do passado que poderia derrotar o campeão dos pesos-pesados, Muhammad Ali. Pelo contrário, Inosanto afirma que Bruce Lee era um grande admirador de Muhammad Ali. E lembra que ele era companheiro, atencioso e humilde com os colaboradores em seus filmes.
Diz Inosanto: “Bruce nunca teria dito nada depreciativo sobre Muhammad Ali porque adorava o caminho que Muhammad Ali percorria. Na verdade, ele (Bruce) gostava mais de boxe do que de artes marciais.”

Danny Inosanto ao lado de Bruce Lee, em 1972. O mestre das artes filipinas
 de combate está atualmente com 83 anos.
Inosanto recorda que Bruce reverenciava Ali e outros tantos pugilistas, e o viu muitas vezes dizendo a seus alunos para buscar a agilidade e fluidez dos movimentos dos pés de Ali.
Inosanto não se lembra de ter presenciado Lee num set de trabalho se exaltando ou provocando situações para se exibir.
E complementa: “Ele nunca, foi, na minha opinião, arrogante. Talvez ele tivesse confiança em si mesmo em se tratando de seu conhecimento de artes marciais. E ele estava à frente de todos outros. Mas em um set ele nunca iria se mostrar, e é muito duvidoso que um dublê tenha conseguido se dar bem contra ele daquela forma.”

Bruce Lee e Danny Inosanto no set de O Jogo da Morte, em 1972.
Inosanto finaliza recordando que recebeu uma enxurrada de cartas de fãs de todo o mundo após a morte de Lee e complementa: “Bruce Lee abriu o caminho para os americanos de origem asiática. Entrar como um asiático (em Hollywood) foi muito, muito difícil na época. Ele também abriu o caminho para todas as estrelas de filmes de ação. 
Inosanto tem razão, se não fosse por Bruce Lee, quem haveria falar de Jackie Chan, Sammo Hung, Jet Li, Donnie Yen, Tony Jaa, entre os asiáticos que "conquistaram" Hollywood; sem esquecer dos então desconhecidos até o surgimento de Bruce Lee como Jim Kelly, Bob Wall, Chuck Norris, Jean Claude Van Damme, Steven Seagal, etc., que também pegaram carona na sua fama.

Kareen Abdul Jabbar, multi campeão dos Lakers, aluno de Bruce Lee
interviu na polêmica: "Bruce Lee era meu amigo!"
Kareen Abdul Jabbar – O amigo e aluno de Bruce Lee, ex-jogador campeão do time de basquete Lakers, hoje colunista da NBA, afirma que Tarantino foi desleixado, racista e se esquivou da responsabilidade com a verdade ao retratar seu saudoso parceiro daquela forma. Jabbar observa brilhantemente que, apesar do que está no filme seja ficção, essas cenas viverão em nossa consciência cultural compartilhada como impressões de pessoas reais, corrompendo assim a memória que temos delas, cobrindo suas ações na vida real. Jabbar ressalta que é por isso que os cineastas têm a responsabilidade de interpretar as impressões de pessoas históricas admiradas para manter uma verdade básica sobre o conteúdo de seu personagem. O retrato de Bruce Lee no filme, não corresponde a esse padrão.  Kareen Abdul Jabbar se considera decepcionado, já que Tarantino era um dos seus cineastas preferidos. Ele lembra que: “Bruce Lee era meu amigo e professor. Eu conheci Bruce quando era estudante na UCLA, e procurava continuar meus estudos de artes marciais que comecei em Nova York. Nós rapidamente desenvolvemos uma amizade, bem como uma relação aluno-professor. Ele me ensinou a disciplina e a espiritualidade das artes marciais, o que foi muito responsável por eu poder jogar competitivamente na NBA por 20 anos, com poucas lesões.”

Kareen Abdul Jabbar e Bruce Lee no set de O Jogo da Morte, em 1972.
Aluno e professor, mas acima de tudo, bons amigos.
Continua Jabbar: “Durante nossos anos de amizade, ele falou apaixonadamente sobre como estava frustrado com a representação  estereotipada dos asiáticos no cinema e na TV. Os únicos papéis disponíveis eram para vilões. A atitude machista "a la John Wayne” tomada por Cliff Both (Brad Pitt) derrotando o “arrogante chinês”, remete aos próprios estereótipos que Bruce estava tentando desmantelar. E não haveria nada de mais num loiro americano poder bater num canastrão asiático que voou para cá.”

