Os Heróis nunca morrem!

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Heroes never die!

domingo, 5 de junho de 2016

BRUCE LEE E A CONEXÃO COM O SAVATE FRANCÊS


Quando Bruce Lee saiu de Hong Kong aos 18 anos de idade para exercer sua cidadania norte-americana, já havia treinado Wing Chun Kung Fu na academia do lendário Yip Man, sob a orientação do jovem professor Wong Cheung Leung por quatro anos. Além disso, tinha muita experiência em brigas de rua, noções de esgrima ocidental (seu irmão Peter, foi campeão em Hong Kong) e conhecia determinadas técnicas de alguns estilos de Kung Fu do norte da China. Nos Estados Unidos, graças à sua sede de conhecimento aliado ao seu carisma e amizades influentes, absorveu como uma esponja técnicas de lutas das mais diversas com os mais variados experts. Lee era um “mente aberta” aproveitando do o que era útil e descartando o que para ele não era prático ou eficiente para um confronto corpo a corpo sem regras. Seu preconceito era apenas em relação a tradição dos sistemas fechados e inflexíveis. Dentro das artes marciais que experimentou, além das citadas anteriormente, e que lhe influenciou para desenvolver o Jeet Kune Do (O Caminho do Punho (e Pé) Interceptador), podemos citar o Judô; Jiu-jitsu e Aikidô japoneses; Boxe ocidental; Wrestler; Hapkidô coreano; e Savate, a arte também conhecida como Boxe francês.


Ilustração de dois praticantes de Savate por volta de 1877

Conde Pierre Baruzy aplicando um chute interceptador no joelho do adversário
A característica que mais chama atenção no Savate é a elegância de seus golpes e movimentos sincronizados, a postura equilibrada de seus lutadores, a economia e objetividade dos golpes aplicados pelas mãos e pés. Diferentemente do Muai Thay tailandês, o Savate não utiliza nas competições joelhos e cotovelos, mas isso não quer dizer que essas armas naturais não são usados numa briga real visando a defesa pessoal. O Savate também ainda oferece técnicas adaptadas da esgrima francesa. Os seus fundadores, a princípio, eram marginais e marinheiros franceses, estendendo-se posteriormente sua prática aos nobres franceses no século IX. Estes usualmente andavam com uma bengala que também utilizavam como uma arma de ataque e defesa, tal como o bastão em algumas artes marciais asiáticas. No caso bastão francês, utilizava-se ainda uma pequena lâmina na ponta que era acionada por um mecanismo, que poderia se tornar fatal num confronto de rua.


O savate teria se desenvolvido em alto mar pelos marinheiros franceses
A Arte do Savate, ou sapato velho, aportou e foi adotado do norte ao sul da França
Bruce Lee deve ter percebido muita similaridade em algumas técnicas de interceptação utilizando bloqueios, socos e chutes simultâneos do Savate francês com algumas combinações de defesa e ataque do Wing Chun Kung Fu, absorvendo o que lhe era útil; e ao observarmos os inúmeros recursos técnicos de Bruce Lee demonstrados em seus filmes, fica difícil discernir se tais técnicas provém de uma arte marcial chinesa ou francesa, pois ele as executava com tanta naturalidade que pareciam ser apenas recursos inerentes do “Kung Fu de Bruce Lee” ou do Jeet Kune Do.




A semelhança de algumas técnicas do Savate, Wing Chun e Jeet Kune Do são notórias

Bloqueio e contra-ataque simultâneos no Savate e no Jeet Kune Do


Chute baixo interceptando a investida do punho adversário
Torna-se interessante imaginar que certos chutes e sequências de golpes com mãos e pés sincronizados, exibidos nos “filmes de Kung Fu” na década de 1970, já eram utilizados naturalmente pelos franceses em brigas de rua na virada do século XVIII. Vamos a seguir a um pequeno resumo sobre a origem do Savate francês.


O famoso chute lateral de Bruce Lee já era aplicado pelos saveteurs no século XIX



Chutes baixos visando a canela e joelho do adversário, usuais no Savate e no Jeet Kune Do




O praticante de Savate é chamado “savateur”; o termo “savate” quer dizer “sapato velho ou desgastado”; sendo que seus praticantes usam atualmente um sapato especial, uma espécie de tênis leve ou sapatilha, para a prática dessa arte marcial. Outra característica do Savate é o uso de uma indumentária colante, como um macacão.


