Kato

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Bruce Lee forever!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

JAMES YIMM LEE, O MENTOR E AMIGO SUBESTIMADO DE BRUCE LEE


Alguns homens parecem ter uma missão em vida que é abrir o caminho para outros que chegarão e brilharão em seu lugar. Eles geralmente têm a consciência de que aquele que está por vir os representará de alguma forma, já que por circunstâncias diversas e alheias à sua vontade, eles mesmos não mais teriam a oportunidade de alcançar o objetivo pessoal traçado. Mas ao contrário de se sentirem derrotados ou enciumados, eles acolhem, protegem, direcionam e acompanham aquele que chegou para brilhar em seu lugar, porque sabem que de alguma forma eles serão representados e lembrados através do sucesso daquele a quem foi destinado à vitória e ao estrelato. Creio que esse meu pensamento, se aplica à James Yimm Lee e ao surgimento do “rei do Kung Fu”, Bruce Lee, para o mundo das artes marciais.
Bruce Lee quando chegou aos Estados Unidos por volta de 1959 para exercer sua cidadania americana cativou instantaneamente muitas amizades que foram muito auxiliadoras e produtivas para o seu desenvolvimento como artista marcial e adaptação na terra do Tio Sam. Alguns não foram tão lembrados com seus essenciais colaboradores por sua discrição, como Jesse Glover e Howard Williams (ambos negros); James DeMille, que faz parte da primeira turma do Jung Fan Gung Fu; Taky Kimura, considerado um guardião dos ensinamentos e da memória de Bruce Lee; Daniel Lee, Ted Wong e Richard Bustillo, que tiveram uma boa projeção após a morte de Bruce; Dan Inosanto que dentre eles, foi o que mais foi reconhecido pelo grande público; outros quase desconhecidos como Bob Baker e alguns que ainda tentam manter o legado do Jeet Kune Do vivo e gozaram de certo reconhecimento como Jerry Poteet, Ed Hart, Herb Jackson, Bob Bremer e Tim Tackett.

Bruce Lee e parte da turma do terceiro Jun Fan Gung Fu Institute, em Los Angeles, por volta de 1967.
Nesta sede sem placa de identificação, ocorreria a transição do "método" Jun Fan Gung Fu para Jeet Kune Do. 
Mas dentre eles, um foi o mais importante para o surgimento Bruce Lee como artista marcial nos EUA, estou me referindo à James Yimm Lee, responsável direto por introduzir Bruce Lee à comunidade e aos eventos de artes marciais de San Francisco a Oakland. Com certeza, James Lee, foi o mais desprezado dos colaboradores de Bruce Lee, em virtude de sua morte precoce em 1972, ainda que sua vasta experiência em artes marciais diversas, treinamentos físicos específicos, ofícios profissionais peculiares e sua mente inovadora fossem ser o impulso essencial para Bruce Lee abrir sua mente e desenvolver suas ambições como artista marcial libertador e inovador.

A vida de James Yimm Lee é digna de um livro, documentário ou filme.
A vida de James Yimm Lee merecia ser documentada em livro, documentário e filme, porque foi um guerreiro em todos os sentidos. Nasceu e morreu lutando. Sem dúvidas foi um parceiro à altura do mito chamado Bruce Lee. Se Bruce Lee era o dragão, James Lee era o tigre.
A seguir, um breve resumo que foi a vida desse herói quase que desconhecido, mas que merecia mais consideração e respeito à sua memória e trajetória de vida.


James Yimm Lee, o surgimento do Tigre – James, filho de pais chineses, nasceu num lar modesto em 31 de janeiro de 1920, em Oakland, no estado da Califórnia. Desde criança teve a tendência para o esporte e já adolescente praticava ginástica acrobática e halterofilismo. Aos 18 anos já pertencia à equipe de halterofilismo YMCA de Oakland onde ganhou o campeonato da Califórnia na divisão de 60 kg, entre 1938 e 1939. Autodidata em muitas coisas, James Yimm Lee também tinha o dom para o desenho e artes, mas começou sua carreira profissional como soldador civil nos estaleiros da base aeronáutica norte-americana de Pearl Harbour, no Havaí.
Com a saúde de um touro, James passou a treinar judô no Academia Okazaki  e a praticar boxe disputando alguns campeonatos amadores, ainda no Havaí.
Após o bombardeio de Pearl Harbour pelos japoneses, que levou os EUA a entrar na Segunda Grande Guerra, James retornou para Oakland e continuou exercendo seu ofício de soldador. Ao ser convocado pelo exército, foi servir nas Filipinas, onde contraiu malária. Sua condição se tornou gravíssima a ponto de estar desenganado pelos médicos. Mas James resistiu bravamente e se recuperou. Finalmente, em abril de 1946, aos 26 anos de idade, ele foi dispensado do exército e voltando para casa retorna aos treinamentos com pesos tentando readquirir sua forma física ideal. Depois de contrair a malária, ele que normalmente pesava por volta de 72 kg, passou a pesar 52 kg, ou seja acabou por perder 20 kg de peso corporal. Assim o seu principal objetivo passou a ser recuperar sua saúde, sua força e a massa muscular.

T. Y. Wong, mestre de Kung Fu Shaolin do Norte de uma escola tradicional da Chinatown de San Francisco,
foi o primeiro e último mestre de artes marciais clássicas chinesas de James Yimm Lee.
De uma amizade e parceria promissoras, sobreveio uma rivalidade histórica.
A primeira experiência com o Kung Fu chinês – Na segunda metade da década de 1950, James Yimm Lee continua sua busca pelo aprimoramento físico através das artes marciais e acaba se matriculando na escola Sil Lum Gung Fu, no Kin Mon Physical Culture Studio, na Chinatown de São Francisco, que estava sob o comando do veterano mestre T. Y. Wong.

Fascículos do livro de James Yimm Lee que ensinava o condicionamento das mãos para quebramento.

James Lee "rolando as mãos" com o autodidata, Al Novak, que cooperou com James no livro  Modern Kung-Fu Karate: Iron Poison Hand Training.
Lá James treinou por cerca de quatro anos, onde se tornou conhecido por enfatizar a técnica da “mão de ferro” (Iron Hand) fazendo demonstrações públicas quebrando até 10 tijolos com as mãos nuas e que, por incrível que pareça, não eram marcadas ou calejadas, mas segundo os amigos, macias e suaves. Entre 1958 a 1959 ele publicou fascículos do seu livro intitulado “Modern Kung-Fu Karate: Iron Poison Hand Training”, que ensinava o passo a passo para o condicionamento das mãos para o quebramento, pela sua pequena editora. Ainda não satisfeito, ajudou a T. Y. Wong a publicar o primeiro livro em inglês sobre uma arte marcial chinesa: “Kung Fu - Original Sil Lum System”, em 1961.

Primeiro livro em inglês lançado  em 1961 nos Estados Unidos sobre artes marciais chinesas, sob autoria do 
veterano mestre T. Y. Wong em parceria com James Y. Lee, que chegou a posar para as fotos ilustrativas da obra,
 antes do desentendimento entre os dois.
Mas, no mesmo ano, a parceria com T. Y. Wong se desfaz por um desacerto envolvendo alguns dólares. James Yimm Lee afirmaria posteriormente que seria mais do que isso, na verdade ele teria notado que T. Y. Wong estaria reservando algumas técnicas mais sofisticadas do seu Kung Fu para alguns alunos em detrimento de outros. De qualquer forma, o rompimento entre dois gerou uma rivalidade que aceleraria o encontro e uma parceria produtiva com um jovem artista marcial chamado Bruce Lee.

