Os Heróis nunca morrem!

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Heroes never die!

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

BRUCE LEE NO FILME DE TARANTINO - UM INSULTO À MEMÓRIA DO PEQUENO DRAGÃO



A polêmica em torno da caracterização de Bruce Lee pelo ator Mike Moh sob a direção do controvertido diretor Quentin Tarantino no filme “Era Uma Vez em Hollywood”, persiste. E a meu ver por muitas razões. Quentin Tarantino, na verdade, cutucou a onça ou um vespeiro (como queiram) com vara curta. Ele descobriu da pior maneira que o culto à Bruce Lee ainda está bem forte, mesmo após 46 anos de sua morte completados em julho deste ano de 2019. Os admiradores e verdadeiros fãs de Bruce Lee conhecem à fundo a personalidade e o forte caráter do Pequeno Dragão e, portanto, não aceitariam de forma nenhuma quaisquer deboches em relação ao maior ídolo das artes marciais de todos os tempos. Aliás, depois desta estrondosa gafe de Quentin Tarantino, tornou-se claro, ao contrário do que ele sempre posicionou, que o mesmo nunca foi de fato fã ou admirador de Bruce Lee.

Cartaz do filme "Era uma Vez em Hollywood" do polêmico diretor
Quentin Tarantino.
Um verdadeiro fã não iria tentar desconstruir uma imagem de seu ídolo que foi perpetuada por quase 50 anos, através de suas incríveis performances desde suas demonstrações nos torneios Internacionais de Karate de Long Beach, na Califórnia, em 1964 e 1967; passando por sua marcante representação de Kato, na série O Besouro Verde (The Green Hornet, 1967); até seu quarto e último filme Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973) e o incompleto O Jogo da Morte (The Game of  Death, 1972); citando ainda a produção de inúmeros documentários sobre sua obra; publicações de livros biográficos e sobre seu conceito de arte marcial, denominado Jeet Kune Do; depoimentos de seus amigos e parceiros, alunos, familiares e lutadores respeitados dos mais diversos estilos de artes marciais, além de atores renomados e dublês lendários de Hollywood dos anos de 1960/70,  tudo isso seria detonado, intencionalmente ou não, nas curtíssimas cenas de ação mal intencionadas e caricaturais dirigidas por Quentin Tarantino, se não fosse pela reação em massa dos fãs de Bruce Lee espalhados por todo o mundo.

O filme "A Origem do Dragão", de 2017, foi a primeira tentativa
sutil de Hollywood para denegrir o mito Bruce Lee.
Me parece que Tarantino aderiu à onda política da atual Hollywood que é desmistificar e destruir os grandes personagens heroicos do cinema, e principalmente os que transmitiam a imagem do “mocinho” másculo, destemido e justiceiro que inspiravam os garotos e faziam as meninas suspirarem nas poltronas. Quem se esqueceu da versão arrogante e imatura de Bruce Lee no filme "A Origem do Dragão" (The Birth of the Dragon - 2017) contra o sábio monge budista, Wong Jack Man, que ainda contrariou fatos históricos comprovados? Foi a primeira tentativa de Hollywood denegrir a imagem do Pequeno Dragão em favor de um desafiante derrotado. Atualmente, todo cuidado é pouco para não machucar os sentimentos de uma geração mi mi mi, sensível ou “politicamente correta” contemporânea que é adulada com "anti-heróis" adaptados aos novos tempos. Ainda pior, é crer que Tarantino quis trazer à tona algo que já estava nas profundezas do esquecimento, o preconceito racial e barreiras impostas principalmente contra os atores de origem asiática em Hollywood.
Mas a discussão está apenas girando em torno do resultado da luta apresentada no filme entre o jovem ator e artista marcial, Bruce Lee (Mike Moh) e o veterano dublê, Cliff Both (Brad Pitt); o que foge do foco da questão, pois a luta em si poderia terminar em empate ou em vitória de um ou de outro numa disputa apertada e equilibrada, sem problemas, já que se tratava de um jovem Bruce Lee, de apenas 27 anos, chegando à maturidade e que ainda não tinha revisto e reformulado seus conceitos para criar o seu próprio estilo, o Jun Fan Gung Fu, que mais tarde se tornaria o Jeet Kune Do.
Lee enfrentaria um dublê durão, experiente e bom de briga, ex-fuzileiro e quarentão. O problema, na verdade, foi como Bruce Lee foi representado nas telas na depreciativa visão de Tarantino.

No filme de Tarantino, Bruce Lee (Mike Moh) fala sem parar sobre suas
mãos registradas como armas letais e que poderia aleijar o campeão Muhammad Ali...

O dublê veterano Cliff Both (Brad Pitt) toma as dores e resolve desmascarar
o falastrão Bruce Lee (Mike Moh) em três tentativas...

Humilhado pelo dublê (Brad Pitt) que o vence com certa facilidade ao atirá-lo
contra o carro, Bruce Lee (Mike Moh) insiste sem sucesso até serem interrompidos...
Tarantino exibiu um Bruce Lee arrogante, falastrão e que mal poderia sustentar o que prometia fazer, ou seja, uma farsa. Na versão de Tarantino, Bruce Lee (Mike Moh) chegou ao ponto de dizer que ele poderia derrotar e aleijar a lenda dos pesos pesados, Muhammad Ali, o que deixou o dublê Cliff Both (Brad Pitt) incomodado com tamanha arrogância.

Bruce Lee, o verdadeiro, fazendo sparring com o dublê (real) de
Van Williams (astro de O Besouro Verde), Bennie Dobbins, em 1970.

Bruce Lee treina o chute lateral voador contra o dublê Bennie Dobbins, em 1970.
Tarantino que se dizia fã do Pequeno Dragão se mostrou ignorante neste ponto, já que é sabido pelos estudiosos de Bruce Lee que o mesmo admirava Muhammad Ali e sua movimentação elegante nos ringues e se percebia visivelmente que Lee se movimentava (ou dançava nas pontas dos pés) em seus filmes imitando Ali. Bruce chegou ao ponto de assistir um documentário com  cenas das lutas de Ali em imagem invertida através de um espelho para estudar e adaptar a as técnicas do famoso boxeador ao Jeet Kune Do, já que na posição de luta no seu sistema (JKD), o punho direito ficava à frente para interceptar com um soco direto ao contrário do boxe tradicional, que lançava o punho esquerdo à frente para jabear e fintar para então lançar a direita para nocautear. Detalhes que um verdadeiro fã deveria conhecer.

Bruce Lee vs. Muhammad Ali, a luta poderia ter acontecido?