Bruce Lee usou o lendário macacão amarelo no filme O Jogo da Morte (The Game of Death),
uma clara referência ao Savate
Dois praticantes de Savate em disputa com seus macacões típicos


No filme o Jogo da Morte (The Game of Death), lançado em 1978, Bruce Lee usa o lendário macacão amarelo, que (para quem não sabe) era possivelmente uma referência ao Savate. Durante as sequências de Luta Lee demonstrava extrema leveza, desprendimento e flexibilidade, tal como um verdadeiro savateur. Na sequência em que Lee enfrenta Dan Inosanto, inicialmente ele utiliza uma vara de bambu, e sua movimentação lembra em muito as estratégias de esgrima francesa adaptadas para o Savate.


Ao Savate foi adicionado técnicas de manuseio de bastão baseados na esgrima francesa




Em O Jogo da Morte, Bruce Lee enfrenta Inosanto com uma Vara de Bambu
usando técnicas e estratégias de esgrima ocidental




Bruce Lee ainda adolescente, usando a vestimenta de esgrimista de seu irmão Peter Lee,
campeão de Esgrima de Hong Kong. Peter teria passado conhecimento técnico sobre esgrima para
Bruce Lee posteriormente.


Bruce Lee ao lado do irmão campeão de esgrima, Peter Lee
O Savate teria se desenvolvido por volta de 1790, por marinheiros franceses, conhecidos também como “Leões Marinhos”. Com certeza teriam aportado em algum país asiático (China, Coréia, Japão, Tailândia ou Filipinas) e se deparado com competições de artes marciais locais; ou num país africano, como Angola, ou até mesmo no Brasil, onde teriam presenciado a prática de uma capoeira ainda primitiva nos portos de Rio de Janeiro, Salvador, Recife, São Luís ou Belém e adaptaram tais técnicas às suas rotinas desenvolvidas a bordo dos navios. A história diz que o Savate foi desenvolvido em alto-mar, inicialmente se predominava os chutes médios e altos, sendo que as mãos eram mais utilizadas para bloqueios e apoio para desferir os golpes com os pés como na Capoeira brasileira. A mãos eram utilizadas também para desferir golpes com a mão aberta e era comum o uso de cabeçadas no corpo a corpo.


Os marinheiros franceses teriam desenvolvido o Savate por volta de 1790 em alto mar.

O savate se desenvolveu naturalmente, adaptando-se ao corpo a corpo e ao boxe...

...golpes de pé mesmo em situações adversas...

...e até cabeçadas.

Originariamente o tipo de luta praticado a bordo pelos marinheiros franceses se chamava “Chausson”, em referência aos chinelos ou sandálias usados normalmente a bordo. Era comum na época os prisioneiros serem punidos pelos marinheiros com chutes nos traseiros. Essa punição passou a ser chamada de “Savate”, que poderia ser traduzido como “sapato velho”. O estilo Chausson era mais praticado no Sul da França e se utilizavam somente os pés para golpear; já  o Savate era mais utilizado no Norte a combinação de chutes e mãos abertas para atacar o adversário. O interessante era que os nobres franceses, por um tempo, resolviam suas diferenças em duelos usando armas de fogo, espadas ou bastões; enquanto a classe mais baixa em suas contendas apelavam geralmente para as mãos e os pés. Conta-se que os punhos começaram a ser utilizados no Savate após um confronto entre um boxer inglês e um savateur em 1845. O boxeador inglês Owen Swift teria anulado as tentativas de golpes com o pé do lutador francês, Charles Lecour (melhor aluno do mestre savateur Michel Casseux), encurtando a distância e interceptando-o com socos precisos. Assim, o Savate foi reformulado, acrescentando a “nobre arte” do boxe inglês, ressurgindo como uma arte mais completa que foi adotada do Norte ao Sul da França. 


O Savate acabou por conquistar a elite depois de regulamentado

Conde Pierre Baruzy, um dos pioneiros do Savate moderno



A luta de rua francesa passou a ser considerado esporte regulamentado graças ao médico e mestre do Savate, Michel Casseux, que em 1825, abriu o primeiro centro de treinamento para o ensino do Savate em Paris. Consta que em 1850 ocorreu a primeira disputa oficial de Savate com regras, diferenciando-o da luta original desenvolvida na marginalidade. A regulamentação como esporte atraiu a elite e a juventude francesa. Louis Vignezom foi o primeiro campeão de Savate numa competição oficial. Mas quase que essa arte marcial francesa foi exinta em função das mortes da maioria dos mestres durante o conflito na Primeira Guerra Mundial.