O Tigre encontra o Dragão – Robert, irmão mais velho de James, teria mencionado a ele sobre um tal de Bruce Lee que estava ministrando aulas de cha-cha-cha em Seattle e que ele também seria bom no Kung Fu. Os amigos de James, Wally Jay e Allen Joe, também confirmaram as habilidades de Bruce como artista marcial. Finalmente, em 1962, Bruce e James se encontraram após uma aula de cha-cha-cha. Após conversarem intensamente, ambos perceberam que eles teriam que se encontrar novamente para porem em prática algumas idéias em comum. No final de 1962, James visitaria Bruce novamente em Seattle e chegou a pensar em mudar para lá, mas suas obrigações com a família o impediram.
Em 1964, Bruce e Linda Lee, recém casados, se dispuseram a mudar para Oakland e foram convidados a morar com James Yimm Lee provisoriamente. Assim que se mudaram, a esposa de James falece repentinamente. Bruce e Linda permaneceram na casa ajudando até que as coisas se estabilizassem para James e seus dois filhos pequenos, Karena e Greglon Lee, até que as coisas se estabilizassem. É bom frisar que Bruce deixaria uma vida estável em Seattle, já que tinha seu primeiro “Jun Fan Gung Fu Institute” estabelecido e bem aceito na comunidade chinesa de Chinatown, que agora ficaria com o comando de Taky Kimura. Bruce havia despertado para as idéias inovadoras de James e considerado que o conhecimento e relacionamento deste com os mais diversos artistas marciais do circuito da região de San Francisco a Oakland poderiam lhe favorecer em experiência e lhe dar novas perspectivas.

Casa de James Yimm Lee em Oakland, onde Bruce e Linda Lee (recém casados) também residiram.

O Jovem James Yimm Lee e sua esposa Katherine, que repentinamente faleceria em 1964.

James Y. Lee e seu filho Greglon Lee.
A princípio, James e Bruce abriram o segundo Jun Fan Gung Fu Institute na Broadway, em Oakland, que inicialmente foi muito bem, tendo um retorno financeiro razoável, mas o sucesso não perdurou porque Bruce era seletivo com seus alunos e não se importava com a quantidade de inscritos, mas com a qualidade e dedicação dos alunos. Assim, o retorno acabou por não ser o desejado. O plano B foi acionado, ou seja, usar a ampla garagem da casa de James Yimm Lee como espaço para funcionamento da academia. A casa de James tinha dois níveis; o térreo era tomado por uma grande garagem, que era usado como oficina e sala de treinamento de James; o segundo nível consistia de um pequeno apartamento onde se acomodaram Linda e Bruce; e uma grande sala de estar conjugada que era ocupada por James e seus dois filhos. Durante o dia James trabalhava nos estaleiros como soldador, Bruce administrava a academia e Linda cuidava das tarefas da casa. Era o início de uma grande parceria que foi essencial para o desenvolvimento efetivo das artes marciais em todo o mundo.

James à frente (à direita) e Bruce mais recuado (à esquerda), por volta de 1964
em frente à sede da academia na Broadway, em Oakland. Mais tarde eles mudariam

para a garagem da casa de James Y. Lee.

A turma de Oakland, por volta de 1964, diante da garagem na casa de James Y. Lee, em Oakland.
Mesmo com a mudança de Bruce Lee para Los Angeles em 1966 para assumir o papel de Kato na série de TV “O Besouro Verde (The Green Hornet), James continuaria a ministrar no Jun Fan Gung Fu Institute de Oakland o “método” que, mais tarde, seria conhecido como Jeet Kune Do. Ele tinha o total aval de Bruce Lee que lhe concederia um raro diploma de capacitação que conquistado por poucos discípulos de confiança do Pequeno Dragão.

Certificado do Jun Fan Gung Fu Institute, concedido por Bruce Lee a James Yimm Lee
James Y. Lee segura a tábua  para Bruce Lee efetuar o quebramento com um chute lateral.


Mesmo na ausência de Bruce Lee, o incansável James chegava a conduzir quatro aulas por noite na academia depois de um dia inteiro de trabalho. Segundo testemunhas, James era simples e direto nas instruções, se o aluno perdesse alguma coisa durante o ensinamento, James não voltaria atrás para explicar. Ele exigia máxima atenção e que todos se entregassem duramente às aulas, cobrando respeito mútuo entre si, já que se tratavam de pessoas adultas e maduras.
Todos eram livres para desistir das instruções se quisessem, desde que fosse de comum acordo e não houvesse prejuízo para o aluno ou para a academia. Se o aluno demonstrasse interesse e esforço tinha a atenção e paciência do sifu James, ao contrário era descartado do corpo sem cerimônias.
Desde meados de 1960, James Yimm Lee e seus amigos também sino-americanos, Allen Joe e George Lee, já conheciam o Kung Fu desde a época de T. Y. Wong. Mas os três se desenvolveram efetivamente após conhecerem Bruce Lee e presenciarem a transição do Jun Fan Gung Fu para o Jeet Kune Do. Os três amigos que faziam regularmente a ponte entre Seattle e Oakland para aperfeiçoaram seu Kung Fu, passaram a ser conhecidos como “os Três Mosqueteiros”.

Bruce Lee com os 3 mosqueteiros: George Lee, Allen Joe e James Yimm Lee.
Ainda em 1964, ocorreria o famoso combate entre Bruce Lee e Wong Jack Man, que foi tratado neste blog na postagem anterior. O confronto foi conseqüência da rivalidade alimentada entre o mestre T. Y. Wong da Chinatown de San Francisco e de seu ex-aluno James Yimm Lee; como também resultado das constantes palestras e demonstrações de Bruce Lee pela Chinatwon, nas quais atacava sem piedade os estilos clássicos de Kung Fu, para ele fantasiosos, em comparação à suposta efetividade do Wing Chun. Para registro, cabe lembrar que apenas Linda Lee (grávida de Brandon) e o fiel escudeiro James Yimm Lee presenciaram a luta como testemunhas do lado de Bruce Lee. Após a luta polêmica que teve versões diferentes por parte de ambos os lutadores, Bruce considerou rever seus conceitos sobre artes marciais, avaliando inclusive os pontos negativos do Wing Chun e de seu condicionamento físico insatisfatório que comprometeu seu rendimento, apesar de ter ganho a luta, conforme as testemunhas ao seu favor.

Bruce Lee e James Yimm Lee trocando técnicas de Wing Chun.
O Wing Chun  foi a base para o Jun Fan Gung Fu desenvolvido por Bruce Lee auxiliado por James Lee.



Do Jun Fan Gung Fu originou-se o conceito do Jeet Kune Do.
Após chegar de um árduo dia de trabalho nos estaleiros, James Yimm Lee poderia contar com Bruce Lee lhe esperando para jantar, conversarem um pouco e descerem para a garagem para algumas horas de treino no desenvolvimento do Jun Fan Gung Fu. James tinha uma saúde de dar inveja, quem poderia chegar de um dia inteiro de trabalho e ainda ter disposição para treinar algumas horas a noite com o jovem e impetuoso Bruce Lee?
O amigo Wally Jay comentou certa vez que, naquela época, se alguém quisesse realmente aprender alguma coisa de Jeet Kune Do teria que ser com James Yimm Lee. Bruce com certeza era o dono das idéias e o inovador, mas James era o professor e o organizador. Bruce não tinha tanta paciência para ensinar. O que Bruce lhe passava James aplicava e ensinava aos alunos com responsabilidade e competência.  