Bruce Lee, na verdade, venerava o jogo de pernas e a técnica de boxear de Ali.
Talvez desejasse que o campeão dos pesos pesados algum dia participasse de um de seus filmes.
Infelizmente, Lee faleceu antes que o encontro dos dois mitos se tornasse realidade.
Bruce planejava se encontrar com Muhammad Ali, seu grande sonho, quando fosse promover Operação Dragão (Enter the Dragon – 1973) nos EUA, depois de uma entrevista agendada com Johnny Carson no The Tonight Show na TV, para quem sabe treinarem juntos e trocarem ideias e experiências. Ele e Ali tinham muitos amigos em comum, dentre os quais, o mestre de Taekwondo Jhoon Rhee e o karateca Jim Kelly (Williams, em Operação Dragão). 
Quando soube da morte de Bruce Lee em julho de 1973, Ali teria comentado respeitosamente: "Morreu o único homem capaz de me vencer." 
Em contrapartida, Bruce Lee teria respondido anteriormente quando lhe perguntaram sobre qual estratégia usaria para vencer Muhammad Ali, e ele ironizando, disse: "Todos dizem que devo lutar com Ali algum dia, mas compare o tamanho das mãos dele com as minhas mãos chinesas tão pequenas. Ele me mataria...". Bruce sabia do seu potencial extraordinário ainda que tivesse apenas 1,68m e 58-62kg, mas tinha consciência que teria poucas chances com o habilidoso e poderoso boxeador  de 1,91m e 107 kg.
As reações negativas e condenações vieram em resposta à essa caricaturização de Bruce Lee em Era uma Vez em Hollywood. Inicialmente, se pronunciou em desapontamento, a filha de Bruce, Shannon Lee e sua mãe, viúva de Lee, Linda Lee Cadwell. A seguir se pronunciaram Danny Inosanto, o mestre das armas brancas e do combate de origem filipina, amigo e parceiro de Bruce Lee de muitas jornadas; também estudiosos de Bruce Lee como o escritor Mathew Polly; o aluno e amigo de Lee, o ex-campeão de basquete dos Lakers, o lendário Kareen Abdul Jabbar; sem contar os fãs e blogueiros de todo o planeta revoltados com o desrespeito a insensibilidade de Quentin Tarantino, que ofendeu a memória do Pequeno Dragão e desrespeitou a família Lee.

Bruce Lee segurando Brandon e Shannon, em dezembro de 1969.

O que disseram os que entraram na polêmica ? Vamos começar então pela família Lee:

Shannon Lee ficou incomodada com o público no cinema rindo de seu pai na
representação feita por Mike Moh sob a direção de Tarantino.
Shannon Lee A filha de Bruce Lee fez duras críticas em relação à representação de seu pai no filme de Tarantino. Ela sentiu que houve zombaria por parte de Tarantino e que o resultado a deixou decepcionada. Shannon disse não ter gostado de ver o pai ser representado como arrogante e falastrão. Ela lembrou que na década de 1960, o mercado do cinema norte-americano  para atores asiáticos era difícil, o que não foi demonstrado no filme de Tarantino. Bruce perdeu alguns papéis para atores brancos (que se passaram por asiáticos) que poderiam ser perfeitamente para ele, apenas pelo fato dele ser de origem oriental. David Carradine é um exemplo, ele fez a série de TV Kung Fu (The Warrior, título original) e o filme A Flauta Silenciosa (The Silent Flute), ambos projetos de Bruce Lee. Ela disse poder entender o período retratado de racismo e exclusão e que os personagens seriam anti-heróis e que até aceitaria a possibilidade do personagem de Brad Pitt (Cliff Both) vencesse Bruce Lee, mas não precisavam tratá-lo no filme da mesma forma com que certamente alguns brancos de Hollywood o fizeram em vida. Talvez Tarantino tentasse mostrar como Bruce era visto, mas não funcionou, disse Shannon. Ele aparece como um saco de pancadas egoísta e arrogante que fala sobre coisas que desconhece. Nada a ver com aquele que teve que lutar três vezes mais que os outros (brancos) para conquistar o espaço que os demais conseguiram com naturalidade. Decepcionada, Shannon ainda diz que foi muito desconfortável presenciar as pessoas rindo do seu pai na sala do cinema.

Shannon Lee diante dos túmulos de seu pai e irmão (Brandon Lee)
no cemitério Lake View, de Seattle.
Diz ainda Shannon Lee: “O diretor parece ter se empenhado para tirar sarro do meu pai e para retratá-lo como um palhaço.”
Em resposta aos comentários de Tarantino, que bateu o pé e afirmou que Bruce era mesmo daquela forma arrogante retratada em seu filme, Shannon disse que “Ele poderia calar a boca sobre isso. Isso seria muito bom. Ou ele (Tarantino) poderia pedir desculpas ou poderia dizer: ‘Eu realmente não sei como Bruce Lee era. Eu acabei de escrever para o meu filme. Mas isso não deve ser considerado como ele realmente era.’"
Shannon considerou que a confiança de seu pai pode ter sido confundida com arrogância e nunca o julgou um “homem perfeito”. Shannon frisa que esse tipo de crítica recorrida por Tarantino dirigida a seu pai, ela já teria ouvido de outros artistas marciais brancos de Hollywood. Ela reconhece que é apenas um filme de ficção e que Tarantino poderia retratar Bruce Lee do jeito que quisesse, mas não seria honesto afirmar que seu pai era assim.
Shannon ainda lembra: “Ele foi continuamente marginalizado e tratado como um incômodo na Hollywood branca, da mesma forma que foi mostrado no filme de Tarantino. Espero que as pessoas aproveitem a oportunidade para descobrir mais sobre Bruce Lee, porque há muito mais para descobrir e muito mais para se entusiasmar. O que o filme retratou definitivamente não era ele.”

Bruce Lee com sua filha Shannon, em Hong Kong, 1972.
Shannon confirma o que sempre foi dito pelos estudiosos de Bruce Lee, que por ser de origem asiática e ter um sotaque oriental, sofreu discriminação por uma grande parte da Hollywood dominantemente branca, poucos reconheciam o seu enorme potencial e talento ilimitado e na maioria das vezes barravam seus projetos e iniciativas. Mas no final, ele se impôs com a ajuda de alguns amigos e profissionais, atores, produtores, diretores e roteiristas que reconheciam o seu talento, como Jay Sebring, James Coburn, Steve McQueen, Stirling Shilliphant e Fred Weintraub.

Linda Lee Cadwell, decepcionou-se com a versão de seu ex-marido concedida por Tarantino.
Linda Lee Cadwell De acordo com Shannon Lee, sua mãe lhe disse que achou a representação “horrível”. E ainda disse: “Eu pensei que o personagem era como uma caricatura de si mesmo, fazendo-se parecer estúpido, bobo e de uma forma insultuosa e forçosamente ‘chinesa’. Isso se afastou tanto da verdade de quem ele era e de qualquer disputa real que ele tivesse... Foi terrível de assistir.”

Linda e Bruce Lee, nos bons e maus tempos da ensolarada Califórnia, no final dos anos de 1960.
Linda que conhecia os princípios do Wing Chun Kung Fu e acompanhou a transição do Jun Fan Gung Fu para o Jeet Kune Do, certamente achou ridícula a abordagem que deram para luta entre Lee e o Both. Bruce Lee na realidade nunca atacaria um dublê durão e experiente de uma forma tão displicente e ingênua. Mas como já mencionei, Tarantino desconhecia Bruce Lee e o Jeet Kune Do, ele se baseou apenas no que viu na TV, principalmente nas atuações de Lee como Kato em O Besouro Verde (1967), o que estava longe do ele pregava para uma luta real.