Kareen Abdul Jabbar e Bruce Lee, no set de O Jogo da Morte, em 1972.
Finaliza, Jabbar: “Eu estive pessoalmente com Bruce em várias vezes quando algum idiota aleatório o desafiava publicamente para uma briga. Ele sempre recusou educadamente e seguiu em frente. A primeira regra nos ensinos de Bruce era não lutar, a menos que não tivesse outra opção. Ele sabia que a luta real não estava no tatame ou nos ringues, estava na tela ao criar oportunidade para os asiáticos serem vistos além daqueles estereótipos sorridentes. Infelizmente, Era uma Vez em Hollywood,  prefere voltar aos bons e velhos (mas obscuros) caminhos.”

Matthew Polly, escritor, também contestou a versão arrogante de Bruce Lee
dada por Tarantino em seu último filme.
Matthew Polly – O autor do livro “Bruce Lee: A Life”, concordou com as críticas de Shannon Lee. E ainda observou que Tarantino foi simpático para retratar o ator Steve McQueen (aluno de Bruce Lee), o cabeleireiro Jay Sebring (outro aluno de Bruce Lee) e a atriz Sharon Tate, mas não teve o mesmo cuidado e carinho com Bruce Lee, o único não branco do filme. Polly disse  que Tarantino poderia ter causado o mesmo efeito sem aquela zombaria.

Livro de Matthew Polly, um dos muitos experts em Bruce Lee.

Polly afirma que Bruce Lee “venerou” Muhammad Ali. Assim, a parte no filme em que o personagem  de Lee diz que suas mãos foram registradas como armas letais e que  “ele” aleijaria o boxeador e o personagem de Brad Pitt vem em defesa de Ali, não é apenas completamente imprecisa, mas também transforma Bruce Lee num desabonador desrespeitoso e idiota. E ainda observa que Bruce era famoso por ser muito atencioso  com as pessoas abaixo dele em sets de filmagem, particularmente os dublês.  No filme de Tarantino, Bruce Lee (Mike Moh) acaba por provocar a demissão do dublê  Cliff Both (Brad Pitt) porque ele, o grande astro, foi ridicularizado. Isso não condiz como Bruce Lee era realmente como pessoa.
Polly lembra que ainda em 1967, durante a produção dos episódios da série o Besouro Verde, Bruce vivia uma insegurança na vida profissional como ator e instrutor de artes marciais. A série foi cancelada no mesmo ano em que o personagem Kato fazia enorme sucesso e Bruce teria pensado em abrir uma rede de academias (Kato Karate Schools) aproveitando a popularidade do seu personagem, mas desistiu por achar que iria trair a filosofia do Jeet Kune Do. Com a série The Green Hornet cancelada, ele “se virou” dando aulas particulares à celebridades cobrando alto cachês e fazendo pontas em séries em séries de TV e filmes, como Marlowe (1968). Alguns de seus famosos alunos eram James Coburn, Steve McQueen, Stirling Shilliphant e Roman Polanski. Seus projetos pessoais como “The Warrior” (Kung Fu) e “The Silent Flute” foram rejeitados por Hollywood. Em 1970, para piorar, ele sofreu a terrível lesão nas costas que teria deixado qualquer atleta derrotado, mas ele era Bruce Lee e se recuperou em apenas 6 meses. Sua única opção então era voltar para Hong Kong e tentar a sorte nos filmes de artes marciais, já que Kato ainda fazia sucesso por lá.
Bruce realizando apenas 3 filmes, de 1971 a 1972, fez um sucesso estrondoso na Ásia batendo todos os recordes de bilheteria e Hollywood rendeu-se finalmente ao seu talento e coproduziu Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973) , o resto é história.

Brad Pitt, encarnou o fictício dublê decadente e quarentão que vence Bruce Lee.
Brad Pitt – Segundo consta em depoimento do ator, era para Bruce Lee ter perdido a luta contra o dublê Cliff Both, na versão original de Tarantino. “O quê?!? Mas Bruce Lee é o cara!”, exclamou Brad Pitt ao ler surpreso a versão surpreendente do diretor. Mas ele (Pitt) e Mike Moh interviram e pediram para terminar em empate, daquela forma que todos já sabem. Com Bruce Lee (Moh) sendo arremessado ao carro como um menino pelo dublê veterano, que pouco se incomodou com suas investidas mal sucedidas.