A morte precoce e o Legado de James Yimm Lee - Tendo mudado com Linda para Los Angeles e se valendo do sucesso do personagem Kato de “O Besouro Verde”, em 1966, Bruce enxergou a oportunidade de abrir a terceira e última academia. Só que nesta sede não havia placa de identificação ou fachada que a identificasse como um local de treinamento de artes marciais. Os alunos continuavam a ser selecionados criteriosamente, inclusive algumas celebridades como o jogador de basquete Kareen Abdul Jabbar a freqüentavam regularmente. Nessa academia de Los Angeles que o termo Jeet Kune Do (Caminho de Interceptação com os Punhos) passou a ser adotado, foi onde também Bruce desenvolveu uma sólida parceria com Daniel (Dan) Inosanto, que passou a ser o instrutor chefe com o retorno de Bruce Lee para Hong Kong em 1971, para alcançar finalmente o estrelato mundial. 

Classe de 1967 em Los Angeles, nasce finalmente a filosofia do Jeet Kune Do.
Após a onda de sucesso com a série O Besouro Verde, que durou apenas uma temporada de 1966 a 1967, Bruce Lee só experimentou papéis coadjuvantes no cinema (como em Marlowe, em 1968) ou participações em série de TV (como Longstreet, ainda em 1971). Sentindo-se excluído por Hollywood por ser de origem chinesa voltou para Hong Kong em busca de mais experiência e realização profissional para assim se impor à Hollywood.

James Yimm Lee segurando um escudo para treinamento de futebol americano, usando nos treinos para aparar
os poderosos chutes laterais de Bruce Lee, por ocasião de uma visita às gravações de O Besouro Verde, em 1966.
Bruce Lee deixou as suas três academias nos EUA dirigidas por três instrutores de confiança,     que além disso eram também seus melhores amigos: Taky Kimura, em Seattle; Danny Inosanto em Los Angeles e James Yimm Lee, em Oakland.
O Jun Fan Gung Fu Institute de Oakland, coordenado por James Yimm Lee, revelaram alunos capacitados, porém discretos, como Bob Baker (que fez o lutador russo no filme “A Fúria do Dragão - Fists of Fury”, em meados de 1972), Howard Williams e Richard Bustillo.

Outra turma dos treinos em frente a garagem de James Yimm Lee, em Oakland.
O que levou jovem Bruce Lee a apostar na parceria com James Yimm Lee, 20 anos mais velho? O perfil de James diz tudo, ele era nativo de Oakland e conhecido por suas façanhas em lutas de rua na comunidade chinesa e ao mesmo tempo ele já estava em busca de um futuro mais real para as artes marciais, coisa que o jovem Bruce Lee ainda mal contemplava. James já publicava seus livros, criava seus próprios equipamentos de treinamentos graças ao seu talento para desenho, projetos e sua habilidade como soldador, o que proporcionava um ambiente moderno e efetivo para o seu salão de treinos.


James usava sua habilidade de soldador para criar aparelhos  específicos para
treinamento encomendados por Bruce Lee

Um "boneco de madeira" sofisticado desenvolvido por James Y. Lee

Fisiculturistas famosos que foram parceiros de treino de James Yimm Lee na década de 1950. Da esquerda
para a direita: Jack La Lanne, Steve Reeves e Tommy Kono.
James já havia antecipado décadas antes de Bruce Lee, a importância do condicionamento físico e muscular através do treinamento com pesos. Ele havia treinado com cultores físicos como Jack La Lanne; Steve Reeves (famoso fisiculturista campeão e intérprete de Hércules nas telas, na década de 1950); e o levantador de pesos, não menos vencedor, Tommy Kono. Allen Joe afirmou que se não fosse por James, Bruce não teria se interessado pelo treinamento sistemático com pesos. E ainda o mais importante, James considerava importante sua experiência como lutador de rua para testar a real eficiência das técnicas aprendidas formalmente em academias de ensinos tradicionais. Além de tudo isso, James tinha em seu círculo de relacionamento artistas marciais inteligentes, com espírito inovador e aberto à novas experiências, como o boxeador e judoca de origem chinesa, Wally Jay; o mestre eclético de Shorinji Kempo, Ralph Castro; o fisiculturista e ex-militar, autodidata no Kung Fu, Al Novak; o boxeador, lutador de Kung Fu e ator, Leo Fong; e o famoso e também inquieto faixa preta de Shorinji Kempo, considerado o “pai do Karate dos Eua”, Ed Parker.

Artistas marciais respeitáveis dentro do círculo de amizade de James Yimm Lee,
antes da chegada de Bruce Lee aos Eua. Da esquerda para a direita: Wally Jay,
Ralph Castro, Al Novak, Leo Fong e Ed Parker.
Foi James que apresentou Bruce à Parker, que na época estava organizando o Campeonato de Karate de Long Beach, na Califórnia. Ed Parker confiou na recomendação de James para convidar a Bruce para fazer a sua famosa e histórica demonstração no torneio que foi filmado e chamou a atenção dos produtores da série televisiva “O Besouro Verde”, que estavam atrás de um ator com traços orientais para representar o personagem de origem japonesa chamado, Kato.

Greglon Lee visitando o túmulo do seu pai, James Y. Lee.
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Greglon Lee (à esquerda) e amigo, visitando o túmulo do seu pai.



Túmulo de James Yimm Lee.
Como observou Greglon Lee, décadas depois da morte de seu pai, James Yimm Lee: “Bruce era esperto. Quando ele estava com seus vinte e poucos anos, ele procurou encostar nos caras com seus quarenta anos, para que ele pudesse ganhar mais experiência e conhecimento”.
No segundo semestre de 1972, Bruce Lee filmava seu terceiro filme, O Vôo do Dragão (The Way of the Dragon), quando ficou sabendo das dificuldades financeiras e do câncer nos pulmões contraído por James Yimm Lee, em conseqüência dos gases exalados durante boa parte de sua vida trabalhando como soldador nos estaleiros.

Bruce Lee e James Yimm Lee, por volta de 1970,  produzindo o material para o livro Wing Chun Kung Fu.

O livro "Wing Chun Kung Fu - Chinese Art of Self-Defense" lançado em 1972, sob a autoria de James Yimm Lee.
Neste mesmo ano Bruce autorizaria à James a lançar um material arquivado que ambos haviam produzido anteriormente, lançando-o como um livro intitulado, “Wing Chun Kung Fu – Chinese Art of Self Defense”. Bruce transferiu todos os direitos da obra para o amigo como uma forma de ajudá-lo. Mas infelizmente James faleceria pouco depois, em 30 dezembro de 1972, aos 52 anos, no mês de lançamento do filme, O Vôo do Dragão.  A ironia é que menos de oito meses depois, Bruce Lee morreria também de causas não totalmente esclarecidas, em Hong Kong.


Espero que tenham apreciado esta minha pequena homenagem ao ser humano, pai de família, trabalhador e incansável guerreiro, que sem dúvidas foi decisivo para o norteamento da vida de Bruce Lee ao ponto deste se tornar o artista marcial mais famoso de todos os tempos. Que Deus tenha misericórdia da alma do subestimado e visionário artista marcial, James Yimm Lee.


Por Eumário J. Teixeira               

sábado, 10 de dezembro de 2016

BRUCE LEE E A VERDADE SOBRE A LUTA CONTRA WONG JACK MAN


Deve ser lançado em 2017 um filme de produção hollywoodiana, intitulado “Birth of the Dragon” (A Origem do Dragão) com uma versão fantasiosa sobre um fato ocorrido em Oakland na Califórnia, 1964. 