Danny Inosanto, amigo e parceiro de Bruce Lee partiu em defesa de seu protetor
contra a versão desonesta de Tarantino.
Danny Inosanto O parceiro e amigo de Bruce Lee, agora com 83 anos, também rejeitou a ideia de que Bruce Lee teria se gabado em algum momento do passado que poderia derrotar o campeão dos pesos-pesados, Muhammad Ali. Pelo contrário, Inosanto afirma que Bruce Lee era um grande admirador de Muhammad Ali. E lembra que ele era companheiro, atencioso e humilde com os colaboradores em seus filmes.
Diz Inosanto: “Bruce nunca teria dito nada depreciativo sobre Muhammad Ali porque adorava o caminho que Muhammad Ali percorria. Na verdade, ele (Bruce) gostava mais de boxe do que de artes marciais.”

Danny Inosanto ao lado de Bruce Lee, em 1972. O mestre das artes filipinas
 de combate está atualmente com 83 anos.
Inosanto recorda que Bruce reverenciava Ali e outros tantos pugilistas, e o viu muitas vezes dizendo a seus alunos para buscar a agilidade e fluidez dos movimentos dos pés de Ali.
Inosanto não se lembra de ter presenciado Lee num set de trabalho se exaltando ou provocando situações para se exibir.
E complementa: “Ele nunca, foi, na minha opinião, arrogante. Talvez ele tivesse confiança em si mesmo em se tratando de seu conhecimento de artes marciais. E ele estava à frente de todos outros. Mas em um set ele nunca iria se mostrar, e é muito duvidoso que um dublê tenha conseguido se dar bem contra ele daquela forma.”

Bruce Lee e Danny Inosanto no set de O Jogo da Morte, em 1972.
Inosanto finaliza recordando que recebeu uma enxurrada de cartas de fãs de todo o mundo após a morte de Lee e complementa: “Bruce Lee abriu o caminho para os americanos de origem asiática. Entrar como um asiático (em Hollywood) foi muito, muito difícil na época. Ele também abriu o caminho para todas as estrelas de filmes de ação. 
Inosanto tem razão, se não fosse por Bruce Lee, quem haveria falar de Jackie Chan, Sammo Hung, Jet Li, Donnie Yen, Tony Jaa, entre os asiáticos que "conquistaram" Hollywood; sem esquecer dos então desconhecidos até o surgimento de Bruce Lee como Jim Kelly, Bob Wall, Chuck Norris, Jean Claude Van Damme, Steven Seagal, etc., que também pegaram carona na sua fama.

Kareen Abdul Jabbar, multi campeão dos Lakers, aluno de Bruce Lee
interviu na polêmica: "Bruce Lee era meu amigo!"
Kareen Abdul Jabbar O amigo e aluno de Bruce Lee, ex-jogador campeão do time de basquete Lakers, hoje colunista da NBA, afirma que Tarantino foi desleixado, racista e se esquivou da responsabilidade com a verdade ao retratar seu saudoso parceiro daquela forma. Jabbar observa brilhantemente que, apesar do que está no filme seja ficção, essas cenas viverão em nossa consciência cultural compartilhada como impressões de pessoas reais, corrompendo assim a memória que temos delas, cobrindo suas ações na vida real. Jabbar ressalta que é por isso que os cineastas têm a responsabilidade de interpretar as impressões de pessoas históricas admiradas para manter uma verdade básica sobre o conteúdo de seu personagem. O retrato de Bruce Lee no filme, não corresponde a esse padrão.  Kareen Abdul Jabbar se considera decepcionado, já que Tarantino era um dos seus cineastas preferidos. Ele lembra que: “Bruce Lee era meu amigo e professor. Eu conheci Bruce quando era estudante na UCLA, e procurava continuar meus estudos de artes marciais que comecei em Nova York. Nós rapidamente desenvolvemos uma amizade, bem como uma relação aluno-professor. Ele me ensinou a disciplina e a espiritualidade das artes marciais, o que foi muito responsável por eu poder jogar competitivamente na NBA por 20 anos, com poucas lesões.”

Kareen Abdul Jabbar e Bruce Lee no set de O Jogo da Morte, em 1972.
Aluno e professor, mas acima de tudo, bons amigos.
Continua Jabbar: “Durante nossos anos de amizade, ele falou apaixonadamente sobre como estava frustrado com a representação  estereotipada dos asiáticos no cinema e na TV. Os únicos papéis disponíveis eram para vilões. A atitude machista "a la John Wayne” tomada por Cliff Both (Brad Pitt) derrotando o “arrogante chinês”, remete aos próprios estereótipos que Bruce estava tentando desmantelar. E não haveria nada de mais num loiro americano poder bater num canastrão asiático que voou para cá.”

Kareen Abdul Jabbar e Bruce Lee, no set de O Jogo da Morte, em 1972.
Finaliza, Jabbar: “Eu estive pessoalmente com Bruce em várias vezes quando algum idiota aleatório o desafiava publicamente para uma briga. Ele sempre recusou educadamente e seguiu em frente. A primeira regra nos ensinos de Bruce era não lutar, a menos que não tivesse outra opção. Ele sabia que a luta real não estava no tatame ou nos ringues, estava na tela ao criar oportunidade para os asiáticos serem vistos além daqueles estereótipos sorridentes. Infelizmente, Era uma Vez em Hollywood,  prefere voltar aos bons e velhos (mas obscuros) caminhos.”

Matthew Polly, escritor, também contestou a versão arrogante de Bruce Lee
dada por Tarantino em seu último filme.
Matthew Polly O autor do livro “Bruce Lee: A Life”, concordou com as críticas de Shannon Lee. E ainda observou que Tarantino foi simpático para retratar o ator Steve McQueen (aluno de Bruce Lee), o cabeleireiro Jay Sebring (outro aluno de Bruce Lee) e a atriz Sharon Tate, mas não teve o mesmo cuidado e carinho com Bruce Lee, o único não branco do filme. Polly disse  que Tarantino poderia ter causado o mesmo efeito sem aquela zombaria.

Livro de Matthew Polly, um dos muitos experts em Bruce Lee.