Desenhos e anotações do próprio Bruce Lee sobre o Savate, feitos durante sua convalescença de seis meses em 1970 após sofrer uma lesão na lombar ao fazer exercícios com uma barra com pesos. 
Todo material foi editado e publicado no livro "Tao of  Jeet Kune Do" alguns anos depois de sua morte.


Para Bruce Lee, tudo que é útil deve ser assimilado e o que é inútil descartado
Nota-se claramente a influência do Savate ou Kick-boxe francês dentro da concepção de combate desenvolvida pelo artista marcial Bruce Lee e denominada por ele mesmo de Jeet Kune Do. Sua morte precoce, em 1973, o impediu de alcançar os mais altos degraus de sua busca da pela perfeição em combate, mas podemos constatar hoje em dia como seus registros de estudos e pesquisas contribuíram para o desenvolvimento das artes marciais para o mundo de uma forma mais prática, honesta e menos fantasiosa.

Por Eumário J. Teixeira

quinta-feira, 21 de abril de 2016

BRUCE LEE E O AVISO OFENSIVO À RAÇA CHINESA EM HUANGPU PARK


Na filme A Fúria do Dragão (Fists of Fury – 1972) o personagem principal do filme, Chen Zhen (interpretado por Bruce Lee), se dirige ao cemitério-parque de Xangai para visitar o túmulo de seu mestre que morreu de forma misteriosa em sua própria casa. Ao chegar ao portão de entrada, Chen é barrado pelo guardião do local que ainda lhe mostra uma placa com os seguintes dizeres humilhantes: “Proibido a Entrada de Cães e Chineses”.  Em seguida o guardião do portão, aparentemente origem indiana, permite a entrada de uma senhora com seu cão de estimação para a perplexidade de Chen que o questiona irado. Nesse instante chega um grupo de quatro ou mais japoneses (que faziam parte da coligação internacional invasora) que percebendo a irritação de Chen, tentam induzi-lo a rastejar tal a um cão como condição para ele adentrar no parque. Bem, aí você pode imaginar o que aconteceu com os pobres japoneses. Após acabar com  eles na base de socos e chutes fulminantes, Chen se volta para a placa fixada próximo ao portão de entrada, salta e a arranca com um chute, e ainda no ar, num segundo movimento, despedaça a placa humilhante com outro chute frontal destruidor. O recado estava dado aos invasores da China e ao público chinês dos cinemas que aplaudiram e se extasiaram com a performance explosiva do mais recente herói das telas de Hong Kong e de toda Ásia, Bruce Lee! 

Chen chega aos portões do cemitério parque...

É barrado pelo guardião...

Questiona pela razão do impedimento...

Chen irado aguarda a resposta...

O aviso humilhante é mostrado...

Chegam os japoneses provocadores...

Tentam humilhar Chen...

E despertam a fúria do discípulo de Huo Yuanjia...

Resultado: Placa com aviso humilhante destruída
A pergunta é: A placa ofensiva e humilhante realmente existiu em algum momento da história chinesa? Vamos por partes.  

"Proibida a Entrada de Cães e Chineses", esse aviso realmente existiu?    
O mestre falecido de Chen Zhen se chamava Huo Yuanjia, ele realmente existiu e era muito respeitado pelo povo chinês e mesmo pelos invasores estrangeiros pela sua nobre educação, ética, intelectualidade, conhecimentos sobre ervas medicinais e artes marciais. Huo Yuanjia adoeceu gravemente e faleceu em 14 de setembro de 1910, em Xangai, onde comandava um centro de artes marciais chinesas. Ele tinha apenas 42 anos. Sua morte foi considerada suspeita, cogitaram até a hipótese de envenenamento gradual a mando de líderes invasores japoneses com a ajuda de traidores chineses dentro da casa do próprio mestre. 

Mestre Huo Yuanjia foi realmente morto em 1910 aos 42 anos. Na cena, Chen (Bruce Lee)
revoltado, não aceita a morte precoce do mestre (no retrato ao fundo)
A China nessa época era ocupada por uma colisão internacional integrada por ingleses, franceses, japoneses e mais tarde norte-americanos. Os  invasores humilhavam o povo chinês e tentavam desmoralizar ou eliminar seus heróis nacionais. Huo Yuanjia, possivelmente, era um alvo dos usurpadores.