Birth of the Dragon, um filme fantasioso que não conta realmente a realidade do confronto
 entre Bruce Lee e Wong Jack Man, ocorrido em dezembro de 1964.
O acontecimento foi histórico e decisivo para a carreira de pelo menos um dos dois protagonistas, no caso, Bruce Lee. É bom ressaltar previamente, que o jovem Bruce Lee aqui envolvido tinha apenas 24 anos de idade, tal como seu suposto desafiante, Wong Jack Man. Ambos estavam em busca de afirmação pessoal e eram muito impetuosos.
Bruce Lee por exemplo, ia além, chegava próximo da arrogância por ter tanta convicção do que  defendia, não se importando se ofendesse aos tradicionalistas que discordavam de suas idéias revolucionárias.  Ou seja, o Bruce Lee retratado aqui não tem nada a ver com o homem maduro que nove anos mais tarde protagonizava o clássico Operação Dragão (Enter the Dragon) e que já era considerado o “rei do Kung Fu” graças à sua diversidade técnica e capacidade de se adaptar e absorver os mais variados estilos de luta, além da notória rapidez e potência de seus golpes com mãos e pés, além de perícia no manejo do nunchaku japonês, dos bastões filipinos e bastão longo chinês, um verdadeiro mito vivo que faleceria de causas ainda não muito bem esclarecidas em julho de 1973, aos 32 anos.

Bruce Lee atuando em Operação Dragão nove anos após confronto com Wong Jack Man
Da mesma forma Wong Jack Man, que nos anos posteriores ao evento ocorrido em 1964, ficou na obscuridade e longe dos holofotes, ainda que continuando a praticar e ensinar Kung Fu nos EUA. Wong Jack Man permanece discreto até hoje aos 75 anos, apesar de muitos de seus alunos ou seguidores se pronunciarem ao seu favor vez ou outra em relação ao confronto, mas seu nome viria à tona novamente em razão do lançamento do filme Birth of the Dragon, anunciado para lançamento em 2017.   


Wong Jack Man,  continuou apegado às tradições após a luta com Bruce Lee
Mas tratarei aqui das duas versões mais conhecidas sobre a razão e o desfecho da luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man ocorrida em dezembro de 1964, na academia de Bruce Lee, ou Jun Fan Gung Fu Institute, em Oakland, na Califórnia. Bruce Lee já estava nos EUA há seis anos, em sua bagagem marcial ele havia trazido experiências de brigas de rua entre gangs de adolescentes e mais quatro anos de treinamento de Wing Chun Kung Fu, um estilo tradicional do sul, considerado “feio”, mas efetivo, sob os ensinamentos de um dos ícones das artes marciais chinesas tradicionais, o lendário Ip Man e tendo como instrutor particular, o agora saudoso, Wong Shun Leung, um dos alunos mais avançado de Ip Man na época.
Graças ao seu carisma, desejo de aprender e ambição profissional, Bruce Lee se relacionou com algumas pessoas mais experientes e decisivas para seu progresso nas mais diversas artes marciais durante seus primeiros anos nos EUA. Posso citar nomes como James Yimm Lee, praticante de judô e Kung Fu; Daniel Lee, ex-campeão de boxe; Dan Inosanto, praticante de Kempô (versão japonesa do Kung Fu) e de sistemas de lutas filipinas com ou sem armas brancas; Jhoon Rhee (professor graduado de Taekwondo); Gene Lebell, campeão de Judô e Vale Tudo; Ed Parker, considerado o pai do Karatê nos EUA (na verdade Parker era faixa prêta de Kempô), etc.

As muitas influências de Bruce Lee em busca pela verdade nas artes marciais, da esquerda para a direita,
Gene Lebell, Ed Parker, Jhoon Rhee, Daniel Lee, Danny Inosanto e Jimmy Yimm Lee.
Mas, com certeza, Bruce Lee não saiu de Hong Kong formado em Wing Chun e muito menos poderia ser considerado um mestre, pois tinha apenas 18 anos e, se ele teve alguma evolução em artes marciais, foi graças ao seu relacionamento com os mais diversos artistas marciais durante sua permanência nos EUA, dentre os citados anteriormente poderíamos acrescentar também os nomes de Joe Lewis, Chuck Norris, Bob Wall, dentre outros, campeões experientes com quem ele se relacionaria e trocaria conhecimentos até retornar para Hong Kong para se tornar um astro do cinema de filmes de Kung Fu em 1971.
Segundo depoimento do mestre Wong Chun Leung, contemporâneo  da juventude de Bruce Lee e que além de amigo, foi também seu instrutor direto de Wing Chun na escola de Ip Man, Bruce teria absorvido as principais técnicas de Wing Chun de forma rápida e surpreendente.

O jovem Bruce Lee com seu amigo e "instrutor particular" de Wing Chun,  Wong Shun Leung,
na década de 1950

Wong Shun Leung "rolando as mãos" em cima da mesa
É fato que Bruce Lee tinha um dom especial para absorver quase que instantaneamente as técnicas que lhe eram transmitidas e que mais tarde procurou em outros sistemas de lutas pontos positivos que pudessem contribuir para tornar seu “sistema” de combate cada fez mais efetivo. Mas, em 1964, aos 24 anos, o jovem Bruce Lee não poderia ser taxado de “mestre”, ainda que dominasse as principais técnicas de Wing Chun e conhecesse alguns movimentos de outras escolas de Kung Fu como o Choy Lay Fut, por exemplo. Creio que da mesma forma seu oponente, Wong Jack Man, apesar de muitos defenderem que este já era dono de uma técnica notável dentro do estilo que adotou, o Shaolin do Norte, estilo tradicional desenvolvido no lendário Templo de Shaolin com base no movimentos dos animais e da natureza, composto por 10 katis (ou formas) com ou sem armas dentro do currículo de formação do estilo.  

Wong Jack Man na época do confronto com Bruce Lee (à esquerda) e
anos mais tarde (à direita) já como mestre de Kung Fu Shaolin do Norte
Wong Jack Man chegou em San Francisco naquele mesmo ano e não tinha as mesmas ambições de Bruce Lee de conquistar a fama e o “sonho americano”, mas certamente queria fundar sua própria academia na Chinatown de San Francisco e prosperar, ensinando artes marciais da melhor forma tradicional dos antigos mestres chineses.  Como já foi citado, seu estilo de Kung Fu era o Shaolin do Norte e apesar de tão jovem, Wong Jack Man ficou conhecido por ter uma técnica refinada e plástica . Seu estilo ao contrário do Wing Chun do Sul da China, era pautado por movimentos circulares, saltos, giros, e chutes espetaculares. Wong Jack Man era um praticante de uma escola tradicional fechada para outros estilos considerados rivais, mas em contrapartida, era considerando um lutador capacitado e respeitado entres os seus. No filme que será lançado para em 2017, Wong Jack Man é retratado como um monge Shaolin renegado fugido da China comunista, o que não tem nada a ver com a realidade; Wong Jack Man veio das escolas de Hong Kong e nunca foi monge ou freqüentou um templo budista.
Sobre a fama que precedeu aos dois, há registros de lutas de rua e desafios nos terraços dos prédios de Hong Kong envolvendo o jovem lutador de Wing Chun Bruce Lee, inclusive um confronto em maio de 1958 contra uma aluno da escola Shaolin do Norte chamado Robert Chung, parceiro do até então desconhecido Wong Jack Man, a quem Bruce Lee teria vencido no segundo assalto. O outro confronto ocorreu contra um jovem lutador, membro da Triad, em 1959, que teria sido ferido seriamente por Bruce Lee. Esse incidente teria sido um dos fatores determinantes para que Bruce Lee saísse às pressas de Hong Kong para fugir de represálias da máfia.
Quanto ao passado de Wong Jack Man em Hong Kong, nada se tem sobre ele em relação ao seu envolvimento nessas disputas habituais entre os jovens de escolas rivais em Hong Kong. Para se ter uma idéia, segundo conta a história, os nomes mais populares dos jovens lutadores que testavam suas habilidades nos terraços longe dos olhos da rigorosa polícia chinesa local no final dos anos de 1950, eram os de Wong Shun Leung (aluno de Ip Man e instrutor particular de Bruce Lee, na época); Wang Kiu, Lok Yiu e Tsui Sheung Tin. Já nos anos de 1960 são citados Dave Lacey (conhecido como o “Pantera Negra” do Choy Lay Fut); seu irmão Vince Lacey, Ling Hing, Leung Cheung Gwun, etc.