Polly afirma que Bruce Lee “venerou” Muhammad Ali. Assim, a parte no filme em que o personagem  de Lee diz que suas mãos foram registradas como armas letais e que  “ele” aleijaria o boxeador e o personagem de Brad Pitt vem em defesa de Ali, não é apenas completamente imprecisa, mas também transforma Bruce Lee num desabonador desrespeitoso e idiota. E ainda observa que Bruce era famoso por ser muito atencioso  com as pessoas abaixo dele em sets de filmagem, particularmente os dublês.  No filme de Tarantino, Bruce Lee (Mike Moh) acaba por provocar a demissão do dublê  Cliff Both (Brad Pitt) porque ele, o grande astro, foi ridicularizado. Isso não condiz como Bruce Lee era realmente como pessoa.
Polly lembra que ainda em 1967, durante a produção dos episódios da série o Besouro Verde, Bruce vivia uma insegurança na vida profissional como ator e instrutor de artes marciais. A série foi cancelada no mesmo ano em que o personagem Kato fazia enorme sucesso e Bruce teria pensado em abrir uma rede de academias (Kato Karate Schools) aproveitando a popularidade do seu personagem, mas desistiu por achar que iria trair a filosofia do Jeet Kune Do. Com a série The Green Hornet cancelada, ele “se virou” dando aulas particulares à celebridades cobrando alto cachês e fazendo pontas em séries em séries de TV e filmes, como Marlowe (1968). Alguns de seus famosos alunos eram James Coburn, Steve McQueen, Stirling Shilliphant e Roman Polanski. Seus projetos pessoais como “The Warrior” (Kung Fu) e “The Silent Flute” foram rejeitados por Hollywood. Em 1970, para piorar, ele sofreu a terrível lesão nas costas que teria deixado qualquer atleta derrotado, mas ele era Bruce Lee e se recuperou em apenas 6 meses. Sua única opção então era voltar para Hong Kong e tentar a sorte nos filmes de artes marciais, já que Kato ainda fazia sucesso por lá.
Bruce realizando apenas 3 filmes, de 1971 a 1972, fez um sucesso estrondoso na Ásia batendo todos os recordes de bilheteria e Hollywood rendeu-se finalmente ao seu talento e coproduziu Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973) , o resto é história.

Brad Pitt, encarnou o fictício dublê decadente e quarentão que vence Bruce Lee.
Brad Pitt Segundo consta em depoimento do ator, era para Bruce Lee ter perdido a luta contra o dublê Cliff Both, na versão original de Tarantino. “O quê?!? Mas Bruce Lee é o cara!”, exclamou Brad Pitt ao ler surpreso a versão surpreendente do diretor. Mas ele (Pitt) e Mike Moh interviram e pediram para terminar em empate, daquela forma que todos já sabem. Com Bruce Lee (Moh) sendo arremessado ao carro como um menino pelo dublê veterano, que pouco se incomodou com suas investidas mal sucedidas.

Mike Moh, representou uma caricatura arrogante e lamentável de seu próprio ídolo
sob a direção do malicioso Tarantino.
Mike Moh Após as críticas de Shannon Lee, o ator escolhido para encarnar Bruce Lee no filme de Tarantino confessou ter se sentido num conflito quando leu o roteiro da cena com Brad Pitt, onde originariamente Bruce Lee perderia a disputa com o dublê veterano. Disse Moh: “Lee é meu herói. Bruce em minha mente era literalmente um deus. Ele não era uma pessoa comum para mim, eu o via como um super-herói. Eu acho que a maioria das pessoas o vê assim.”
Sobre Tarantino e sua visão de Bruce Lee, disse Moh: “É um filme de Tarantino. Ele não vai fazer o que todos esperam que se faça. Você tem que estar preparado para o inesperado. Soube desde o início que Tarantino ama Bruce Lee (será?!?); ele o reverencia (forma estranha de reverência essa...).
E continua: “Eu posso ver como as pessoas podem pensar que Bruce foi vencido por causa do impacto com o carro, mas se lhe dessem mais cinco segundos “Bruce” teria vencido. Então, eu sei que as pessoas vão ficar em pé de guerra sobre isso, mas quando eu mergulhei fundo no estudo de Bruce, percebi que ele mais que ninguém queria que as pessoas soubessem que ele é humano. E acho que o respeito ainda mais sabendo que ele enfrentava esses desafios, esses obstáculos, assim como a maioria das pessoas do mundo. Eu não conheço nenhum ator estrangeiro que não tenha o senso de almejar algo mais e alcançar a grandeza.”      
Ponderando, Mike Moh frisou apenas o resultado da luta. Mas não entrou nos detalhes da personalidade caricatural e arrogante que ele deu à Bruce Lee nas telas, sob a direção do famigerado Tarantino. 

Quentin Tarantino - Tarantino manteve sua posição mesmo após as inúmeras críticas em relação à retratação depreciativa que deu a Bruce Lee em seu filme. Afirmando inclusive que se baseou em depoimentos da própria Linda Lee Cadwell que afirmava que seu ex-marido era realmente arrogante e provocador. A resposta à Tarantino já foi dada. Vejam alguns exemplos da reação dos fãs de Bruce nas redes sociais...



Shut up, Tarantino!!!

Um tipo diferente de serpente...



Comentários finais - Bem, depois de toda essa polêmica, concluí que o diretor Quentin Tarantino nunca foi realmente fã de Bruce Lee pelo simples fato de desconhecer a personalidade e o caráter do Pequeno Dragão e ignorar totalmente a filosofia e conceito do seu estilo de luta ou Jeet Kune Do. Tarantino deveria estar realmente querendo arranhar a imagem de Bruce Lee e desconstruir o mito, talvez por recomendação da cúpula política de Hollywood; e isso se torna evidente, só pelo fato dele não ter consultado a família Lee antes de retratar o rei das artes marciais de uma forma tão desonesta como fez em seu filme. Seria, por parte dele, uma atitude digna, consultar Linda Lee Cadwell e Shannon Lee. 

Tarantino antes de cometer a gafe histórica,  deveria ter consultado os maiores experts
em Jeet Kune Do e Bruce Lee ainda vivos: Danny Inosanto e Taky Kimura.
Caso o polêmico diretor tivesse ao menos consultado os principais alunos de Bruce Lee, agora veteranos e respeitados octogenários, como Danny Inosanto ou Taky Kimura para orientá-lo na direção da luta fictícia com o dublê, poderia ter tido outra aceitação no resultado final. Mas ele não quis saber, ousou e se deu mal! Por isso, todos os fãs de Bruce Lee por todo o planeta clamam em uma só voz: Cale-se Tarantino!!! Shut up, Tarantino!!!

O legado de Bruce Lee permanece inalterado e cada vez mais forte
entre os verdadeiros fãs e admiradores do Pequeno Dragão!

Por Eumário J. Teixeira.

domingo, 28 de julho de 2019

BRUCE LEE, SHARON TATE E ROMAN POLANSKI EM ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD



A onda do momento é o filme Era uma vez em Hollywood (Once Upon A Time In Hollywood) de Quentin Tarantino. A história gira em torno de um ator de seriado de TV da década de 1960 (Rick Dalton)  que não consegue se firmar como estrela em Hollywood e de seu dublê e fiel amigo (Cliff Booth), ambos interpretados por Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, respectivamente. Dizem que estes personagens fictícios poderiam ser uma homenagem velada ao saudoso ator Burt Reynolds e ao seu amigo e dublê preferido, o lendário Hal Needham.