Mike Moh, representou uma caricatura arrogante e lamentável de seu próprio ídolo
sob a direção do malicioso Tarantino.
Mike Moh – Após as críticas de Shannon Lee, o ator escolhido para encarnar Bruce Lee no filme de Tarantino confessou ter se sentido num conflito quando leu o roteiro da cena com Brad Pitt, onde originariamente Bruce Lee perderia a disputa com o dublê veterano. Disse Moh: “Lee é meu herói. Bruce em minha mente era literalmente um deus. Ele não era uma pessoa comum para mim, eu o via como um super-herói. Eu acho que a maioria das pessoas o vê assim.”
Sobre Tarantino e sua visão de Bruce Lee, disse Moh: “É um filme de Tarantino. Ele não vai fazer o que todos esperam que se faça. Você tem que estar preparado para o inesperado. Soube desde o início que Tarantino ama Bruce Lee (será?!?); ele o reverencia (forma estranha de reverência essa...).
E continua: “Eu posso ver como as pessoas podem pensar que Bruce foi vencido por causa do impacto com o carro, mas se lhe dessem mais cinco segundos “Bruce” teria vencido. Então, eu sei que as pessoas vão ficar em pé de guerra sobre isso, mas quando eu mergulhei fundo no estudo de Bruce, percebi que ele mais que ninguém queria que as pessoas soubessem que ele é humano. E acho que o respeito ainda mais sabendo que ele enfrentava esses desafios, esses obstáculos, assim como a maioria das pessoas do mundo. Eu não conheço nenhum ator estrangeiro que não tenha o senso de almejar algo mais e alcançar a grandeza.”      
Ponderando, Mike Moh frisou apenas o resultado da luta. Mas não entrou nos detalhes da personalidade caricatural e arrogante que ele deu à Bruce Lee nas telas, sob a direção do famigerado Tarantino. 

Quentin Tarantino - Tarantino manteve sua posição mesmo após as inúmeras críticas em relação à retratação depreciativa que deu a Bruce Lee em seu filme. Afirmando inclusive que se baseou em depoimentos da própria Linda Lee Cadwell que afirmava que seu ex-marido era realmente arrogante e provocador. A resposta à Tarantino já foi dada. Vejam alguns exemplos da reação dos fãs de Bruce nas redes sociais...



Shut up, Tarantino!!!

Um tipo diferente de serpente...



Comentários finais - Bem, depois de toda essa polêmica, concluí que o diretor Quentin Tarantino nunca foi realmente fã de Bruce Lee pelo simples fato de desconhecer a personalidade e o caráter do Pequeno Dragão e ignorar totalmente a filosofia e conceito do seu estilo de luta ou Jeet Kune Do. Tarantino deveria estar realmente querendo arranhar a imagem de Bruce Lee e desconstruir o mito, talvez por recomendação da cúpula política de Hollywood; e isso se torna evidente, só pelo fato dele não ter consultado a família Lee antes de retratar o rei das artes marciais de uma forma tão desonesta como fez em seu filme. Seria, por parte dele, uma atitude digna, consultar Linda Lee Cadwell e Shannon Lee. 

Tarantino antes de cometer a gafe histórica,  deveria ter consultado os maiores experts
em Jeet Kune Do e Bruce Lee ainda vivos: Danny Inosanto e Taky Kimura.
Caso o polêmico diretor tivesse ao menos consultado os principais alunos de Bruce Lee, agora veteranos e respeitados octogenários, como Danny Inosanto ou Taky Kimura para orientá-lo na direção da luta fictícia com o dublê, poderia ter tido outra aceitação no resultado final. Mas ele não quis saber, ousou e se deu mal! Por isso, todos os fãs de Bruce Lee por todo o planeta clamam em uma só voz: Cale-se Tarantino!!! Shut up, Tarantino!!!

O legado de Bruce Lee permanece inalterado e cada vez mais forte
entre os verdadeiros fãs e admiradores do Pequeno Dragão!

Por Eumário J. Teixeira.