O famoso e lendário "General" Dave Lacey,  o "Pantera Negra" do Choy Lay Fut de Hong Kong. Nas duas primeiras fotos à esquerda pousando e lutando  em Hong Kong no final da década de 1950; e à direita, nos anos de 1990.
Abrindo uma observação sobre Dave Lacey, ele  era jovem lutador de Choy Lay Fut respeitado pelos rivais das outras escolas de Kung Fu de Hong Kong no final da década de 1950 e início dos anos de 1960. Ele era alto para os padrões chineses, mas sua agilidade, rapidez e ímpeto para o ataque causavam temor a seus adversários nas disputas ocorridas nos terraços dos prédios da cidade. Bruce Lee era um pouco mais  jovem que Lacey, mas o tinha como amigo e o admirava como lutador, tendo muito respeito pelo sistema Choy Lay Fut, considerando-o um dos poucos estilos eficientes que podiam garantir um lutador contra dois ou mais adversários ao mesmo tempo. 

Bruce Lee nos bastidores de "A Fúria do Dragão" (1972) em Cingapura, cumprimentando  
o mestre de Kung Fu Choy Lay Fut,  Kwan Mun King
Em resumo não existe nenhum dado ou menção sobre algum envolvimento de Wong Jack Man nas disputas entre os jovens lutadores de Hong Kong; ou seja, quando Wong Jack Man chegou em San Francisco em meados de 1960, não era famoso ou reconhecido como um lutador de renome, mas como um praticante mediano de Shaolin do Norte. Mas isso também não quer dizer que ele não tinha habilidades ou não era capaz como um lutador por ser mais reservado.   E finalmente, as duas versões mais aceitas para a razão do duelo e seu desfecho são as das testemunhas de cada lado que lá estiveram e presenciaram. Assim, temos a versão um pouco contraditória e confusa de Linda Emery, na época noiva de Bruce Lee (já grávida de Brandon que nasceria em fevereiro de 1965) e das testemunhas  de Wong Jack Man (ainda vivo) que,  aliás, nunca se manifestou pessoalmente a respeito. As testemunhas confirmadas do lado de Bruce Lee eram Linda e James Yimm Lee (um dos primeiros e mais fiéis parceiros de Bruce Lee nos EUA).
As testemunhas do lado de Wong Jack Man, não foram satisfatoriamente identificadas pela história. Mas algumas versões citam a David Chin e William Chen, ambos praticantes de Tai Chi Chuan.
As duas versões para a razão da Luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man – A primeira versão é a considerada oficial e dada por Linda Emery. Apesar de James Yimm Lee estar presente ao lado de Linda, não se tem nenhum  registro de sua versão para os fatos ocorridos  no Jun Fan Gung Fu Institute de Bruce Lee em 1964; já que James teria falecido precocemente em decorrência de um câncer, em dezembro de 1972. Segundo Linda, mesmo estando em Oakland, no outro lado da baía, Bruce incomodava aos mestres chineses das escolas de San Francisco por insistir em ensinar aos não chineses, brancos, negros e hispânicos, os segredos das artes marciais sem a devida permissão dos “chefões” que controlavam as comunidades de origem oriental.  Desta forma, foi enviado a Bruce Lee através de David Chin, um desafio em nome dos chefões das escolas de artes marciais chinesas tradicionais  propondo a Bruce Lee uma luta contra seu representante, para decidirem através do resultado do confronto se  ele podia ou não ensinar a não chineses. Bruce teria recebido o ultimato no Jung Fan Gung Fu Institute e, de imediato, ironizou aceitando prontamente o desafio sugerindo ainda que fosse realizado o confronto o mais rápido possível.

Bruce Lee em 1964: Nas duas primeiras fotos à esquerda, em demonstração para participantes do 
Torneio de Long Beach em hotel, um dia antes do evento; a seguinte,  Bruce e James Lee no Instituto de Oakland; 
 e na última foto à direita, pousando com seus alunos em frente à garagem da casa de James Lee,
 também em Oakland.
A segunda versão é a defendida por algumas testemunhas a favor de Wong Jack Man. Segundo consta, o jovem Bruce Lee em meados da década de 1960, tinha o hábito de perambular pela Chinatown de San Francisco para avaliar as escolas dos mais variados estilos de Kung Fu existentes por lá. O problema é que Lee costumava fazer críticas diretas aos estilos muito floreados, segundo ele, e presos às tradições às quais ele ainda julgava fantasiosas e ineficientes. E em contrapartida exaltava a praticidade e efetividade do Wing Chun, que praticava. 
Em algumas demonstrações realizadas em teatros ou salões geralmente tendo como companhia e parceria, James Yimm Lee, ele criticava diretamente e sem rodeios os outros estilos de Kung Fu ou mesmo artes marciais de origem japonesa sem ter o conhecimento aprofundado sobre as mesmas. Num desses eventos chegou a desafiar qualquer um da platéia que duvidasse de sua capacidade e da superioridade do Wing Chun.
Conta-se que Bruce Lee ousadamente teria visitado uma escola tradicional de Kung Fu Shaolin do Norte de San Francisco, em meados de 1960, e desafiado o veterano mestre T. Y. Wong, que não aceitou seu desafio por respeito ao pai de Bruce que ele conhecia. Bruce Lee teria insistido em desafiar aos  alunos graduados, mas foi forçado por T. Y. Wong a se retirar.

T. Y. Wong, que teria sido desafiado por Bruce Lee, foi ex-mestre de Jimmy Yimm Lee
Esse incidente pode ter tido um dedo de Jimmy Yimm Lee, parceiro de Bruce, mas que havia sido um aluno regular e colaborador de T. Y. Wong. Chegaram a editar o que foi considerado o primeiro livro sobre Kung Fu em língua inglesa nos Estados Unidos em 1961, intitulado “Kung Fu – Original Sil Lum System”. Uma parceira que teria sido desfeita por um desacordo envolvendo dinheiro.

Os três primeiros livros editados em inglês sobre Kung Fu nos EUA.
Bruce Lee também lançaria o único livro de sua autoria em 1963, intitulado Chinese Gung Fu – The Philosophical Art of Self Defense, contando também com a colaboração de James Yimm Lee, onde separou um capítulo para contestar as técnicas apresentadas pelo sistema de T. Y Wong.