Margot Robbie, Leonardo DiCaprio e Brad Pitt são as estrelas de
 Era Uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino.

O lendário  dublê Hal Needham e o astro Burt Reynolds homenageados nos
personagens de DiCaprio e Pitt?!?
O que tem a ver com Bruce Lee? Muita coisa. O ator sino-americano Mike Moh aparece na trama encarnando o jovem e ambicioso Bruce Lee que já circulava por Hollywood como professor particular de artes marciais, diretor técnico de cenas de luta e às vezes como ator convidado em séries de TV e filmes de ação. Tarantino, fã de carteirinha de Bruce Lee, também explora um capítulo doloroso  da história de Hollywood no que diz respeito ao massacre onde foram vitimados a atriz Sharon Tate (grávida de 8 meses), o  cabeleireiro Jay Sebring e amigos na casa de Roman Polanski, em Bel Air, Los Angeles, por membros da seita conhecida como Família Manson.

Mike Moh como o audacioso Bruce Lee no filme de Tarantino.

A "família" assassina que chocou os EUA em 1969.

As vítimas da seita Família Manson.
No filme de Tarantino, Bruce Lee (Mike Moh) acaba se deparando com o dublê Cliff Both (Brad Pitt) nos estúdios de filmagem e se estranham. É fato que Bruce Lee conheceu e pode ter desenvolvido alguma inimizade com algum dublê em Hollywood, já que os mesmos também tinham fama de durões e bons de briga. É sabido da mesma forma que o jovem Bruce Lee era muito cheio de si e não fugia de uma disputa. 

Bruce Lee (Mike Moh) em disputa com o dublê Cliff Booth (Brad Pitt) em
Era Uma Vez Em Hollywood.
Dentre os dublês que Bruce Lee conheceu na realidade e fez amizade, está o campeão de Judô, Jiu-Jitsu e Wrestler, Gene LeBelle; e o lendário Bennie Dobbins, que dublou o ator Van Williams na série o Besouro Verde (The Green Hornet), esse último chegou a fazer sparring com Bruce Lee, que foi registrado em fotos por Linda Palmer, em meados de 1971. Mas isso vai ser assunto para outra postagem. 
                                                                      
Nas duas fotos sobrepostas  à esquerda, Bruce Lee ataca o dublê e campeão de Judô, Gene LeBell
num episódio de O Besouro Verde; na foto à direita, Bruce Lee faz sparring com
 o dublê Bennie Dobbins, no jardim de sua casa em Bel Air, Los Angeles.
Bruce Lee no final dos anos de 1960 - O ano de 1969 seria muito turbulento na quente Califórnia e precederia momentos difíceis para a vida do Pequeno Dragão que já buscava com unhas e dentes seu espaço definitivo em Hollywood. Já que não conseguia um trabalho como protagonista no cinema ou na TV, após o cancelamento da série o Besouro Verde (The Green Hornet) em 1967, Bruce se sustentava dando aulas particulares à atores famosos como Steve McQueen e James Coburn, e diretores e roteiristas como Roman Polanski e Stirling Silliphant, respectivamente. Esporadicamente lhe era ofertado participações especiais em seriados de TV ou pequenos papéis em longas, além da direção de cenas de ação em alguns filmes.

Na seleta lista de relacionamentos de Bruce Lee, estavam o ator  Steve McQueen,
a atriz Sharon Tate e o diretor Roman Polanski.

Bruce Lee treinando o amigo e aluno,  o ator James Coburn,
no final dos anos de 1960.

Da direita para a esquerda, Bruce Lee e o roteirista Stirling Shilliphant;
Bruce lee e o ator James Garner;  o lutador  Mike Stone,
o ator James Coburn, e o ator e lutador Chuck Norris,
 ao lado do Pequeno Dragão.
Mas, voltando um pouco pouco mais de um ano, em junho de 1968, em pleno verão na California, Bruce Lee é contratado como diretor técnico para as cenas de ação no filme “The Wrecking Crew” (A Arma Secreta contra Matt Helm), uma espécie de sátira dos filmes de James Bond. 

Bruce Lee coreografando a luta entre Sharon Tate e Nancy Kwan em 1968,
para o filme "A Arma Secreta contra Matt Helm".

Bruce Lee com a atriz  Sharon Tate, ensaiando alguns golpes.

Bruce Lee tenta mostrar à Nancy Kwan como se faz...

Bruce não dirigiu as lutas de Matt Helm (Dean Martin), mas deu algumas
dicas...
Bruce teria ganho cerca de 11.000 dólares pelo trabalho. Ele coreografou as sequências de luta envolvendo os atores Dean Martin (Matt Helm), Sharon Tate (futura esposa do diretor Roman Polanski) e Nancy Kwan (atriz sino-americana). Os ensaios de luta  entre Sharon Tate e Nancy Kwan coreografados pelo Pequeno Dragão fez com que Bruce Lee e Roman Polanski fossem apresentados um ao outro através de um amigo em comum, Jay Sebring.

O cabeleireiro Jay Sebring e seus clientes famosos. Da esquerda para
a direita, Paul Newman, George Peppard e Julie Newmar (a mulher gato).

Jay Sebring teria se impressionado com Bruce Lee em demonstração no
Torneio Internacional de Long Beach, em 1964, e o indicou para o
para o papel de Kato, na série o Besouro Verde.
Apesar da orientação de Bruce Lee para a cena de luta que envolvia Sharon e Nancy, o resultado foi um desastre, perdoável pela beleza e charme das duas garotas. O ponto em comum entre Bruce, Sharon e Polanski foi Jay Sebring, o cabeleireiro oficial das estrelas de Hollywood na época, dono de uma rede bem sucedida de salões. Sebring teria assistido a famosa demonstração de Bruce Lee no Torneio Internacional de Long Beach, na Califórnia, em 1964 e o sugeriu para que ele atuasse como Kato na série o Besouro Verde. O resto é história.

O trio amoroso mais controvertido de Hollywood
 dos anos de 1960? Jay Sebring, Sharon Tate e
Roman Polanski.
Antes de conhecer Roman Polanski, Sharon Tate já tinha um relacionamento
com Jay Sebring.


O curioso, é que antes de conhecer o diretor e produtor Roman Polanski, Sharon Tate já namorava Jay Sebring, mas como Polanski se encantou com a beleza da loira na primeira vez que a viu, apresentada pelo próprio Sebring, as coisas tomaram outro rumo. Polanski começou a dar em cima de Sharon, que recebeu sem resistência o assédio conformadamente permitido por Jay Sebring. Coisas de Hollywood. Mas os três supostamente continuaram como bons amigos até o fatídico dia.

Chuck Norris, aquele, faz sua estréia no cinema
em The Wrecking Crew, como um capanga do vilão.

Vale destacar que o filme “The Wrecking Crew” foi a estréia do jovem Chuck Norris (recém campeão internacional de Karate), contando também com a participação de outro campeão, Joe Lewis. Ambos faziam o papel discreto de dois capangas bons de briga. As cenas de lutas que envolveram a ambos Bruce não teria dirigido.