Chen Zhen realmente existiu?
Chen Zhen, segundo consta, realmente existiu, era um dos discípulos mais capacitados de Huo Yuanjia que teria se revoltado com a morte precoce de seu mestre. Mas não se sabe maiores detalhes sobre ele e qual foi seu destino, apenas especulações e hipóteses não confirmadas que vão desde morte por fuzilamento até fuga forçada de Xangai.

A placa mítica usada para o filme

Brandon e Shannon (filhos de Bruce Lee) ainda crianças no intervalo das filmagens de
A Fúria do Dragão (Fists of Fury - 1972) . Shannon exibe o aviso polêmico.

Bruce Lee dirigindo a famosa cena de luta nas portas do cemitério parque em Fists of Fury
Sobre a placa com os dizeres “Proibido a Entrada de Cães e Chineses” há controvérsias. Os historiadores sérios dizem não haver nenhum registro fotográfico ou testemunho registrado de alguém  que viveu naqueles anos que confirme  a placa com essas palavras ofensivas e humilhantes. A placa teria sido fixada na entrada do que é atualmente o Huangpu Park, em Xangai, na China ocupada e fragilizada, por volta de 1908 a 1910, alguns anos após a Guerra dos Boxers, segundo a lenda.
Alguns afirmam que esse mito foi revivido na década de 1950 para a reunificação e reerguer a moral do povo chinês do pós-guerra e acabou se tornando um folclore que nunca foi desmentido.

Fists of Fury (A Fúria do Dragão) consagrou definitivamente Bruce Lee
 como ídolo maior dos chineses em todo o mundo
Oportunamente tal fato ou simples lenda, foi devidamente explorada no filme “A Fúria do Dragão” (Fists of Fury – 1972) pelo roteirista e pelo diretor do filme. Hong Kong dos anos de 1970, ainda que independente da China Comunista, era uma colônia britânica, e o povo chinês  carecia de auto-estima e ansiava por um herói com quem pudessem se identificar, ainda que fosse  um ator de cinema. E o tiveram, só que o herói tão esperado não era realmente qualquer um, era ator carismático e também um talentoso artista marcial que estava em plena ascensão: Bruce Lee! 

A verdadeira placa de Huangpu Park, em Xangai, fixada em 1917
Historiadores confirmam através de documentos e fotos que a placa afixada na época de Huo Yuanjia, não tinha esses dizeres humilhantes e discriminatórios a chineses, apenas um regulamento com dez itens e teria sido fixada por volta de 1917. Apesar disso, houveram relatos de outros estudiosos confirmando que de fato os chineses eram discriminados, humilhados e até mortos sob acusação de rebelião pelos invasores.

A cena de A Fúria do Dragão (Fists of Fury) de  1972, foi filmada na verdade em Macau,
na entrada do parque Luis de Camões


A entrada do parque Luís de Camões praticamente permanece inalterada desde 1972
Outra curiosidade sobre o assunto é que na verdade a famosa cena de A Fúria do Dragão em que Chen (Bruce Lee) chuta a placa  e a despedaça no ar, não foi filmada no parque histórico de Xangai, mas em frente dos portões do parque Luís de Camões, em Macau.
Macau, é um  território composto pela península (que leva o nome) e mais duas ilhas a 60 km de Hong Kong, na época (1972) era ainda um território chinês administrado por Portugal, mas desde 1999 voltou a ser controlado novamente pela China comunista. A escolha por Macau foi por causa das dificuldades encontradas para filmar em Xangai, em plena China comunista e além do mais, o parque de Macau lembrava, segundo alguns, o parque Huangpu. Sem contar que já havia por lá estúdios para filmagens adquiridas anteriormente em negócio pela produtora Concord de Hong Kong, o que facilitou em muito a redução de gasto das filmagens.


O aviso “Proibida a Entrada de Cães e Chineses” se foi inventada ou não com o propósito de estimular a revolta e a auto-estima do povo chinês, ninguém saberá ao certo, mas é evidente que a oportuna exploração do mito no filme A Fúria do Dragão fez com que os chineses de Hong Kong no início da década de 1970 pudessem bradar ao mundo que agora eles também  tinham um herói tão poderoso quanto os ídolos estrangeiros, um chinês explosivo de 1,68 m, chamado Bruce Lee, pouco depois conhecido como o Rei do Kung Fu.

Por Eumário J. Teixeira.