Páginas do livro de Bruce Lee em que ele contesta certas técnicas 
do estilo Shaolin do Norte defendido por T. Y. Wong
Nesta atmosfera de rivalidade, entra Wong Jack Man, que sabendo de toda essa petulância do jovem Bruce Lee e de seus desafios  lançados aos lutadores chineses das escolas tradicionais da Chinatown, resolveu desafiá-lo, mas sem o endosso dos mestres chineses da Chinatown de San Francisco, que  também não o impediram de ir adiante. Cabe salientar que Wong Jack Man tinha a mesma idade de Bruce, 24 anos, e procurava o respeito da comunidade chinesa como um lutador que respeitava as tradições das escolas e culturas chinesas e certamente viu nessa oportunidade de confronto com o falastrão Bruce Lee uma oportunidade de “fazer seu nome” entre os mestres chineses de San Francisco.
Então, qual dessas duas versões lhe parece mais verdadeira?
As duas versões para a luta entre Bruce Lee e Wong Jack Man e o seu desfecho – A primeira versão sobre a luta é a oficial e também defendida por Linda Emery, que estava noiva e grávida de Brandon na época, citada também em seu livro “Bruce Lee – The Man Only I Knew”. Mesmo essa versão de Linda apesar de ser a mais aceita pelos fãs de Bruce Lee e defendida por alguns mais próximos do círculo de amizade da família Lee, teria sofrido deturpações fantasiosas para filmes, séries e documentários. De qualquer maneira há uma controvérsia, pois há relatos em que se afirma que Linda não presenciou a luta preferindo ir para uma sala ao lado, enquanto James Yimm Lee teria permanecido com Bruce e presenciado todo o confronto e pronto para um imprevisto, sendo que alguns dizem que ele estava armado com uma arma de fogo.

James Yimm Lee, dissidente da escola de T. Y. Wong para se tornar
um dos parceiros fundamentais para a trajetória vitoriosa de Bruce Lee
Mas a maioria concorda que  Linda permaneceu presente durante toda a luta. De acordo com a narração de Linda, Wong Jack Man chegou de forma receosa, como se desculpasse por tudo aquilo e propôs que fizessem apenas uma troca de técnicas sem  que houvesse a necessidade de golpear um ao outro duramente. Bruce Lee a essa hora já estava profundamente irritado e impaciente, e ao sentir o vacilo do adversário declarou que  a luta seria sem regras, valeria tudo e só terminaria com o nocaute ou coma a desistência do adversário. Tal reação teria surpreendido Wong Jack Man e sua comitiva. Assim, os dois oponentes de cumprimentaram formalmente e se afastaram um pouco.  Bruce logo tomou a iniciativa partindo para cima de Wong Jack Man aplicando socos diretos característicos do Wing Chun. 


Bruce Lee teria partido para cima de Wong Jack Man com socos diretos
característicos do Wing Chun, segundo Linda Emery
Wong Jack Man defendia como podia recuando e sem a possibilidade de contra-atacar em virtude do ímpeto de Bruce Lee ao atacar. De repente a luta quase se torna cômica porque Wong Jack Man chega a dar as costas a Bruce Lee que o persegue pelo salão socando sua nuca. Finalmente Bruce teria derrubado Wong Jack Man  ao chão e com o punho cerrado sobre seu rosto o obriga a desistir. Linda ainda afirma que Lee o arrastou pelos pés e expulsou a  ele e suas testemunhas de  sua escola. Em seguida Bruce Lee confessaria a James e a Linda que estava exausto e decepcionado com sua performance. A luta teria durado pouco mais de três minutos, de acordo com Linda. Mas foi decisiva para Bruce Lee reformular seus conceitos sobre Artes Marciais e buscar formular um estilo mais eficiente e flexível, o que seria mais tarde conhecido como Jeet kune Do. Mas o que importava era que Bruce Lee a partir daí poderia ensinar a quem ele quisesse.


Bruce Lee e Linda Emery noivos em meados da década de 1960
A segunda versão foi dada por quem acompanhou Wong Jack Man, duas delas foram os praticantes de Tai Chi Chuan David Chin e William Chen e foi defendida pelos anos que se seguiram pelos discípulos de Wong Jack Man. Segundo os acompanhantes de Wong, Bruce Lee teria feito uma observação sarcástica, antes do início da luta, dizendo que David Chin, na verdade, lhe teria entregue a sentença de morte do próprio Wong Jack Man. Em seguida, ambos os lutadores se cumprimentaram formalmente e se afastaram, quando Wong Jack Man supostamente de maneira cordial estendeu a mão para Bruce Lee para um cumprimento informal. Bruce teria ignorado o movimento como inofensivo e lançou sua mão direita com os dedos esticados numa estocada direta a um dos olhos de Wong Jack Man que se desviou a tempo com um movimento mas sofrendo um arranhão na testa. 

Bruce não teria hesitado em usar o jab com as pontas dos dedos (biu jee) contra Wong Jack Man
Para Wong tinha ficado claro que Bruce estava decidido a acabar com a luta da forma mais rápida e dolorosa para o adversário. Bruce continuou avançando em linha reta com estocadas nos olhos, variando com socos diretos e pontapés frontais na altura da virilha de Wong que tentava se deslocar lateralmente. 

Segundo as testemunhas de Wong Jack Man, Bruce Lee foi ao ataque com sequências socos diretos,
chutes baixos e estocadas nos olhos
A luta perdurava cada vez mais frenética com Wong  recuando e tentando bloquear os ataques de Lee até que conseguiu atingi-lo na altura lateral do pescoço com o  dorso da mão  fazendo com que Bruce  se dobrasse o corpo defensivamente. Wong ainda teria prendido a cabeça de Lee por uma ou duas vezes com o braço e pode desferir golpes contra ele, mas não o fez por receio de feri-lo seriamente. A medida que o tempo  passava Bruce Lee ficava mais furioso e impaciente porque seus golpes não atingiam o alvo adequadamente. Wong por sua vez, teria declarado posteriormente que evitou usar seus chutes poderosos característicos do Shaolin do Norte por temer que fossem danosos demais para seu adversário. 

Chutes do estilo Shaolin do Norte demonstrados por Rick L. Wing, discípulo de Wong Jack Man
Mas pensou em usá-los em certo momento ao perceber que Bruce Lee parecia realmente querer feri-lo gravemente ou mesmo matá-lo. Por fim, ao adotar mais as técnicas defensivas em recuo, Wong Jack Man acabou por tropeçar e caiu. Bruce Lee saltou para cima dele para acabar de vez com a luta mas as testemunhas de ambos os lados interferiram e os separaram, já que Bruce Lee também demonstrava exaustão e Wong Jack Man estava em situação vulnerável no chão. A comitiva de Wong Jack Man afirmou que a luta  teria durado em torno de 20 a 25 minutos, um tempo bem acima da versão de Linda Emery.
Após a luta, os dois lados acordaram em não comentar mais nada fora daquele recinto e não foi definido quem teria sido o vencedor. Algum tempo depois Bruce Lee teria citado em uma entrevista que teria enfrentado um lutador de Kung Fu clássico e o teria vencido, mas não citou o nome de Wong Jack Man, que por sua vez teria proposto indiretamente a Lee outro desafio, uma tira-teima em local aberto ao público. Bruce não retornou a provocação.

Wong Jack Man já consagrado como mestre de Kung Fu Shaolin do Norte, anos após o polêmico confronto
E então, qual a versão seria verdadeira? Independentemente da verdade, ambos aprenderam com o confronto. Bruce Lee percebeu finalmente que o Wing Chun apesar de ser um estilo enxuto e prático, tinha suas limitações e o seu preparo físico estava aquém do ideal para uma situação de luta real. A  partir dessa experiência é que ele reviu seus conceitos sobre as artes marciais concluindo que cada estilo de luta seja lá de qual origem for, tem seus pontos positivos e negativos que podem ser absorvidos ou descartados de acordo com o perfil de cada lutador. Wong Jack Man com certeza percebeu que plasticidade e técnica refinada de nada valem sem espírito de luta e efetividade num  combate de vida ou morte.
É bom sempre lembrar que naquele dezembro de 1964, Bruce Lee e Wong Jack Man eram apenas dois jovens artistas marciais de 24 anos, ambiciosos, de certo modo imaturos e muito aquém de serem considerados “mestres”, mesmo considerando o incomum e precoce talento de ambos como lutadores. Não há como enxergar, por exemplo, o jovem Bruce Lee de 1964 com conhecimento técnico e destreza suficientes para coreografar as cenas de lutas de A Fúria do Dragão (1972), O Vôo Do Dragão (1972), Operação Dragão (1973) e o inacabado O Jogo da Morte (1978). A evolução técnica dele foi notória, da mesma forma deve ter sido para Wong Jack Man nos anos que se seguiram.