Bruce Lee em bela atuação no filme Marlowe, de 1968, com James Garner.
Na sequência deste trabalho como coreógrafo, Bruce Lee é contrato para fazer um papel de um assassino chinês no filme “Marlowe”, com James Garner, em agosto de 1968. Neste filme Bruce tem uma bela e explosiva participação. Mas pelo fato de ser de origem chinesa e ter um  sotaque carregado era o suficiente para que ele não conseguisse um papel principal em Hollywood.

Bruce Lee coreografando uma luta para o filme A Walk In The Spring Rain, em 1969.
Stirling Silliphant, roteirista, aluno e amigo de Bruce Lee, lhe consegue em seguida, outro trabalho como coreógrafo de cenas de luta no filme “A Walk In The Spring Rain”, estrelado por Anthony Quin, que veio a calhar, pois as contas estavam acumuladas em  1969. Além disso, em 19 de abril do mesmo ano, nasce Shannon Lee, irmã de Brandon Lee.

Bruce Lee participou de diversos torneios de Artes Marciais, em 1969, atuando
como árbitro à convite do mestre de Taekwondo, Jhoon Rhee.
Em maio e junho de 1969, Bruce participa como árbitro em campeonatos nacionais de karate (Taekwondo) na Califórnia, organizados pelo amigo e mestre coreano, Jhoon Rhee.

A cena do massacre – Na madrugada de 09 de agosto de 1969, membros de uma seita chamada “Família Manson” desciam à pé a 10050 Cielo Drive, Bel Air, em Los Angeles, e inspirados pela música “Helter Skelter” dos Beatles, invadiram a casa do Diretor Roman Polanski. Uma janela foi arrombada, um deles entrou e abriu a porta para os demais. Sistemas de alarme ou cercas elétricas não eram usuais na época.

O cenário do massacre, a casa de Roman Polanski na 10050 Cielo Drive, Bel Airm em Los Angeles.

Sharon Tate e seus amigos, todos mortos cruelmente pela Família Manson.
No casarão estavam Sharon Tate, grávida e esposa de Roman Polanski; seu amigo e ex-namorado, Jay Sebring; Wojciech Frykowski, aspirante a roteirista e amigo de Polanski; Abigail Folger, amiga de Polanski e herdeira da fortuna Folger Coffe;  e Steven Parent, um jovem amigo do cuidador da propriedade. Roman Polanski estava em viagem à Europa.

Sharon Tate grávida, pouco antes de ser assassinada.

Roman Polanski e Sharon Tate.
Charles Manson, líder do bando assassino, não estava neste ataque. Manson era um músico fracassado, tinha algum relacionamento com alguns rockstars da Califórnia, como Wilson dos Beach Boys.  Manson, maníaco, estava decidido a se tornar mais famoso que os Beatles e se inspirou na música “Helter Skelter” do Álbum Branco da banda inglesa (lançado em 1968) que, a seu ver, anunciava o conflito racial entre brancos e negros, para planejar o massacre.  Alguns dizem que sua intenção era cometer os assassinatos e acusar afro-americanos para assim provocar o “Armagedom” entre a raças antagônicas nos EUA.

O produtor musical Terry Melcher seria a primeira vítima dos assassinos de Manson,
mas escapou por pouco.
Sua primeira vítima seria o produtor de discos Terry Melcher, que havia desprezado seu trabalho musical. Só que Melcher havia se mudado da mansão recentemente e a residência  teria sido alugada em seguida para o diretor Roman Polanski e sua esposa grávida, a atriz Sharon Tate.

Os discípulos de Manson trucidaram à facadas, coronhadas e tiros até a morte os cinco ocupantes da residência e escreveram com o sangue das vítimas a palavra “pig” (porco) na porta de entrada da casa para confundir a polícia. Charles Manson não participou diretamente do ataque à mansão de Roman Polanski, mas seus comandados foram identificados como sendo Charles “Tex” Watson, Patrícia Krenwinkel, Susan Atkins e Leslie Van Houten.

O casal Leno e Rosemary LaBianca, também vítimas da seita Manson.
Um dia após o massacre à Sharon Tate e amigos, Charles Manson liderou e participou pessoalmente do ataque à outra casa na região, vitimando o casal Leno e Rosemary LaBianca, dono de um supermercado e sócia de  uma boutique, respectivamente. Após rodarem por horas escolhendo uma casa para mais um banho de sangue, resolveram parar na 3301 Waverly Drive. As portas destrancadas da casa facilitaram a ação dos assassinos.

No peito de Leno foi escrito à faca “war” (guerra) e houve várias pichações com o sangue das vítimas onde lia nas paredes “rise” (nascer), “death to pigs” (morte aos porcos) e “Helter Skelter” na porta da geladeira da cozinha.

Na mesma madrugada do dia 10 de agosto, Manson e seguidores tentaram fazer outras vítimas em Venice, desta vez seria o ator libanês Saladin Nader. Felizmente eles erraram de endereço e desistiram de mais um massacre.

A Profecia de Helter Skelter – “Helter Skelter” é o título de uma canção dos Beatles composta por Paul McCartney e lançada no álbum The Beatles ou White Album (Álbum Branco), de 1968. “Helter Skelter” foi traduzido por alguns como “confusão”, “algazarra” ou “decadência”. A música considerada pesada, suja e barulhenta para o estilo dos Beatles, foi considerada como uma das pioneiras do estilo Heavy Rock. Helter Skelter é o nome de um brinquedo popular na Inglaterra, conhecido também como Tobogã, em forma de espiral descendente.

O famoso Álbum Branco dos Beatles com a faixa "Helter Skelter" que teria influenciado
o louco assassino, Charles Manson.
O maníaco assassino, Charles Manson, acreditava que essa música dos Beatles continha profecias de uma guerra apocalíptica e racial. Segundo Paul McCartney, Manson deveria enxergar os Beatles como os 4 Cavaleiros do Apocalipse e a mensagem de Helter Skelter seria para sair e matar todos por aí. Na letra sem sentido, para alguns, poderia esconder uma analogia de como se pode chegar ao topo com dificuldade e facilmente se escorregar para baixo. Uma linha tênue do sucesso e do fracasso.

Jornais da época anunciando o massacre do caso Tate-LaBianca.
O maníaco bem relacionado - Charles Manson era um ex-presidiário, vivia como um hippie, liderando uma seita de jovens fanáticos que viviam aplicando pequenos golpes e delitos pelo estado da California e ruas de Los Angeles. Manson  chegou a fazer amizade com Dennis Wilson, o baterista e vocalista do conjunto de surf music, The Beach Boys. 