A evolução técnica de Bruce de 1964 a 1973 se tornou evidente nas telas dos cinemas
Bruce Lee posteriormente chegou ao estrelato e fama mundial graças aos seus filmes, filosofia, concepção revolucionária e libertária sobre as artes marciais, gerando o que ele denominou Jeet Kune Do (O Caminho do Punho Interceptor) que influenciou direta ou indiretamente nas práticas de treinamento e luta para a maioria dos esportes de combate até hoje.
Por sua vez, Wong Jack Man prosseguiu seguindo a tradição ancestral da sua escola e de forma reservada, se tornando mestre, formando professores e estes por sua vez direcionado seus discípulos dentro do melhor estilo chinês.
Para terminar, dizem  que quando a poeira se assentou algum tempo depois do confronto, Bruce entrou num restaurante onde Wong Jack Man trabalhava como garçom e se aproximando, lhe disse descontraidamente algo parecido como: “Ei cara,  não leve tudo isso a sério, eu só queria fazer o nome da minha escola”.
Numa próxima postagem, farei uma homenagem a James Yimm Lee, um dos primeiros parceiros e amigos de Bruce Lee nos EUA e com certeza um dos principais apoiadores do Pequeno Dragão na sua busca incessante pela efetividade do combate corpo a corpo.

Ver também: A Origem do Dragão (Birth of the Dragon), Verdades e Mentiras - Análise Crítica do Filme

Por Eumário J. Teixeira.     

domingo, 2 de outubro de 2016

BRUCE LEE E A LESÃO NAS COSTAS QUE QUASE O DEIXOU PARALÍTICO


O final da década de 1960 foi difícil para Bruce Lee e sua família. Estavam com muitas dívidas, inclusive com a hipoteca de sua primeira casa que não conseguiam pagar. Apesar do sucesso da série de TV “The Green Hornet” (O Besouro Verde – 1966-67), de sua bela participação no seriado Ironside (1967) e de sua explosiva exibição no filme Marlowe (com James Garner, 1969), Hollywood não oferecia papéis de protagonista a Bruce Lee. E infelizmente, seus ganhos com as aulas particulares de Jeet Kune Do à atores renomados, não eram suficientes para cobrir suas despesas. Mas se não estava bom, o pior ainda estava por vir. Bruce percebia que era discriminado por Hollywood por ser de origem asiática e isto sinalizava de algum modo que, apesar de reconhecerem seu talento, não estavam dispostos a acolher uma estrela de traços orientais, ainda que um cidadão americano, no seu seleto elenco de celebridades.

Bruce Lee em Marlowe (1969), poucos meses antes da lesão nas costas
Nesta fase da vida, Bruce Lee cogitou seriamente em abrir uma rede de escolas de artes marciais, mas de qualquer forma precisaria de capital para investir nesse projeto audacioso.
Porém, no dia 13 de agosto de 1970 (para os supersticiosos, dia e mês de azar), precisamente numa quinta-feira, por volta das 10:30 da manhã, Bruce seguia sua rotina diária de treinamentos em sua casa. Quando resolve se exercitar com pesos, ele toma uma barra longa para realizar um procedimento específico chamado de “good morning”. Com as pernas levemente dobradas e a coluna esticada, ele se dobra à frente com a barra segura por trás do pescoço até ficar paralelo ao chão para então retornar à posição inicial. Por um descuido não habitual naquele dia, Bruce não teria feito um aquecimento preliminar para se exercitar com a barra ou não o teria feito corretamente. De repente ele sente uma forte estalo em sua parte inferior das costas, seu quarto nervo sacral teria sido seriamente lesionado com o esforço. Ele deixa a barra cair e dobra os joelhos vencido pela dor.

Bruce Lee e a barra com pesos similar a que lhe causou o terrível acidente que o imobilizou

O exercício com barra conhecido como "good morning" ou "bom dia" que lesionou Lee

Versão para os quadrinhos do dia 13 de agosto de 1970, quando da lesão de Bruce Lee
O que aconteceu em seguida e que é mais aceito pelos que buscam a verdade sobre o acidente, é que Bruce tentou remediar sua lesão com tratamentos térmicos e massagens por vários dias, mas como o incômodo era crescente e não passava, resolveu procurar um médico especialista. Nos próximos 6 meses ele pára com os treinos, passa a se movimentar com cuidado e leva a maior parte do seu tempo em repouso ou às vezes sentado na sala onde ostentava sua vasta biblioteca.

Versão para os quadrinhos sobre a convalescença de Bruce Lee no leito e sua reavaliação sobre as artes marciais
Nas versões românticas para as telonas, depois do acidente, ele teria sido confinado à imobilização total por alguns meses numa cama especialmente desenhada para ele. A imobilização favoreceria a recuperação do nervo lesionado levando-o ao estágio seguinte, a cadeira de rodas. Mas não foi bem assim.
Entretanto, tanto na fantasia quanto na realidade, após vários exames chegou-se à conclusão de que ele nunca mais poderia andar corretamente e que deveria descartar definitivamente a possibilidade de praticar certos movimentos característicos das artes  marciais, ou seja, nada de chutes ou saltos mirabolantes.
Imaginem o que passou pela mente de Lee quando ouviu esse terrível diagnóstico. Um jovem de 30 anos em plena forma física, cheio de projetos para sua vida e de repente o mundo desaba sobre ele.
Mas Bruce Lee tinha muita determinação e uma força mental incrível e, aceitando a necessidade do “repouso temporário” na prática das artes marciais, voltou sua energia para dar prosseguimento ao desenvolvimento de suas idéias à respeito da praticidade das artes de combate e a buscar o caminho que o levasse a se tornar um lutador mais eficiente, livre das ilusões sistemáticas.

Versão dos quadrinhos sobre a incrível recuperação de Bruce Lee
É bom lembrar que Bruce Lee já estava desenvolvendo conceitos inovadores para a arte do combate muito antes desse acidente com a barra. Desde o confronto com Wong Jack Man em 1964, ele já estava reavaliando seu ponto de vista sobre a eficiência do Wing Chun, considerando também os pontos positivos do boxe, wrestler, judô, savate, esgrima ocidental, etc. O processo natural foi que ele saltaria do Wing Chun para o Jun Fan Gung Fu e finalmente para o Jeet Kune Do.
Ele também recorreu à sua rica biblioteca que continha além de livros sobre as mais diversas artes marciais orientais e ocidentais, obras variadas de filosofia, psicologia, auto-ajuda e livros de cunho motivacional. Isso seria sua sustentação naquele momento crítico de sua vida, pois já que seu corpo estava momentaneamente inoperante, ele teria que manter sua mente e intelecto afiados. Assim, Lee recorreu à diversos autores como Buda, Alan Watts, Carl Rogers, Lao-Tse, Frederick Perls, Daisetz Suzuki e Jiddu Krishnamurti.

Bruce Lee em sua incrível biblioteca particular com mais de 2.500 títulos
Uma da frase motivacional que ele se apegou na época, foi “Walk On!” (siga em frente). Bruce Lee escreveu essa frase em diversos cartões e os espalhou por todos os cômodos da casa para que não se esquecesse de sua finalidade, que era de persistir até conseguir sua total recuperação. Aos poucos, graças ao trabalho de fisioterapia, passa a andar com mais confiança e a praticar exercícios de alongamentos e yoga com regularidade até conseguir soltar socos e chutes de forma moderada.

"Walk On" ou "siga em frente", a frase motivacional que conduziu Lee à reação
Após sua incrível recuperação, Bruce teria emoldurado aquela frase motivacional “Walk On”, colocando-a num lugar de destaque em sua casa, para que nunca mais se deixasse abater com qualquer situação. Suas anotações e desenhos resultantes de estudos feitos e extraídos dos diversos livros de artes marciais e de filosofias que leu durante sua convalescença, foram editados posteriormente depois de sua morte por Linda Lee, no que resultou na obra (ainda que não definitiva) “Tao do Jeet Kune Do”.

Depois do confronto com Wong Jack Man, Lee reviu seus conceitos sobre as artes marciais, o primeiro passo foi elaborar o Jun Fan Gung Fu (Kung Fu de Lee Jung Fan) que era uma mescla de Wing Chun com outros estilos de Artes marciais chinesas.

O livro editado por Linda Lee, "Tao of Jeet Kune Do", não era um tratado definitivo do Jeet Kune Do, mas apenas um apanhado de anotações, desenhos e reflexões de Bruce Lee feitos durante sua convalescença após a sua lesão nas costas em  1970.
Graças à influência de filósofos, como Jiddu Krishnamurti, ele teria desenvolvido o conceito de Jeet Kune Do (O Caminho da Intercepção dos Punhos). A filosofia que definia o Jeet Kune Do foi largamente difundida nos dois primeiros episódios de “Longstreet” (série de televisiva policial com James Franciscus, em meados de 1971) dos quais Lee participou graças ao convite do produtor Stirling Silliphant, seu amigo e discípulo, que lhe amparava há pouco menos de um ano depois dele ter se lesionado gravemente durante os treinos. Lee parecia estar completamente recuperado.

Bruce Lee em Longstreet com James Franciscus em meados de 1971, aparentemente recuperado de sua lesão nas costas. Foi uma excelente oportunidade dada a ele pelo seu amigo Stirling Silliphant para divulgar a filosofia do Jeet Kune Do.
Ainda em 1971, Bruce Lee retorna para Hong Kong esperançoso, mas se sentindo rejeitado por Hollywood. Aproveitando a fama conquistada e o reconhecimento pelo seu trabalho em O Besouro Verde como Kato, ele se oferece a produtores locais e inicia a carreira de ator de filmes de artes marciais que o consagraria mundialmente. O primeiro filme foi The Big Boss (O Dragão Chinês) lançado em outubro do mesmo ano. Quem assistiu ao filme no ano de seu lançamento certamente ficou admirado com a performance do “Pequeno Dragão” sem sequer imaginar que alguns meses antes ele estava praticamente condenado a não mais praticar artes marciais pelo resto de sua vida.

Bruce Lee em O Dragão Chinês (The Big Boss - 1971), surpreendendo com sua técnica e vigor físico.
Mas o incômodo nas costas nunca o deixou definitivamente, ele se viu obrigado a tomar um medicamento específico que amenizava a dor que regularmente o perseguia durante os sets de filmagens e, inclusive, diziam as más línguas que ele passou a usar a marijuana regularmente para amenizar seu sofrimento. Ninguém sabe ao certo o que ele sofria fisicamente para manter aquela imagem de imbatível lutador e consagrado “rei do Kung Fu”. Sua breve vida foi literalmente uma luta, e não temos a dimensão do esforço e do custo de tudo isso para ele, principalmente nos seus três últimos anos de vida, do dia 13 de agosto de 1970 a 20 de julho de 1973.
Uma mesma versão fantasiosa, endossada pela viúva e pela filha de Bruce, chegou às telas do cinema e da TV nos últimos anos contando uma versão dramática e fictícia sobre o que causou aquela lesão que Bruce Lee teria sofrido naquela manhã de agosto de 1970. No filme “Dragão: A História de Bruce Lee” (de 1993, com Jason Scott Lee), que foi baseado no livro de Linda Lee (“The Man Only I Knew”), ou mesmo na série de TV produzida em Hong Kong, “The Legend of Bruce Lee” (de 2008, com Danny Chan) com a produção executiva de Shannon Lee, ambas retrataram que o terrível ferimento teria sido ocasionado por conta do confronto em que Bruce Lee teria tido com um professor rival de Kung Fu estilo Shaolin do Norte, chamado Wong Jack Man. 

Bruce Lee com James Yimm Lee na época do provável confronto com Wong Jack Man


Na Versão para o cinema (1993), Bruce Lee enfrenta Wong Jack Man...

...e depois de ser declarado vencedor, é atacado covardemente pelas costas!

Na versão de "Dragão: A História de Bruce Lee" a recuperação é muito dramática
Segundo a versão fantasiosa, sob a imposição dos líderes mafiosos da Chinatown de San Francisco, Bruce só teria o direito de administrar aulas aos não chineses se vencesse em combate Wong Jack Man, que o teria desafiado oficialmente. O confronto se deu e Bruce teria vencido a luta de acordo com as testemunhas presentes, inclusive a própria Linda Lee. Mas na versão para o filme e também para a série de TV, após ser derrotado, Wong Jack Man teria golpeado Bruce Lee covardemente pelas costas causando-lhe a grave lesão.

Capa do filme em DVD de "Dragão: A História de Bruce Lee", uma versão fantasiosa com o endosso de Linda Lee

Capa do DVD da série de TV de Hong Kong recheada de elementos fictícios, The Legend of  Bruce Lee (Bruce Lee, a Lenda),  com o aval de Shannon Lee
Ora, é claro que não foi assim que ocorreu. Na verdade, Bruce Lee teria enfrentado Wong Jack Man (ambos com 24 anos) em dezembro de 1964, Linda estava presente e grávida de Brandon Lee (que nasceria dois meses após, em fevereiro de 1965). Outro que foi testemunha foi Jimmy Yimm Lee (falecido de câncer em 1969), um dos primeiros discípulo e parceiros de Bruce; além de William Chen, professor de Tai Chi Chuan e outras testemunhas do lado de Wong Jack Man. Esse confronto desgastante foi o que levou a Bruce Lee a questionar a real eficiência do Wing Chun e sua própria condição física. A lesão nas costas só ocorreria verdadeiramente seis anos após, em sua casa pela manhã, durante um exercício com pesos mal executado.


Bruce Lee em 1964, aos 24 anos, provavelmente na época do confronto com Wong Jack Man,
com seus alunos da academia  de Oakland

Wong Jack Man, o jovem lutador do estilo Shaolin do Norte que ousou desafiar
o impulsivo Bruce Lee na sua própria academia no ano de 1964

Wong Jack Man, muito técnico e estiloso, mas quem realmente venceu o confronto?
Deus é soberano sobre nossas vidas, quer creiamos ou não. Bruce Lee creu em si mesmo e na sua própria força para se recuperar fisicamente, mas é certo que sua vitória ocorreu com a permissão do nosso Senhor. Mas é inegável que Bruce Lee era um guerreiro, revolucionário e inovador e sem o seu surgimento, talvez as artes marciais não teriam evoluído ou não despertariam tanto interesse mundial como hoje em dia, 43 anos depois de sua morte. E como costumo frisar, a vida real do Pequeno Dragão era mais rica e intensa do que qualquer obra de ficção cinematográfica. Em um próximo post tratarei do polêmico confronto entre os jovens lutadores Bruce Lee e Wong Jack Man ocorrido no ano  de 1964 em Oakland, na Califórnia. Assunto controverso até os dias de hoje.

Eumário J. Teixeira.