À direita, o maníaco Charles Manson preso; à esquerda,
 Dennis Wilson (The Beach Boys) ao lado do maníaco assassino.
Apesar de sua figura estranha, Manson era persuasivo e chegou a morar de favor com seus seguidores numa das casas de Wilson em Sunset Boulevard, que o teria apresentado ao produtor musical, Terry Melcher. Inicialmente, Melcher ficou interessado nas músicas de Manson e chegou a pensar em fazer um documentário sobre a comunidade e as garotas da “Família” Manson. Mas ao presenciar uma briga entre Manson e um dublê de cinema bêbado na comunidade onde viviam em Spahn Ranch, Melcher desistiu de Charles Manson e família, afastando-se deles. Manson não teria engolido a rejeição de Melcher.

Dennis Wilson se envolveu de certa com a família Manson, ele sempre se referia às garotas e chegou a levar Charles Manson aos estúdios dos Beach Boys para gravar algumas músicas. Wilson, que dizia morar com 17 garotas, após desfazer de parte de seus bens e experimentar algumas viagens de LSD, projetou formar um grupo com as meninas chamado “The Family Gems”. Mas com o tempo ele percebeu as tendências violentas do “mago” (como Dennis costumava chamá-lo) e começou a se afastar dele. Charles Manson o teria procurado e ameaçado de forma indireta, posteriormente.

Parece que o relacionamento com o maníaco Charles Manson selou
o destino trágico de Dennis Wilson dos Beach Boys.
Em novembro de 1983, Dennis Wilson estava sem teto e vivia como um nômade. Deu entrada num centro de terapia no Arizona onde ficou por dois dias. Em 23 de dezembro foi internado no St. John’s Medical Hospital, em Santa Mônica, onde permaneceu até 25 de dezembro. Depois de se envolver numa briga na Santa Monica Bay Inn, ele se interna em outro hospital para cuidar dos ferimentos. Depois de algumas horas de internação ele saiu por conta própria e voltou a beber compulsivamente. Em 28 de dezembro  ele se afogou em Marina Del Rey após beber durante todo o dia. Ele teria mergulhado à tarde num ponto em que teria jogado alguns objetos pessoais de seu iate três anos antes. Ele estava com 38 anos.

A família assassina é detida e condenada - A ironia é que a polícia só chegou à família Manson por suspeitar que eles estavam envolvidos no roubo e desmanches de carros na região e pouco depois averiguarem que havia uma conexão dos massacres Tate-LaBianca com o caso do assassinato do músico Gary Hinman, por um membro da ainda desconhecida família Manson, chamado Bobby Beausoleil há pouco tempo atrás. Como no caso Tate-LaBianca, neste também foram registradas mensagens com o sangue da vítima nas paredes. Era uma conexão. Finalmente todos os envolvidos foram presos e condenados à prisão perpétua.

Charles Manson, antes e depois.
Charles Manson, líder da seita e mentor dos massacres, morreu logo depois de ser transferido da prisão especial onde cumpria a pena perpétua para um hospital Kern County, na Califórnia, em 19 de novembro de 2017, aos 83 anos. 

Charles "Tex" Watson, antes e depois.
Tex Watson ainda cumpre sua pena perpétua na Prisão estadual de Mule Creek, na Califórnia. Atualmente ele se diz convertido ao Cristianismo. Se Manson foi o planejador dos massacres, Watson foi o executor. Ele participou dos massacres da casa de Sharon Tate e do casal LaBianca.

Patricia Krenwinkel. antes e depois.
Patrícia Krenwinkel  cumpre sua pena  perpétua na Prisão de Mulheres de Corona, Califórnia. Krenwinkel foi quem escreveu com o sangue das vítimas nas paredes da casa do casal LaBianca a frase “Morte aos porcos”.

Susan Atkins, antes e depois.
Susan Atkins faleceu em 24 de setembro de 2009, aos 61 anos, em decorrência de câncer no cérebro enquanto cumpria sua pena perpétua na Prisão de Mulheres de Chowchilla, Califórnia.

Linda Kasabian, foto da época.
Linda Kasabian não participou dos ataques de forma direta, era a única que tinha habilitação para dirigir, conduziu o carro que levava os assassinos e ficou de vigília fora da casa de Sharon Tate. Ao depor contra seus companheiros ela obteve imunidade, já que seu depoimento foi o principal responsável pela condenação dos demais. Se esforça para viver no anonimato até hoje no estado de New Hampshire, Estados Unidos.

Leslie Van Houten, antes e depois.
Leslie Van Houten não participou da chacina na residência de Sharon Tate, mas esteve no massacre do casal LaBianca. Ela cumpre pena perpétua na Prisão de Mulheres em Corona, Califórnia.

Bobby Beausoleil, antes e depois.
Bobby Beausoleil cumpre pena de prisão perpétua pela morte de Gary Hinman, ocorrida poucos dias antes da chacina na casa de Sharon Tate.

Bruce Lee, suspeito de assassinato  - Teorias de todos os tipos apareceram na imprensa sobre os possíveis responsáveis pelo assassinato, antes das prisões e condenações dos fanáticos da Família Manson. Especulou-se que poderia ser um acerto de contas da máfia, uma ação do serviço secreto polonês contra Roman Polanski, retaliação de traficantes de drogas por dívidas não pagas, etc. Mas o próprio Roman Polanski desenvolveu sua própria e surpreendente teoria.

Bruce Lee passou a ser um dos suspeitos dos assassinatos pelo diretor Roman Polanski.
No início das investigações, a polícia perdeu um tempo precioso tentando relacionar os assassinatos com traficantes de drogas. E para confundir mais ainda as investigações foi achado um par de óculos de grau, supostamente deixado na cena do crime para atrapalhar ainda mais as investigações. Esse par de óculos seriam semelhantes aos que Bruce Lee portava, quando não estava usando suas lentes de contato.

Bruce Lee no funeral de Sharon Tate.
Roman Polanski que estava aparentemente impaciente e paranoico com tudo aquilo, resolveu fazer sua própria investigação. Assim ele começou a desconfiar e investigar à todos possíveis suspeitos que estavam no círculo de amizade dele e de Sharon Tate. Bruce Lee era um deles, ainda mais porque usava óculos de grau para miopia.  Desenvolvendo essa suspeita absurda, Polanski ainda comprou um kit que detectava vestígios de sangue e, vestido de preto, vagou por diversos bairros de Los Angeles examinando os carrões Lamborghinis e Porches de seus vizinhos famosos em busca de amostras de sangue. O cantor John Phillips, da banda The Mamas & The Papas, foi um que teve o seu carro vistoriado por Polanski.

Roman Polanski em frente à sua casa, onde se lê na porta de entrada, a inscrição "pig".
Ele também chegou a gastar  2.500 dólares para comparar a palavra “pig” escrita com sangue na porta da frente de sua casa com a caligrafia  do produtor Bill Castle. E ainda teria colocado microfones nas casas de alguns amigos para captar suas conversas de um quarto de hotel nas proximidades. 

Sua suspeita sobre Bruce Lee aumentou quando este mencionou à Polanski,  numa conversa, que teria perdido um par de óculos. Ora, Bruce também já morava em Bel Air há algum tempo e não tão distante do local do massacre. Foi o bastante para Polanski comprar um medidor para lentes com grau para medir os óculos de vários amigos, inclusive o de Bruce Lee.

Roman Polanski em prantos no funeral de sua esposa, Sharon Tate.
Roman Polanski nunca encontrou uma resposta satisfatória, até que as investigações policiais chegaram definitivamente aos verdadeiros autores, os cinco membros da Família Manson.

Bruce Lee como hóspede de Polanski, na Suíça – Sete meses após o massacre na residência de Sharon Tate, Bruce Lee recebe um convite para ir à Gstaad, na Suíça, para administrar aulas particulares de defesa pessoal ao próprio Roman Polanski. Era fevereiro de 1970.

Roman Polanski flagrado em Gstaad, na Suíça, em 1969. Provavelmente
depois do assassinato de Sharon Tate.
Segue um breve relato de Bruce Lee ao editor Mito Uyehara da revista Black Belt sobre sua viagem e experiência na Suíça: “É fantástico quando os arranjos são feitos por ele (Roman Polanski). Eu desembarco no aeroporto e um motorista já está esperando  por mim numa limusine. Ele me leva ao melhor hotel e no dia seguinte ele me leva ao aeroporto para o meu voo de conexão. Eu não gasto um centavo e tenho um tratamento de luxo. Tudo está tão bem organizado que eu não sinto quase nenhum problema.

Continua Bruce Lee: “Eu não percebi como os milionários passavam seu tempo, até que eu visitei um resort na Suíça. Eles têm uma vida enfadonha. Beber e esquiar é tudo o que fazem. No meio disso tudo, eles tentam levar alguém para a cama. Eu era o único asiático lá, os demais eram todos europeus.”

Lee prossegue com o surpreendente relato: “Algumas daquelas meninas tinham cerca de 14 ou 15 anos de idade, fazendo companhia aos velhos cinquentões. No começo, achei um pouco estranho, então percebi que a moral não existe por lá. Não, essas crianças não eram suas filhas. Elas deveriam ser prostitutas, eu acho. Eu realmente não sei porque aquelas crianças não estavam na escola. Foi uma situação estranha.”

Lee adquire uma gripe na Suíça, mas mesmo assim  experimentou esquiar: “Eu estava indo a 60 milhas por hora, descendo a colina e fiz todo o percurso abaixo sem cair. Eu não senti nenhuma excitação nesse esporte e não tentei novamente.”

Depois desta experiência na Suíça, que durou aproximadamente 2 semanas, Bruce retorna para os EUA, mas antes faz escala em Londres, onde se hospeda na casa de Roman Polanski.
Este seria talvez o último contato de Bruce Lee com o polêmico diretor Roman Polanski.

Coincidências macabras - Pouco mais de um ano antes do assassinato de Sharon Tate, grávida de Roman Polanski, o filme “O Bebê de Rosemary” é lançado em 12 de junho de 1968 nos EUA. O filme, considerado um dos maiores clássicos do terror até hoje, teve a direção de Polanski e teria contado com a consultoria de Anton LaVey, fundador da “Igreja de Satã’ e autor do livro “A Bíblia Satânica” para as cenas de cânticos e rituais. 

Anton Lavey (de capa e chifres), o autor da Bíblia de Satan, foi consultor no filme
"O Bebê de Rosemary" de Roman Polanski.

O prédio Dakota onde foi filmado o filme "O Bebê de Rosemary".
A história trata de uma mulher casada (personagem que inicialmente seria de Sharon Tate, mas que foi cedida à Mia Farrow) envolvida numa trama satânica onde seu próprio marido, num pacto maligno em busca de sucesso na carreira, concorda que sua mulher possa ser possuída sexualmente num ritual macabro pelo próprio diabo para a geração do anticristo. 

Em frente ao prédio Dakota, John Lennon foi assassinado
em 1980 por um fã.
O prédio onde foi filmado a trama de o Bebê de Rosemary, é o mesmo prédio (The Dakota) onde John Lennon morava quando foi assassinado à tiros por um fã, em 1980, em Nova York. O edifício lembra também a fachada  do prédio que aparece na capa do álbum duplo “Phisical Grafitti”, de 1975, da banda de rock Led Zeppelin, apesar de não ser o mesmo. 

A fachada sinistra  do prédio que serviu de capa para o álbum do Led Zeppelin.

Capa do álbum Physical Grafitti, do Led Zeppelin, de 1975.
É sabido que o guitarrista Jimmy Page (líder e guitarrista do Zep) era seguidor do famoso mago satanista, Aleister Crowley. Um ano e dois meses depois do lançamento do filme, Sharon Tate grávida de 8 meses é brutalmente assassinada à facadas por membros da seita demoníaca, conhecida como Família Manson.

O lado polêmico do aluno mais excêntrico de Bruce Lee - Roman Polanski sempre teve uma queda por ninfetas, depois de Sharon Tate, que trabalhou com ele em “A Dança dos Vampiros (1967)”, sua lista de namoradas continua  com nomes selecionados, como as jovens atrizes Barbara Lass, Jacqueline Bisset, Nastassia Kinski e finalmente sua atual esposa, 33 anos mais jovem, Emanuelle Seigner.


Roman Polanski e a jovem atriz Sharon Tate, no 
filme "A Dança dos Vampiros", de 1967.


Roman Polanski, sempre teve uma caidinha por ninfetas...
Em março de 1977, o diretor Roman Polanski foi indiciado em Los Angeles por cinco crimes contra Samantha Geimer, uma menina de 13 anos. Foi acusado de estupro com uso de drogas, perversão, sodomia, atos libidinosos com uma adolescente com menos de 14 anos, e por fornecer drogas controladas a uma menor de idade. Ele só admitiu ter praticado ato sexual com pessoas menor de 14 anos. Polanski fugiu para a França antes da sentença e procura evitar, até hoje,  voltar à países que poderiam deportá-lo para os Estados Unidos. Ele também foi desfiliado à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, como retaliação.

O filme de Tarantino – Era Uma Vez em Hollywood (Once Upon A Time In Hollywood) deve contar uma história beirando o humor negro ao som de uma trilha sonora de rock psicodélico em torno dos bastidores dos estúdios de Hollywood, apresentando os conflitos existentes entre alguns produtores, diretores, atores, dublês e personagens reais e fictícios, descrevendo as circunstâncias que antecederam o massacre que vitimou Sharon Tate e amigos.

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio dando uma carona para o diretor Quentin Tarantino.
Na ocasião, Bruce Lee já morava em Bel Air, mas não esteve presente na carnificina. Mas se ele se deparasse com a Família Manson de frente, naquela madrugada de agosto de 1969, como seria? Nunca saberemos. Depois de assistir ao filme de Tarantino, talvez eu poste algum comentário sobre a visão do polêmico cineasta. Abraços.

Bruce Lee mirando a cabeça do ator James Garner, em 1968.

Walk On!

Por Eumário J. Teixeira.